quarta-feira, maio 22, 2013

Loverboy



Li finalmente a mítica trilogia do "Loverboy" personagem criada por Marte (Marcos Farrajota) em 93 para o fanzine "Mesinha de Cabeceira". A início, além do argumento, era desenhado também pelo próprio criador, tendo tido posteriormente um episódio desenhado por Miguel Falcato e um poster por Yip Sou. Em 96 entra João Fazenda para assumir o desenho de "Loverboy" num projecto mais longo e que resultaria em três livros: "O rebelde"; "A faculdade são dois ou três livros" e "[...]muda mas fica igual [...]".

Fiquei imediatamente fã deste Loverboy (parece que é mesmo o nome dele) uma personagem que nos é apresentada como um engatatão filha da mãe, capaz de seduzir uma mulher só para mais tarde a ridicularizar numa situação qualquer. No primeiro tomo, "Rebelde", acompanhamo-lo a ele e aos seus amigos durante uma noite de concertos. Como o público alvo feminino deste evento não parece estar muito interessado em Loverboy - parece que é um betinho - a noite não lhe corre nada bem, acabando por jurar formar uma banda para se vingar delas. De destacar também os seus amigalhaços, nomeadamente, o satânico Astarot que fez uma cruz invertida na testa com um ferro em brasa, esta personagem é qualquer coisa de espectacular. Quanto aos fãs de um género musical mais voltado para o rock e o metal estejam atentos aos inúmeros nomes de bandas que por aqui passam, todos trocadilhos com bandas reais e alguns dos quais hilariantes.


A fusão de estilos é que vai criar um som inovador! O que seria dos Rage Against The Working Class se não misturassem sons diferentes?

Leonardo


Loverboy podia ser perfeitamente uma personagem parada no tempo, no entanto, o autor optou por desenvolvê-lo e evoluí-lo (excelente opção). Se no primeiro tomo temos a personagem no fim do liceu, em "A faculdade são dois ou três livros" assistimos Loverboy a ingressar no ensino superior e mais importante ainda a apaixonar-se. Nunca antes este rapaz se havia preocupado com alguém, nem sentido o carinho que sente por esta rapariga. Claro que numa incursão pelo mundo universitário não podiam faltar as habituais praxes, aulas e - pois claro - as tunas.



Todas as tunas académicas são asquerosas e esta é a mesma merda.
Loverboy


Quanto a "[...]muda mas fica igual [...]" apanhamos Loverboy numas férias após ter tido o coração partido. Este livro é todo uma grande trip de ácidos e questiono-me se será por isso que Fazenda mudou o registo do desenho, mas arrisco-me a dizer que não. De qualquer das formas o seu traço é claramente distinto neste livro quando comparado com os outros, menos detalhado e pormenorizado, mas que assenta muito bem no tom psicadélico da história. E não posso deixar passar despercebida a aparição do "Pato Otário" a primeira personagem criada por Marte.



FUCK POSEURS!!! ALL HAIL METAL!!!
Astarot



Como já referi fiquei fã deste grupo de amigos, gostei das personagens criadas por Marte e das suas pequenas sátiras às várias comunidades, sejam os melómanos ou os universitários, entre outros. Quanto ao João Fazenda, já tinha gabado o seu storytelling em "Tu és a mulher da minha vida, ela a mulher dos meus sonhos" e volto a fazê-lo aqui, que num registo completamente distinto volta a marcar pontos. Quanto mais conheço dele mais pena tenho que não tenha editado BD nos últimos tempos.

Todos os livros foram editados pela Polvo e o segundo volume recebeu uma menção honrosa para melhor álbum português no festival internacional de BD da Amadora em 98.



terça-feira, maio 21, 2013

Afterschool (2008)


Em 2008 António Campos trouxe-nos a sua primeira longa-metragem intitulada "Afterschool". É um filme que se debruça sobre a geração dos vídeos cibernautas, a "geração youtube". O desenvolvimento da tecnologia tem repercurssões na nossa forma de estar, tanto pessoal como profissional. Os nossos hábitos mudaram com a  introdução da internet, dos telemóveis, etc. Vivemos tempos de grande e rápida expansão tecnológica e por isso quanto mais rápido esse desenvolvimento maior o poço que separa as gerações umas das outras.

Campos focou-se então num aluno em particular, Robert, que tem um grande interesse e fascínio por vídeos. Vídeos com aspecto caseiro e artesanal, vídeos que pareçam genuínos e que com eles pareça que estamos a assistir a uma qualquer verdade ao contrário do mestre das ilusões, o cinema. E a maioria desses vídeos são de facto realistas, outros, fica a questão no ar.

Quando se envolve no clube de vídeo da escola, Robert acaba por filmar em directo a overdose de duas gémeas, uma tragédia que irá colocar a sua escola em alerta vermelho. Esta situação tem uma influência muito grande, mas inicialmente contida, em Robert, são várias as vezes que este assiste ao seu vídeo, onde o próprio aparece a ir ter com as gémeas nos seus últimos momentos, numa cena que tem o seu quê de intrigante e misteriosa.

Ao longo do filme vamos tentando compreender o que se passa dentro da sua mente e a forma como este acontecimento o marcou, há medida que vamos conhecendo também outros alunos e determindadas particularidades na gestão de uma escola privada - nada surpreendentes. Se "Afterschool" vale a pena pela mensagem e pela exploração destes temas, vale também pelo fantástico desempenho de Ezra Miller no papel de Robert, que já aqui mostrava ser um "natural born actor".

 "Afterschool" tem um tom algo experimental, uma aproximação, em termos de estilo, entre a ficção e o documentário. Talvez criando uma ligação aos mesmos vídeos que tenta explorar. É muito curiosa a cena em que Robert mostra o seu vídeo de homenagem das gémeas que morreram. Também o seu vídeo é altamente experimental causando estranheza e repugnancia a um dos directores da escola que acaba por desenvovler outro projecto, mais tradicional, mais óbvio e banal. Este director podia ser a persononificação de Hollywood a recusar um filme destes que certamente teria uma abordagem bem distinta ao contar esta história, e que atenção, não teria de ser má, são cinemas distintos e é apenas isso que quero realçar.

segunda-feira, maio 20, 2013

E assim começa a aventura


"Em suma, enfrascou-se com tanto em sua leitura, que se lhe iam as noites lendo de uma assentada, e os dias de sol a sol; e assim, de pouco dormir e do muito ler, se lhe secou o cérebro de maneira que acabou por perder o juízo."

em Dom Quixote De La Mancha de Miguel de Cervantes

quinta-feira, maio 16, 2013

Tu és a mulher da minha vida, ela a mulher dos meus sonhos


Se a capa de um livro é importante a fim de captar a nossa atenção, o título também terá um papel a desempenhar nesse sentido. São, afinal de contas, estes os primeiros contactos que temos com um livro e que nos poderão fazer pegar nele e folheá-lo. Claro que se não devemos julgar um livro pela capa, também não o devemos fazer pelo título. Isto para dizer que Pedro Brito (argumento) e João Fazenda (desenho) escolheram um título certeiro para esta BD. Há qualquer coisa de imensamente atractivo quando lemos as palavras "Tu és a mulher da minha vida, ela a mulher dos meus sonhos", onde rapidamente a nossa curiosidade é despertada, pelo menos foi o que aconteceu comigo.

Ainda há pouco tempo tive uma conversa sobre a forma como algumas pessoas olham a BD. Parece que muitos encaram-na não como uma arte com a sua própria identidade, mas antes como um género da literatura. Tal como existe o terror, o drama ou a comédia, existe também a BD. Ora nada mais errado, a BD é uma arte que tal como a literatura possui vários géneros e é normal, como em tudo o resto, que não se gostem de todos, isso não faz com que não se goste de BD. Por isso é que acho que a maioria das pessoas que o afirma, são as que menos a conhecem. Partilho esta conversa que tive porque ao iniciar este livro o protagonista, Tomás, também a tem com um amigo, foi como se me estivesse a "ouvir".

Tomás está neste momento a batalhar com os seus pensamentos em busca de inspiração para escrever um argumento para BD. A sua relação amorosa tem vindo a denegrir com o tempo, Elsa, a sua mulher, uma pintora ansiosa por receber reconhecimento, tem-se afastado cada vez mais dele, fechando-se num mundo ao qual ele não sente pertencer. Entretanto, enquanto continua a sua demanda em busca de uma musa inspiradora, parece vir a encontrá-la nos seus sonhos. Sonhos esses que parecem ter uma qualquer ligação a uma estranha planta que comprou no meio da rua. O mais estranho é que a musa que lhe surgiu em sonhos lhe acabará por surgir à sua frente no comboio. Será possível sonharmos com alguém que nunca antes vimos? Ou haverá algo mais neste acontecimento? Magia? Ou pura e simplesmente o destino?

Gostei da história e dos diálogos, apenas acho que o "destino" facilita muito a vida de Tomás no final. Todos os seus problemas se concluem de forma rápida e eficaz, principalmente o do seu casamento com Elsa, cuja dinâmica poderia ter sido mais explorada.

Conheci o trabalho de João Fazenda com as suas ilustrações para os textos da Visão de Ricardo Araújo Pereira e que deram o livro "Boca do Inferno". Quando soube que tinha feito BD comecei a procurar os seus trabalhos dos quais este foi o primeiro que li. O exercício que Fazenda fez neste livro é muito interessante e mostra como podemos fazer algo bom e diferente sem precisar de ter grandes custos de impressão. O livro é desenhado a preto-e-branco, usando em determinados momentos uma coloração vermelha, por exemplo, em algumas peças, de roupa, no fumo de um cigarro, ou no, mais óbvio, sangue. A combinação entre a cor vermelha e o traço negro de Fazenda resultam numa mistura singular que só por si já fazem desta uma leitura que merece a nossa atenção.

"Tu és a mulher da minha vida, ela a mulher dos meus sonhos" foi editado pela "Polvo" e venceu os prémios de "Melhor álbum português" e "Prémio Juventude" em 2001 no Festival Internacional de BD da Amadora, e "Livro do ano 2000 em BD" pelo Diário de Notícias.

quarta-feira, maio 15, 2013

Cem Anos de Solidão



Pablo Neruda apelidou "Cem anos de Solidão" como a maior revelação na literatura de língua espanhola desde "Dom Quixote" de Cervantes. Escolhi começar o texto por esta frase não tanto pelo elogio de Neruda, mas pela curiosidade de que - no seguimento do clube de literatura - Dom Quixote foi o livro que calhou ser lido imediatamente após este.

Além de ser um dos livros mais conhecidos da língua espanhola, é também um dos mais conhecidos do género do "realismo mágico", que segundo o crítico Franz Roh, é um estilo de escrita "em que o sobrenatural é apresentado de forma mundana e o mundano de forma sobrenatural ou extraordinária" [1]. De facto a forma como Gabriel García Márquez introduz os elementos fantásticos surge-nos de uma forma tão terrena como outra actividade qualquer que respeite as leis da física. Não existe nunca um enaltecimento ou deslumbramento no tom da escrita quando se aborda o mágico, mantendo-se sempre a mesma sobriedade ou loucura, para abordar qualquer assunto, o que torna o ambiente narrativo numa mistura natural entre o real e o fantástico.

Esta é a história da família Buendía, encabeçada no início por José Arcádio Buendía - fundador da aldeia Macondo (situada algures na América do Sul) - e a sua mulher Úrsula Iguarán. Logo a inicio o tema do incesto surge quando sabemos que Úrsula e José Arcádio Buendía são primos, o que leva a mulher a recusar as primeiras investidas do marido por temer que os seus filhos nasçam com rabo de porco. Eventualmente Úrsula vê-se obrigada a aceder aos pedidos do marido, de forma a não causar maiores estragos dando início à descendência dos Buendía, com o nascimento do primogénito José Arcádio, do observador Aureliano e posteriormente da rancorosa Amaranta. Contudo o tema do incesto não se fica por aqui, marcando sempre uma forte presença ao logo das várias gerações.

São duas grandes personagens estas que dão início à história, de um lado temos o sonhador impulsivo que é José Arcádio Buendía, o homem das tarefas mirabolantes, e do outro uma das personalidades mais fortes de toda a história, a imbatível Úrsula, que se mantém firme e resistente contra todas as adversidades.

No fundo, "100 anos de Solidão" pode ser visto quase como um conjunto de várias curtas histórias, uma vez que começamos com a de José Arcádio Buendía e Úrsula, mas continuamos com as dos seus descendentes que vão chegar até à sétima geração. Ao longo do livro vamos notando algumas similaridades nas personagens e nas suas aventuras e desventuras, algo que Úrsula irá captar e vincar a dada altura. É como se a hístória dos Buendía estivesse condenada a repetir-se, porque o tempo não é uma linha recta mas antes um círculo. Tal pode ser visto também em algumas personagens que ao partilharem o nome partilham também determinadas características tais como os José Arcadios (fortes e impulsivos) e os Aurelianos (mais solitários e obecadados). Isto parece assumir um papel tão forte que quando tal não ocorre, falo dos gémeos José Arcádio Segundo e Aureliano Segundo, Úrsula prontamente afirma que se trocaram quando eram miúdos, o que muito provavelmente é verdade e dá um gosto especial ao final das suas histórias.

Existe também uma forte carga política no livro - onde Macondo representa a Colômbia - que começa logo com o patriarca José Arcádio Buendía, mas que assume proporções maiores na história do seu filho, aquele que dará nome a uma rua, o Coronel Aureliano Buendía. Quando o seu sogro lhe revelou as diferenças entre o conservadorismo e o liberalismo, Aureliano percebeu que ao contrário dele era um convicto liberal. Esta é uma decisão que irá colocá-lo no caminho das revoluções e da guerra. Foram várias as batalhas que travou onde todas elas terminaram em derrotas, derrotas não só físicas mas também de espírito, quando a linha que separa os valores do liberalismo e do conservadorismo não parece tão carregada e intensa como no início. A par dos seus pais, o Coronel Aureliano é uma dos melhores personagens cujo final ficará sempre cravado na minha memória.

Devido ao isolamento de Macondo em relação ao resto do mundo, a cidade começa como se estivesse parada no tempo, deslumbrando-se com as novidades que os ciganos trazem de tempos a tempos. Eventualmente a cidade sofrerá várias alterações que a vão colocando em maior contacto com artigos e costumes de outras culturas, como quando Úrsula descobre o caminho que o seu marido procurou e nunca encontrou e que fará a ligação a outras localidades trarzendo novos visitantes. As mudanças tornam-se mais drásticas quando os caminhos de ferro chegam a Macondo e com eles o "progresso". Atente-se quando um dos muitos visitantes, o Sr. Brown, dá início ao negócio de plantação de bananeiras, o que resulta na criação de uma sociedade aparte de Macondo e separada por arame. Um segmento onde o capitalismo e as leis do trabalho são explorados, resultando num terrífico confronto que para sempre assombrará uma das personagens do livro. Aqui García Márquez foca também o quanto a passagem da História para as futuras gerações está dependente dos vencedores para a contarem, algo mais desenvolvido e explorado no livro anterior o "1984" de George Orwell.

É um belo e muito divertido livro, que nos faz viajar pela História de uma terra imaginária, desde os seus primeiros tempos, até aos finais. O final é tocante e mágico, onde o cigano Melquíades ainda tem uma palavra a dizer, a partir dos seus famosos pergaminhos que nos revelam o encerrar de um ciclo de 100 anos de solidão. Uma solidão que esteve muito presente na família Buendía e que chega enventualmente, como todas as coisas, ao fim.

terça-feira, maio 14, 2013

Jagten


SPOILERS

Já me tinham prevenido que "Jagten" de Thomas Vinterberg é uma das melhores estreias do ano e, após a sua visualização, só posso concordar.

Temos aqui um grande argumento de Tobias Lindholm eThomas Vinterberg que toca em uma das questões mais sensíveis para o ser humano, o do abuso de menores. As crianças são os inocentes do nosso mundo, aqueles que protegemos acima de tudo e aqueles a quem não toleramos que sofram acima dos outros. Vinterberg opta por explorar não o lado do abuso, mas o que uma acusação deste calibre pode fazer a alguém.

Lucas (excelente Mads Mikkelsen) é um professor que trabalha num jardim de infância. É um homem amado na sua comunidade e pelas crianças com que trabalha também. O pior da sua vida é a luta pelo seu filho, cuja custódia perdeu. Porém, tudo está prestes a mudar quando Klara, a filha do seu melhor amigo, profere à frente da directora da escola que viu o pénis duro de Lucas. Tais palavras e imagens, vieram do seu irmão e de um colega que as viam no ipad. A directora, contudo, não sabe isto e fica em alerta. A situação começa a escalar e assume proporções gigantescas e, a dada altura, Lucas é acusado de ter abusado de várias crianças da turma.

Quando a própria Klara admite ter inventado tudo, já todos pensam que é o trauma que a faz mentir e quase a convencem, por sugestão, do que aconteceu conLucas foi verdade. A sugestão é algo muito delicado, não me surpreendia que no filme Klara surgisse após 20 anos a acreditar que tinha sofrido um abuso de Lucas.

A grande força do filme é este forte realismo que sentimos ao assisti-lo. Esta é uma história que poderia acontecer a qualquer um. Basta uma criança proferir tais palavras e todos ficamos alarmados e desconfiados. A problemática maior é que é possível que uma criança também minta quando foi abusada e a dada altura como ficamos a conhecer a verdade? De fora ainda poderemos conseguir manter algum sangue frio, mas e se fosse o nosso filho? Por muito que crítique a atitude da directora, principalmente no aviso a todos os pais onde espalha um pânico desnecessário, a verdade é que facilmente podemos cair no lado da injustiça e sem grandes esforços. É que se por acaso for verdade...

Claro que uma mancha destas na vida de alguém é algo que por muito que se limpe, nunca sai verdadeiramente, como se mostra no final do filme. Para sempre Lucas terá a vida injustamente manchada.

Um filme duro de ver, novamente, pela sua abordagem tão real, que o elevam a uma das propostas mais interessantes do ano.

segunda-feira, maio 13, 2013

Dire Straits - Once Upon A Time In The West



Reza a lenda que após ter visto o filme de Sergio Leone, um Mark Knopfler embriagado compôs uma pérola musical com o mesmo nome do filme.

Em "Alchemy", um álbum ao vivo, os Dire Straits presenteiam-nos com uma versão longa desta mesma canção. São 12 minutos de magnificência musical.

Alguém dizia uma vez que os álbuns ao vivo nunca eram tão bons pois as canções perdiam qualidade sonora quando comparadas com as dos álbuns de estúdio. Faz sentido, ou melhor, faz sentido para bandas que não acrescentem nada ao vivo, que simplesmente se limitem a tocar um álbum tal e qual como o gravaram. Mas, quando falamos de bandas como os Dire Straits, a história é outra e "Alchemy" é a prova disso. Tome-se como outro exemplo a célebre "Sultans of Swing" que aqui conta com 10 minutos e um solo ainda mais impressionante saído das mãos desse mestre que toca sem palheta, Mark Knopfler.

Zona Nippon 2


O 2º tomo da Zona Nippon, dedicada a temas e estilos japoneses, já se encontra disponível para comprar.

O lançamento decorreu no passado sábado no festival Anicomics.

O libro tem 90 páginas e conta com a participação de 19 autores:


Este número conta também com uma entrevista a Selma Pimentel.
A capa é da autoria de Paula Almeida.
Para mais informações podem consultar o blog oficial.

sexta-feira, maio 10, 2013

Paradoxa - Novo Projecto de BD Nacional em Crowdfunding


O crowdfunding parece consolidar-se cada vez mais como um veículo para a produção de obras que veio para ficar. O Kickstarter tem dado que falar pelos seus inúmeros projectos que deram e irão dar frutos. Veja-se o caso do já aqui mencionado "Fairy Quest" ou da velocidade com que se atingiu o orçamento para o filme de "Veronica Mars".

Tiago Pimentel (desenho) e Ricardo Rosado (argumento) são dois autores portugueses que decidiram utilizar este veículo a fim de publicar a BD "Paradoxa" usando para isso a plataforma massivemov. Em tom de curiosidade o Kickstarter exige ter alguém a residir nos Estados Unidos (ou algo similar).

Desta forma podem consultar o projecto e se estiverem interessados ajudá-lo aqui.

Também podem consultar a página no facebook. De resto deixo uma sinopse do trabalho e algumas imagens divulgadas pelos autores.

PARADOXA
 
Paradoxa é um mundo alternativo. Uma realidade alternativa. Animalia paradoxa é um termo assim baptizado para descrever aqueles animais aos quais Lineus não fora capaz de incluir numa das suas classificações do reino animal. A fénix, a hidra e por aí em diante. Rapidamente descartou essa classificação, a classificação do inclassificável. Aqui retomamo-la. Pandora é uma mulher que algures na sua vida se fundiu com um gato, contra sua vontade, o assimilou ao seu estômago. Esse gato é membro de uma organização secreta denominada iLeus votada a descobrir traços de pura humanidade no universo, algo raro, pois a miscigenação entre o ser humano e o ser animal é elevada. Mas ficamos aí no que toca a Hicks (deve ser lido como um soluço) o gato. A história, este primeiro volume, descreve a vida de P. (Pandora) e o mito de criação original deste universo, segundo consta terá sido criado por dois deuses, o Deus Para e o Deus Doxa. Paradoxa é um evento, um evento que: esporadicamente; e inexplicavelmente leva à fusão dos seres, animais e humanos.






LISBON FETISH WEEKEND 2013



O "Lisbon Fetish Weekend" está de regresso para a sua 2º edição a decorrer de 30 de Maio a 2 de Junho em Lisboa.. O festival é organizado pela  ConSenSual e apresentado como sendo de cariz artístico, cultural e científico dedicado ao universo fetichista e kink.


Para mais informações deixo o respectivo comunicado de imprenssa:

Ao lado de outras metrópoles europeias como Paris (Semaine Demonia), Berlim (German Fetish Ball), Barcelona (Barcelona Fetish Weekend) e Londres (London Fetish Weekend), Lisboa encontra-se já definida no roteiro da cena Fetichista internacional na sequência da primeira edição deste evento no ano passado. A adesão e sucesso do evento em 2012 levou a sua promotora ConSenSual a reeditá-lo dentro do mesmo espírito.

As principais actividades integradas no Lisbon Fetish Weekend 2013 compreendem:

I – COLÓQUIO: “BD[SM]: Um Mundo de Emoções”



Neste Colóquio pretendem abordar-se as emoções que o BDSM encerra e desperta, tendo em conta diferentes perspetivas, da psicologia às neurociências, da linguagem à comunicação, da arte à perceção exterior. Para tal, vão estar presentes académicos e profissionais de diferentes áreas do saber, incluindo a Psicologia, a Sexologia, as Ciências da Comunicação, o Jornalismo e as Artes Plásticas, que irão debater este tema de forma séria, sem preconceitos e tendo em conta o estado atual do conhecimento científico e social. Fábrica de Braço de Prata – 30 Maio/19h00.

II – MOSTRA LITERÁRIA

O Lisbon Fetish Weekend 2013 englobará uma Mostra Literária incluindo obras de ficção e de não ficção, desde as mais antigas às contemporâneas, dedicadas ao Fetichismo e ao BDSM. Fábrica de Braço de Prata – 30 Maio a 2 Junho.

III - II Edição do CONCURSO DE FOTOGRAFIA FETICHISTA

Na sequência da primeira edição em 2012, são convidados a concorrer com obras inéditas subordinadas aos temas Fetichismo, Erotismo e Kink, fotógrafos profissionais e amadores, bem como alunos das escolas de arte e de fotografia. Concurso aberto de 15 de Março a 15 de Maio de 2013 e regulamento disponível no site do evento.

IV – EXPOSIÇÃO DE ARTE

O Lisbon Fetish Weekend 2013 apresentará uma Exposição de Arte dedicada ao BDSM e Fetichismo incluída no Mês do Erotismo promovido pela Fábrica de Braço de Prata, a qual contará com a exposição dos premiados do Concurso de Fotografia Fetichista. Fábrica de Braço de Prata - 30 Maio a 29 Junho.

  V - CINEMA

No seguimento de Londres, Copenhaga, Örebro, Viena e Amesterdão, a screening tour do Fetisch Film Festival passará por Lisboa pela mão do Lisbon Fetish Weekend 2013. O evento será o anfitrião para o screening de 5 vencedores do Fetisch Film Festival 2012. Este certame é a mais conceituada atribuição anual de prémios a filmes com teor erótico-fetichista e BDSM e realiza-se em Kiel, na Alemanha. Fábrica Braço de Prata - 31 de Maio, 22h30.

VI - WORKSHOPS

O Lisbon Fetish Weekend 2013 abrirá espaço para dois workshops, um de Desenho (Live Kinky Drawing) e outro de Shibari/Kinbaku, erotizando a antiga arte japonesa de atar com cordas. O workshop de Desenho será lecionado por Telmo Alcobia, e versará sobre técnicas de desenho à vista de construções de shibari as quais serão feitas ao vivo para os alunos. Por sua vez, o workshop de Shibari/Kinbaku será leccionado por Riccardo Wildties (Kinbaku Luxuria) e versará sobre a prática desta arte de imobilização com cordas. Fábrica Braço de Prata - Live Kinky Drawing: 1 Junho, 14h às 18h; Shibari/Kinbaku: 2 Junho, 14h às 18h.

VII – PERFORMANCE de SHIBARI

O Lisbon Fetish Weekend 2013 tem a honra de apresentar uma performance de Shibari por Kinbaku LuXuria (Riccardo Wildties e Redsabbath). Os espectáculos da Kinbaku LuXuria são conhecidos pela sua intensidade e erotismo extremos, resultado de uma profunda e íntima ligação entre ambos.. Podemos antever uma experiência fascinante uma vez que Riccardo Wildties e Redsabbath são considerados dos melhores artistas de Shibari/Kinbaku a nível Europeu. Fábrica de Braço de Prata - 1 de Junho, 22h 30.

VIII – KINKY RENDEZ-VOUS (Play Party)

O lado festivo não deixará de estar presente neste certame e será num ambiente Fetish Glamour, aberto a qualquer pessoa, que o Lisbon Fetish Weekend 2013 apresentará uma festa temática.. Para se ser admitido, no entanto, os participantes deverão respeitar o rigoroso dress code, como é “norma” neste género festas. Fábrica Braço de Prata – 1 Junho, 24h00.

Sobre a ConSenSual

A ConSenSual, promotora do evento, é uma organização que tem por objetivo ajudar a desmistificar opções e estilos de vida alternativos ligados ao BDSM e Fetichismo. Um espaço educacional aberto a todos e que aborda e analisa temas conceptuais, de saúde e jurídicos. O site da promotora pode ser visitado em www.consensual.org.pt.

Mais informações disponíveis em: www.lisbonfetishweekend.com, no Facebook em www.facebook.com/LisbonFetishWeekend ou através do e-mail geral@consensual.org.pt



quarta-feira, maio 08, 2013

El Ángel Exterminador (1962)

 
Um grupo de amigos e conhecidos, após uma sessão de Ópera, dirigem-se para casa de um deles a fim de festejarem durante um magestoso jantar. Para espanto dos anfitriões e até mesmo de alguns convidados, ninguém abandona a casa. Passam-se assim longas horas sem que nenhum dos convidados manifeste interesse em abandonar a sala acabando por dormirem todos nessa mesma divisão

O que de noite se estranhou, obteve a confirmação na manhã, ninguém era capaz de abandonar a sala em questão. Não há razões aparentes, nem qualquer tipo de lógica, pura e simplesmente ninguém é capaz de dar um passo para fora e, inconvenientemente, ninguém consegue entrar dentro daquele propriedade. Desta forma, este grupo de pessoas fica exilado do resto do mundo, tendo de sobreviver dentro de apenas uma divisão - é que nem sequer podem usufruir da casa inteira.

A primeira vez que ouvi a ideia deste filme foi no "Midnight in Paris" de Woody Allen e captou imediatamente a minha curiosidade. Sou fã do bizarro, sou fã do surreal. Há filmes que vemos e nos conquistam logo, rapidamente sentimos que vimos um grande filme. Mas, há outros, que conseguem ir ainda mais além, entrar logo naquele lista dos preferidos, há filmes que quando os vemos consideramos que muito provavelmente vão entrar na lista dos "filmes da nossa vida", "El Ángel Exterminador" é um desses filmes.

Quanto mais conheço Luis Buñuel mais acredito que é um dos grandes mestres da 7º arte. O autor utiliza esta "prisão surrealista" para desenvolver as relações sociais entre um grupo de pessoas que da noite para o dia se encontra encurralada. Os ânimos vêm ao de leve, onde uns são mais tempestuosos e outros mais calmos e ponderados. Porém, pouco a pouco, todos acabam por quebrar à sua maneira. Alguns optam pela única fuga possível enquanto outros enquanto houver vida jamais a largarão.


segunda-feira, maio 06, 2013

Pink Floyd + David Bowie


Não resisti e tive de trazer estes dois para casa. Um antigo e um recente. Porque não há banda melhor que Pink Floyd nem artista melhor que David Bowie.


O Vinil de Bowie além de ter uma estética belíssima, também traz o CD do álbum.




Já a edição de "Dark Side of the Moon" disponibiliza o dowload em mp3 do álbum e traz três posters e três autocolantes.




domingo, maio 05, 2013

Fringe - Temporada 4



SPOILERS
 
É preciso dar mérito a Fringe pela sua ambição na ficção científica. Temos aqui um cocktail delirante onde se exploram tanto os universos paralelos, como as viagens no tempo e até capacidades paranormais. A exploração destes temas tem aumentado ao longo do tempo e nesta quarta temporada atingiu níveis de maior exagero, com o Peter a ser removido da linha temporal e as capacidades de Olivia atingirem um nível de energia nada menos do que extraordinário.

No final da temporada anterior, depois da brilhante revelação de quem são os primeiros homens, o Peter ao optar por ajudar os dois universos em vez de destruir um pelo bem do outro, acabou por desaparecer da linha temporal ao criar uma ponte entre os dois universos. Aparentemente tudo corre conforme os observadores planearam, a fim de corrigir o erro de September. Porque é que Peter teve de ser removido? Se September não tivesse feito asneira ele estaria vivo, mas como não sabemos qual seria o seu destino, fica naquele poço das questões cuja resposta não é suposto sabermos.

Além da componente científica - ficcional, muito ficcional - de Fringe, a série também dá destaque a questões religiosas e ainda mais àquilo que mais nos distingue enquanto humanos, os nossos sentimentos. Com isto não quero separar a ciência destes aspectos, a emoção humana é algo extremamente poderoso, tal como a fé, a crença em algo, mesmo que esse algo exista apenas na nossa cabeça. Isto tudo para dizer que Peter não foi totalmente removido do universo, segundo September, graças ao amor que os seus entes queridos sentem por ele. A fim de corrigir isto September tem a função, que ignora, de eliminar por completo Peter.

Sem a existência do Bishop Jr. nesta linha temporal, o mundo de Fringe tal como o conhecemos é diferente. A início são diferenças pequenas, pontuais, mas que com o tempo se acentuam mais. O desaparecimento de Peter teve consequências mais drásticas do que se antecipava. Jones está vivo e William Bell é um homem diferente, onde os seus delírios de grandeza ainda são maiores. Faz sentido que Bell esteja vivo, afinal de contas, Olivia nunca partiu em busca de Peter ao outro lado, logo Bell nunca os ajudou.

O Coronel Broyles do outro lado está vivo, uma vez que nunca ajudou a nossa Olivia, mas não tem um final feliz também, destino talvez. Ainda assim apesar de ter "vendido a alma ao diabo" é bom ver como esta personagem se mantém honrável. Nutro grande respeito pelo Broyles, por ambos.

A início esta mudança na linha temporal custou, primeiro o desaparecimento de Peter e depois o facto de nos apercebermos que também o seu filho com a Olivia do outro lado, já não existe mais. Afinal esta criança só existiu com o único propósito de o Walternate poder usar a máquina do outro lado. Isto foi sem dúvida o que me custou mais, esperava mais da história para esta criança, que foi tão curta. Claro que sempre pensei que todos iam recuperar a memória certa dos eventos, que Peter e Walter corrigiriam isto, que a quarta temporada ia ser uma fase passageira, que os argumentistas não iam fazer desaparecer as memórias de Walter sobre o seu filho, mas estava enganado, as coisas mudaram de vez, e o Peter já se pode dar satisfeito por Olivia ter recuperado as suas, mas ela é especial, muito especial.

Assim sendo a início Fringe surge-nos quase como um começar de novo, uma repetição do que nos foi dado, mas com uma colaboração entre os dois universos. Afinal os inimigos agora são outros e há medida que avançamos na histórias vamos descobrindo o real perigo, William Bell pretende colidir os dois universos para criar um novo, povoado com as suas espécies alteradas e sem a dedada do Homem. Eu disse que os seus delírios de grandeza eram ainda mais exagerados.

Gostei da aparição de Bell no final, para nos mostrar que havia vida além de Jones, ainda assim Jones foi o vilão que marcou presença a maior parte do tempo, merecia um desfecho melhor. Por falar em desfechos, caramba que pena a morte do Lincoln (do outro lado), esperava que a sua morte fosse mais épica, mas acredito que foi um catalisador para agravar a consciência de Broyles (do outro lado) e que o levou a entregar-se no fim. Já agora que diferentes os Lincolns, há que destacar os actores. Anna Torv por exemplo domina cada vez mais a interpretar diversas versões da sua personagem e até mesmo o próprio William Bell como se viu na temporada anterior quando foi "possuida".

E por falar no outro lado? O Charlie onde anda? Há alterações, como esta, que não me parecem muito justificáveis de ocorrer só porque o Peter não existe mais. Mas com o tempo temos estas vantagens, basta atirarmos uma bola para o lado contrário e TUDO pode mudar. Mas, mesmo assim esta temporada suscitou muitas questões e dúvidas. No final a forma como Walter chega a Bell é demasiado rebuscada, Olivia de repente já domina os poderes com grande confiança, sem falar no exagero que é ela ser a fonte energética para os universos colidirem.

O final da quarta temporada soube a desfecho, foi uma conclusão e após uma curta pesquisa percebi porquê. A série corria o risco de ser cancelada e assim sendo havia um final para os espectadores. Daí a introdução do episódio passado no futuro (Desmond is back). Este será o novo conflito a invasão dos carecas.

Para terminar quero reforçar que quero um final feliz para o Peter e a Olivia, eles merecem. Normalmente os protanogistas só se juntam mais perto do final, mas Peter e Olivia juntaram-se logo no final da segunda temporada e por isso desde aí tem sofrido contra tudo e todos para se manterem juntos. É mais que merecido o final feliz, e o facto de este final de 4º temporada quase ter sido o final da série, leva-me a reforçar esta ideia pois ambos acabam bem.

quinta-feira, maio 02, 2013

Anicomics - 11 e 12 de Maio


O Festival de BD Anicomics está de regresso e irá decorrer já no fim-de-semana de 11 e 12 de Maio.

Lançamentos, workshops, cosplay, exposições e muitos convidados, é o que se pode esperar deste festival que todos os anos tem crescido, afirmando-se cada vez mais como um dos melhores eventos de BD do país.

Para consultar o programa vejam a página oficial.

segunda-feira, abril 29, 2013

Iron Man: Extremis


Já era para ter feito isto há mais tempo, mas quero ver se este ano não falho. Falo de aproveitar a estreia de determinadas adaptações de BD, para sugerir uma leitura a quem está mais afastado da 9º arte.

Assim sendo e aproveitando a estreia de "Iron Man 3", escolhi como sugestão "Iron Man: Extremis" que até conta com edição nacional pela Levoir na segunda série da "Colecção Heróis Marvel". Escolhi o livro de Warren Ellis e Adi Granov porque o arco "Extremis" irá ter importância neste novo filme sobre Tony Stark. E vale também a pena relembrar que "Iron Man: Extremis" já havia sido uma fonte de inspiração para o primeiro filme do Iron Man.

Há que dar crédito à Marvel pelas suas inúmeras e fantásticas criações. Temos o nerd que está destinado a grandes feitos; o patriota que arriscará tudo por defender os ideais em que acredita; o cientista condenado, o anti-herói que fez de missão de vida punir os criminosos; temos ainda mutantes e deuses, entre tantos e tantos outros. E temos o Iron Man, à partida, o antónimo de um super-herói, ou não tivesse lucrado Tony Stark com a indústria do armamento. Além do mais Stark é um homem que já lutou - ou continua a lutar - contra o vício do alcoolismo, é um daqueles heróis quebrados e amargurados e por isso mesmo, uma personagem tão interessante,

Ellis, focou muito bem em "Extremis" esta faceta do herói, como podemos comprovar na fantástica cena em que Stark é entrevistado por John Pilinger (numa alusão a John Pilger). Um excelente diálogo sobre o papel que as armas de Stark têm no mundo, que vale tanto pelas questões do repórter, como pelas respostas de Stark.

É também uma história de grande importância na vida de Iron Man, é uma daquelas que irá mudar a vida da personagem tal como a conhecemos. Em "Extremis" o herói irá avançar tenoclogicamente a sua relação com a do fato de Iron Man, par aum novo nível, mas para não estragar, não entrarei em pormenores.




O desenho digital de Adi Granov (que trabalhou no desing dos filmes) é muito competente. Apesar de preferir registos mais clássicos, o trabalho digital de Granov aliado ao uso de fotografia é fantástico, mesmo a nível de acção, que me arrisco a dizer serem os melhores momentos do desenhador.

De aplaudir a edição da Marvel ter deixado passar as cenas finais do confronto. O livro tem a marca de violência de Ellis em todo o lado, mas nunca pensei que a editora a deixasse passar o final. Adorei.

A edição da Levoir ainda conta com mais quatro histórias curtas: "Railguns, power ties and titanium men" de Adam Warren e Salva Espin; "Killer Commute" de Mark Haven Britt e Nuno Plati; "Heavy Rain" de Matteo Casali e Steve Kurth; e "Hack" de Tim Fish e Filipe Andrade.

A primeira e a terceira recordam o grupo I.M.A., sendo a história de Adam Warren mais voltada para a aventura divertida e cartunesca. Em "Killer Commute" temos uma aventura centrada em Pepper e que conta com desenho e cor do português Nuno Plati, num belíssimo trabalho em que o desenhador volta a provar que tem um jeito natural para as senhoras. "Hack" foi o primeiro trabalho de Filipe Andrade que fala sobre ele e outros nos extras do livro, sem dúvida uma boa adição por parte da editora, principalmente pela oportunidade de ver os esboços do autor, pois com a adição da arte-final e da cor, o resultado muitas vezes é bastante diferente (para melhor ou pior) e neste caso vale a pena ver o trabalho original de Andrade, um dos nossos grandes desenhadores nacionais.

É pena que não tenha havido possibilidade de termos uma parte dos extras dedicadas também a Nuno
Plati.

Nota: Nos extras sobre Filipe Andrade, quando se lê que Ricardo Venâncio foi um dos desenhadores que participou em "Avengers Fairy Tales" deve ler-se Ricardo Tércio.

quarta-feira, abril 24, 2013

Jorge Coelho - Entrevista


A editora norte-americana BOOM! Studios editou, este mês, o primeiro número de “Polarity”, uma BD sobre um bipolar maníaco-depressivo que, após sobreviver a um acidente de viação, descobre que a sua medicação lhe tem bloqueado os super-poderes.

O argumento é de Max Bemis e, o desenho, do português Jorge Coelho. Coelho é um dos ilustradores e desenhadores de BD nacional que tem vindo a publicar material nos Estados Unidos. Aproveitando o lançamento deste número – o qual podem comprar em qualquer loja especializada de BD –, a Rua de Baixo convidou-o para uma pequena grande conversa.

Leiam a entrevista aqui.

sábado, abril 20, 2013

Hän Solo


Hän era um estudante Holandês de Erasmus que acabou por ficar por Portugal. Esta não é a sua história, apenas um pequeno fragmento da mesma, uma curta visão sobre uma determinada fase da sua vida. A escolha do nome Hän por parte de Lacas não é nada inocente como se comprova no título. Uma vez que Han é um solitário, quando passa por Madrid, ganha, automaticamente, a alcunha de Hän Solo.

O livro de Lacas consiste num exercício deambulatório e deve ser visto a essa luz. Seguimos esta personagem solitária pelas ruas de Lisboa e ficamos a conhecer as suas paixões (mulheres, desenho e fotografia), parte do seu passado e os seus medos - uma luta constante contra a bipolaridade. Neste sentido não é um livro que prime pelo seu argumento, contudo, considero que falha no final, num término algo abrupto e que podia ter sido contornado.

Em termos de desenho e, principalmente, storytelling, Lacas continua a provar que é um virtuoso, dá prazer passar as páginas e ver a naturalidade com que a história flui perante os nossos olhos. Em termos de cor optou-se apenas pelo uso de duas, num tom simples que se adequa muito bem à história. Lacas é também um excelente colorista.

Além da parte gráfica, o grande trunfo de "Hän Solo" é a sua autenticidade, é uma história com muito sentimento e isso passa para o leitor, não o deixando nunca indiferente. De salientar também a contextualização da narrativa onde se foca a situação actual em que vivemos, nomeadamente quando Hän fotografa a manifestação madrilena, perto do final do livro.



quinta-feira, abril 18, 2013

Moura BD 2013

 

O Festival Moura "BD" está de regresso, deixo aqui a mensagem retirada do site:

Está de regresso o Salão Internacional de Banda Desenhada de Moura, que terá a sua 18.ª edição entre 19 de Abril e 1 de Maio próximos. Tal como na edição anterior, o salão decorrerá em simultâneo com a Feira do Livro e vai distribuir vários núcleos pela cidade.

Desde logo o núcleo principal, em pleno centro da cidade, na Praça Sacadura Cabral, numa tenda gigante. Outros núcleos serão distribuidos pelo Espaço Inovinter e Cine-Teatro Caridade. O leque de autores homenageados engloba os portugueses Vassalo de Miranda e Zé Manel e o francês Hugues Barthe, que receberão os já tradicionais Troféus Balanito.

Quanto a exposições, para além das individuais dedicadas a cada um destes três autores, temos, para já garantidas as seguintes: “Eça de Queiróz na BD” e “Centenário de Willy Vandersteen” (ambas comissariadas por Luiz Beira), “Saramago em Caricaturas” (com trabalhos de autores portugueses e espanhóis), e a apresentação dos melhores trabalhos do 16.º Concurso de Banda Desenhada e do 14.º Concurso Escolar de BD (cujos regulamentos já estão disponíveis neste site – ver secção “Concursos”).

Quanto a edições, mantém-se a aposta nos Cadernos Moura BD, com um número dedicado a Vassalo de Miranda. Também a exposição de Zé Manel terá direito a catálogo numa produção da Humorgrafe/Osvaldo de Sousa.

Está, também, no ar a possibilidade de, durante o salão, as edições Polvo fazerem o lançamento de um álbum de Hugues Barthe, embora ainda não possamos confirmar esta notícia.

Mais informações serão aqui disponibilizadas nos próximos dias. 


O programa pode ser consultado nos blogs:

- Leituras de BD
- Leituras do Pedro

Indie Lisboa 2013


Começa hoje e dura até 28 de Abril, 10 dias dedicados ao cinema Indie. Consultem a página oficial aqui.

quarta-feira, abril 17, 2013

Man Of Steel - Trailer III



Continuo a acreditar que vamos ter um bom filme aqui.



Exposição Love Hole na Purple Rose



Estou muito curioso com este "Love Hole" de Afonso Ferreira e por isso vou aproveitar esta exposição para conhecer melhor a obra deste artistas. Segue o comunicado de imprensa:

Afonso Ferreira (Portugal, 1988) tem trabalhos de ilustração e BD publicados na Playboy, Cais, Lodaçal Comix e várias antologias da Associação Chili Com Carne: Destruição ou bandas desenhadas de como foi horrível viver entre 2001 e 2010, Boring Europa, Futuro Primitivo e Mesinha de Cabeceira.

No final de 2012 saiu o seu segundo livro de BD a solo Love Hole , pela Chili Com Carne e Ruru Comix, que será o motivo da exposição a inaugurar dia 18 de Abril (quinta-feira), pelas 22h, na loja Rose Purple Erotic Luxury (na Pensão Amor, Lisboa), onde regularmente tem havido exposições de ilustração erótica iniciada com o Calendário da AcontorcionistA, e continuado por exposições de Ana Menezes, Pepedelrey,...

Para esta exposição Afonso Ferreira preparou cinco novas imagens, cinco "pin-ups" homoeróticos das personagens do livro, plenos de provocação e humor, no espírito desta BD que têm confundido conservadores, hipócritas e norte-americanos politicamante correctos.

Para os coleccionadores de Arte e fetichistas do papel, foi feita ainda uma serigrafia limitada a 20 exemplares que estará à venda na inauguração. 

Apareçam e tragam o vosso excitado doppelgänger...

terça-feira, abril 16, 2013

Dia Mundial da Voz

E porque hoje é o dia da voz, deixo aqui algumas das minhas favoritas, algumas das que ouço mais e sem qualquer tipo de ordem.

Foram literalmente dos primeiros nomes que me surgiram na mente e tive de me obrigar a parar se não nunca mais saía daqui.

Saint Seiya Hades: Santuário


No "TVDependente" regresso às séries de animação Japonesa, desta vez para recordar "Saint Seiya", mais especificamente o último arco - Hades - que só surgiu passados 13 anos desde que a série havia terminado. Na altura - 2002 - foi uma excelente surpresa, uma oportunidade em regressar a este universo que prometia algumas surpresas ainda.

Quem quiser espreitar só tem de clicar aqui.

Fringe - Temporada 3



SPOILERS



"Fringe" continua a subir de qualidade, esta terceira temporada foi a melhor até ao momento. Depois na recta final da segunda, a terceira começa a alternar aventuras entre este e o outro mundo paralelo no qual a história da série incide. Ambas as Olivias estão trocadas e isso gera desenvolvimentos muito interessantes.

O Peter deve ser o único que se apercebe das mudanças em Olivia, mas como a relação de ambos havia mudado é normal que o rapaz coloque as suas dúvidas em modo de espera. Quanto à Olivia do outro lado, tal como suspeitava, a sua interacção com Walter, Peter e Astrid iria afectá-la. O seu lado pede-lhe morte e destruição e nesta equipa em que se infiltrou ela vê a busca genuína por uma resolução pacífica.

Quanto à nossa Olivia, as amizades que trava com um taxista e principalmente com Broyles não serão esquecidas. Grande Broyles! Foi bom também ver que Lincoln e Charlie começam a descobrir que muita coisa lhes foi escondida. Ainda espero grandes coisas destes dois.

Quando as Olivias são trocadas novamente, a do universo paralelo regressou com brinde. Se a sua relação com Peter começa por ser parte da missão, rapidamente evolve em outra coisa e agora ela carrega o seu filho. Não me fez muito sentido no episódio em que ela é raptada o Walternate ter revelado tanta coisa a Linconl quando na verdade era ele a mente por detrás do plano. Fez-me ainda menos sentido dizerem que a a doença hereditária de Olivia era um vírus (ou então a legendagem estava incorrecta, não garanto).

Muito estranho o episódio em que Peter andou a matar o shapeshifters, será que o desespero o levou a esta estrada ou será que foi mesmo weaponized pela máquina dos primeiros Homens, como disse Walter? Ainda por cima os shapeshifters até têm sentimentos, adorei aquele episódio em que um tenta por tudo não largar a família à qual se apegou.

Gostei também da explicação da história dos primeiros Homens. Desde que este povo surgiu, bem como a sua tecnologia avançada enterrada em partes do mundo, que algo não entranhava. Como é que rastos de um povo com tamanha tecnologia nunca vieram à tona antes. Pior, como é que a máquina foi feita especificamente para o Peter? Como podia isso ter sido pensado milénios antes? Não podia, é tão simples quanto isso e por isso quando a justificação surgiu até me senti parvo, pois na realidade é a resposta mais simples (tendo em conta a série que Fringe é). Acho que a revelação foi muito bem conseguida. Infelizmente a cena final deixa-me um travo amargo, temo o que pode acontecer com o desaparecimento de Peter. Já agora, não faltava uma peça na máquina do nosso lado roubada pela Olivia infiltrada? É que parece que não fez falta nenhuma...

De salientar também o episódio dentro da mente de Olivia em que metade do mesmo foi feito em animação. Além disso ainda tivemos um Broyles sob o efeito de LSD. Impagável.

sábado, abril 13, 2013

sexta-feira, abril 12, 2013

Abismos de pasión


Continuando a descobrir o cinema de Luis Buñuel, sigo para este "Abismos de pasión" (1954) a adaptação do livro Wuthering Heights (O Monte dos Vendavais) de Emily Jane Brontë. Antes de mais fiquei surpreendido com o número de adaptações cinematográficas que existem deste livro, parece que são tantas como as covers que há dos Depeche Mode.

O que vou dizer em seguida pode ser uma barbaridade, uma vez que não li o livro, mas fiquei com a sensação que Buñuel e Pierre Unik (os argumentistas) começaram a história a meio. Fica a sensação que faltou contar o nascimento do amor entre Alejandro (Jorge Mistral) e Catalina (Irasema Dilián), das suas aventuras e desventuras enquanto cresciam e da relação amarga entre Alejandro e Ricardo (Luis Aceves Castañeda). Evidentemente que nos situam na história, rapidamente percebemos quem são as personagens e o que as motiva, qual o seu passado, contudo não deixei de sentir este "salto" - real ou não - em termos narrativos.

O  sentimento que une Alejandro e Catalina é digno de um "Romeu e Julieta", pois sem um deles a vida do outro perde o sentido e esvai-se do corpo. Contudo, ambos são muito diferentes das personagens de Shakespeare. Alejandro é muito mais amargurado devido ao seu passado e cruel quando Catalina o recusa, já casada com Eduardo (Ernesto Alonso). Ao contrário do que esperaríamos Catalina não luta para ficar com aquele que amará para sempre, mesmo admitindo esse amor sem hesitar e mesmo não sendo capaz de viver sem ele. É como a grande maioria das grandes histórias de amor, uma tragédiam cheia de emoções fortes e dramatismos, que culminam num pathos final assombroso.

Polariy #1


Saiu este mês "Polarity" um comic com argumento de Max Bemis, desenho do português Jorge Coelho e cor de Felipe Sobreiro. A edição é da "Boom" e é uma história que estará dividida em 4 comics.

Max Bemis é o vocalista da banda Say Anything (que desconheço), o que me leva a pensar que começamos a ter uma tendência aqui. Afinal de contas também o argumentista dos "Umbrella Academy" é o vocalista dos "My Chemical Romance" - e gosto bem mais dele na BD.

A história gira à volta de alguém que sofre de bipolaridade e cujos mundos (psicológico e real) se irão misturar ao longo da história. Ainda não tenho o meu exemplar, mas não queria deixar passar mais tempo sem destacar este trabalho, especialmente por ser do Jorge Coelho um dos muitos excelentes desenhadores do nosso país e que espero que continue a prosperar neste mercado.

Já reservei o meu, quando terminarem de sair, voltarei a isto para falar do comic como um todo.

quinta-feira, abril 11, 2013

Pink Floyd - Wish You Were Here


Dead Combo: Sound Files

Foto de Orlando Almeida



O Jardim de Inverno do Teatro Municipal São Luiz, em Lisboa, foi palco do lançamento de “Dead Combo: Sound Files”, uma Banda Desenhada de Tó Trips (desenho) e Pedro Gonçalves (argumento) que pretende marcar o início da comemoração dos 10 anos dos Dead Combo, compilando uma série de tiras que ilustram vários episódios da vida deste - agora mais do que nunca - duo dinâmico. Não é uma ideia nada estranha, afinal de contas, os "Dead Combo" criaram duas figuras (Gangster e Cangalheiro) que facilmente poderiam ter saído das páginas de uma BD.

Estive presente no lançamento, onde aproveitei para ter o meu livro assinado, que ficou com um desenho bem estiloso de Tó Trips. Para lerem mais sobre o livro em si cliquem aqui, escrevi sobre ele na Rua de Baixo.

quarta-feira, abril 10, 2013

Céu Em Fogo de Tiago Manuel



Sábado 13 de Abril, pelas 17h00, na loja "Mundo Fantasma" situada no Porto, vai decorrer a inauguração da exposição "Céu em Fogo", com originais de ilustrações de Tiago Manuel, que marcará presença no evento.

Será também apresentado o livro "Mário de Sá-Carneiro: Antologia Poética" - ilustrado por Tiago Manuel -,  que é editado pela Faktoria K de Livros, uma chancela da Kalandraka. Já tinha falado desta colecção aqui, quando comprei a edição dedicada a Cesário Verde.

Para terminar recordo um poema desse ser extravagante e fundador do Orfeu.
Um sonhador e boémio que ao ver tardar a vida que imaginava… morreu.
Escreve a Pessoa, que o faz não por falta de felicidade mas por falta de dinheiro.
Esse poeta cujo primeiro nome começa por Mário e termina com Sá-Carneiro.



Fim

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.

Mário de Sá Carneiro

This Is the End - Red Band Trailer



Desconhecia o mais recente projecto de Evan Goldberg e Seth Rogen. Aparentemente durante uma festa em casa de James Franco, o mundo decide chegar ao fim dos seus dias. O mais curioso é que todos protagonistas estão a interpretar-se a eles próprios.

Franco já havia revelado em "30 Rock" que não tem problemas nenhuns em brincar com ele - e quando digo brincar é um eufemismo -, aqui pelo trailer dá para ver que é algo que se mantém. Gostei da amostra, acho que temos filme para umas valentes gargalhadas. E viva o humor negro - o Michael Cera que me perdoe.

terça-feira, abril 09, 2013

A Peste



Sabiam agora que, se há qualquer coisa que se pode desejar sempre e obter algumas vezes, essa qualquer coisa é a ternura humana.


"A Peste", de Albert Camus, narra a história do povo de Orão (Argélia) quando este é afectado, algures nos anos 40, por uma nova vaga da Peste. O livro foi editado em 1947, dez anos antes do autor ser galardoado com o prémio Nobel da literatura.

Segundo a contracapa o próprio autor agrupou as suas obras em três grandes ciclos temáticos: o do absurdo, o da medida e o da rebelião. Este último onde sugerem que "A Peste" está inserido. Contudo, parece-me ser justo integrar o livro em questão no ciclo do absurdismo também. O Absurdismo é uma corrente filosófica que lida com a busca pelo sentido da vida por parte da humanidade e em como a obtenção da resposta a esta questão está condenada a falhar, o que faz com que a sua procura seja absurda. É importante referir que, segundo o absurdismo, o impossível está no Homem e, por isso, apenas nesse sentido é que tal demanda é apelidada de absurda. A partir da doença da Peste o autor explora como o Homem lida com esta teoria filosófica, o que se torna muito evidente, por exemplo, nas personagens de Tarrou e Rieux.

A história é narrada por um habitante de Orão, alguém que sofreu do mesmo martírio que os seus concidadãos, ou seja, uma testemunha. E é nesse sentido de testemunha que o narrador aborda esta crónica, afastando-se de considerações pessoais e focando-se numa descrição o mais precisa que lhe é possível e imparcial também. Ao final do livro, o narrador em questão revela-se perante nós, apenas no fim, reforçando a necessidade em não o ter feito previamente.

Apesar de o narrador descrever de uma forma geral o comportamento do povo, a história é narrada maioritariamente a partir do ponto de vista de um dos seus cidadãos, o do Doutor Bernard Rieux, um médico que acompanha a invasão da Peste desde o seu início até ao seu final. Outra personagem cujo ponto de vista é focado é o de Jean Tarrou uma personagem misteriosa e bondosa cujos cadernos foram uma das fontes de material para o narrador usar nesta crónica. Tarrou é uma personagem intrigante cujas observações do dia-a-dia, durante a peste, complementam a narrativa fornecendo uma série de pormenores secundários. Como o próprio narrador diz sobre os seus cadernos: "trata-se de uma crónica muito especial, que parece obedecer a uma ideia preconcebida de insignificância".

Ao longo de cinco capítulos Camus descreve as várias fases desta epidemia, começando com os primeiros sintomas - os ratos são os primeiros a morrer - e continuando com o seu crescimento e constante apoderamento da cidade, culminando no seu eventual desmoronamento. Durante os primeiros infectados, quando a estatística assume um determinado valor, a prefeitura não vê outra acção que não o exílio de Orão do resto do mundo - entre outras medidas comuns em situações de quarentena. O sentimento de separação do mundo em geral e da pessoa amada em particular é muito focado em "A Peste" nomeadamente no médico Rieux, que se encontra separado da esposa, e no jornalista Rambert, que apenas estava de passagem na cidade. Rambert começa por se comportar como o emigrante que é (está separado da amada e da pátria também), mas ao longo desta luta temível acaba por se tornar tanto cidadão de Orão como Rieux e os outros. O tema do exílio é também explorado a um nível mais metafísico, como a procura por uma  felicidade ou paz - que Tarrou personifica e cuja definição é de certa forma uma incógnita.

A determinada altura a situação de Orão chega a estados verdadeiramente aterradores, ao ponto de colocar em dúvida se o mal que é a peste algum dia irá desaparecer. Perante isto alguns poderão resignar-se, aceitar este fado, esta tragédia. Mas há aqueles, como Rieux, Tarrou, Rambert e também Grant, que não atiram a toalha ao chão, que se recusam a desistir de combater, mesmo que estejam todos condenados. Mesmo que a derrota seja iminente, é preciso continuar a lutar e recusar a aceitação de um mundo comandado pela doença. Curiosamente este mal que ataca sem dó nem piedade, que ataca qualquer um e a qualquer momento, acaba por não ser capaz de tornar todos os homens iguais como se poderia supor- uma vez que rico ou pobre ninguém lhe escapa - porém, tal feito conseguiu-o melhor a alegria.

A partir do padre Paneloux, o tema da religião é também abordado. Numa situação apocalíptica como esta é mais do que natural que as pessoas se voltem para a fé, na esperança de uma salvação divina. Segundo Paneloux, a peste é um desejo de Deus, como tudo na vida, um que é preciso aceitar e cujo desígnio tem um propósito. O autor usa esta personagem para colocar o dedo na ferida em algumas questões religiosas. Uma das coisas que sempre foi difícil aceitar para o Homem na religião, foi o sofrimento dos inocentes, das crianças. Nesse registo Camus coloca Paneloux frente a frente com a morte de um pequeno rapaz, evento após o qual é notório um abalo na fé da personagem, tal como se viria a provar no tom do seu segundo sermão.

A descrição da cidade de Orão é sempre feita com especial atenção aos pormenores, atente-se por exemplo no simples facto de a cidade estar escondida do mar, afastada dessas águas que simbolizam a vida., uma simbologia que, eventualmente, assume um sentido literal com a chegada da peste. Por falar em água e vida, aquela curto momento de amizade partilhado entre Rieux e Tarrou, na praia, é um daqueles momentos que vale um livro.

Muito resumidamente esta poderia ter sido a minha observação de "A Peste" contudo tive a sorte de ler na contracapa que esta história tem um duplo sentido, pois além do mencionado, é também uma alegoria para a ocupação alemã da França entre 1940 e 1944 durante a segunda guerra. Sabendo isto de antemão é impossível não olhar para a história com outra leitura também, nem que fosse pelo poder da indução. O exílio, seja ele derivado da doença ou da guerra, resulta em situações comuns: os mantimentos são escassos, a separação dos entes queridos mantém-se, bem como a exibição dos mesmos filmes e das mesmas peças de teatro. Também a peste que entra em casa das pessoas trazendo morte e separação, pode simbolizar a terrífica Gestapo.

Em relação às personagens, os já mencionados Rieux, Tarrou e Rambert, são claramente os lutadores, a resistência da cidade. Já o padre Paneloux, que culpava a cidade pela peste, simboliza aqueles que culparam a França pela invasão e que consideravam que era na submissão que se encontrava a única resposta. Uma das personagens cujo propósito ganha um brilho especial é Cottard, que aqui personifica claramente o traidor, aquele que vive bem enquanto os seus concidadãos sofrem os piores tormentos. Gosto particularmente da descrição de Cottard que não cai em julgamentos fáceis, talvez por essa descrição vir maioritariamente de Tarrou, um homem cuja empatia pelo próximo é de uma ternura inspiradora.

segunda-feira, abril 08, 2013

Hannibal


Começou na semana passada uma nova série televisiva que me chamou a atenção por duas razões. Primeiro, o título, "Hannibal". Estamos a falar de um dos assassinos em série mais conceituados da ficção. A imagem do assassino culto ficou marcada por esta personagem, muito graças ao "Silence of The Lambs" e à interpretação de Antony Hopkins, pois Tom Ripley nasceu primeiro na literatura.

Contudo, o charme de Hannibal tem vindo a diminuir de filme para filme, se começarmos a contagem no "Silence of The Lambs". O anterior "Manhunter" de Michale Mann havia sido bem interessante. Pensando melhor não diria o charme de Hannibal, esse mantém-se ainda muito forte, se não duvido que a série existisse. Será porventura mais correcto dizer que a qualidade dos filmes é que veio a diminuir, nem cheguei a ver o "Hannibal Rising" por exemplo.

O que me leva para o segundo ponto de interesse e o que me fez querer ver a série. O criador por detrás da mesma é Bryan Fuller a mesma mente creativa por detrás de "Wonderfalls", "Pushing Daisies" e "Dead Like Me". É que o nome Fuller leva-me a acreditar que isto é mais que uma mera exploração de uma personagem para gerar audiências fáceis. Recentemente também estreou "The Bates Motel", que se trata de outra prequela, só que neste caso de "Psyco". Esperemos que a TV americana não caia no mesmo erro de "Hollywood" que está constantemente a ir buscar coisas ao baú em vez de criar algumas novas.

Vi este fim-de-semana o piloto e fiquei satisfeito. Esta série é uma prequela dos acontecimentos em "Red Dragon" mostrando-nos como Will Graham e Hannibal Lecter se conheceram e vieram a trabalhar juntos. Gostei do elenco, Hugh Dancy como o mítíco Will Graham convence e gera interesse. É verdade que a personagem está diferente do que conhecemos, mas é uma abordagem que me parece de valor. Mads Mikkelsen tem a tarefa árdua de interpretar Hannibal. A sombra de Hopkins é grande e espero que isso não afaste as pessoas do seu trabalho. Gostei do que vi e é preciso ver a série com um certo afastamento dos produtos mencionados acima.

Foi um bom começo e tendo em conta que os pilotos raramente são dos melhores episódios, é uma boa premissa. Ah e ainda temos Morpheus Lawrence Fishburn no elenco.

sexta-feira, abril 05, 2013

Psicose



Editado no final do ano passado pela “El Pep”, “Psicose” é um livro de Miguel Costa Ferreira (argumento) e João Sequeira (desenho) que reúne as colaborações entre esta dupla que se conheceu na célebre Tertúlia de BD de Lisboa de Geraldes Lino.

Em “Psicose”, a história que dá título ao livro, visitamos o que parece ser um hospício para seguirmos o narrador - um dos pacientes - na sua procura pela liberdade, após um momento de aparente consciência. Consciência essa que chega ao ponto de o fazer questionar a sua própria loucura

Tudo em “Psicose” é uma incógnita: não só o espaço e o tempo, como também o próprio narrador – inclusive a sua psicose ou sanidade. Será o narrador mesmo louco porque, simplesmente, a visão que tem do mundo é diferente da dos outros? Será que aqueles cuja percepção da realidade difere drasticamente da maioria são automaticamente doidos? Ou será que estão apenas num outro patamar de sanidade, num outro extremo? Os julgamentos, esses, os autores deixaram ao critério de cada um.

O aspecto mais interessante da história, e aquele que a destaca entre as demais, é o trabalho gráfico de Sequeira, que a partir da cor negra utiliza uma série de técnicas que resultam num produto final não só lúgubre e sujo – por vezes a relembrar o “Diário de K” de Filipe Abranches -, como também disfuncional e psicótico. De salientar a secção de material extra, no final do livro, com esboços de “Psicose” que revelam um pouco do funcionamento do processo de criação de João Sequeira.

Além da história principal, podemos contar ainda com mais três curtas: “Républica”, “Movimento Perpétuo” e “The Road”, todas desenhadas por Sequeira exclusivamente a negro, tal como em “Psicose”.
“Républica” prima pelo seu argumento inteligente e irónico; em poucas páginas se mostra como o mundo continua a girar enquanto o Homem será sempre o Homem. Não é de admirar que tenha vencido o 1º prémio (escalão A+) no festival “Amadora BD”, em 2010. Já “Movimento Perpétuo” e “The Road” são, tal como “Psicose”, histórias menos sóbrias e mais surrealistas. Na primeira – vencedora do 1º prémio (escalão B) no festival Moura BD 2011 -, os autores voltam a abordar a percepção da realidade, enquanto em “The Road” (escrita em Inglês) focam que o mundo pode mudar e todos nós com ele, mas a estrada, esse caminho a percorrer, está sempre lá à nossa espera.

A edição em si é deveras curiosa. Por dentro tem um ar muito artesanal e pessoal, como se das páginas originais se tratassem – foi legendada à mão; por fora, a escolha da capa dura e da lombada demonstram um certo brio, uma certa preocupação em querer distingui-la numa qualquer livraria ou estante pessoal.




Publicado originalmente na Rua de Baixo.