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sexta-feira, fevereiro 28, 2014

Viridiana (1961)



Esta será talvez a maior imagem de marca de "Viridiana" de Luis Buñuel, onde o realizador recriou a cena da última ceia a partir de um grupo de sem abrigos que abusa da hospitalidade oferecida. 10 anos depois de "Susana" o realizador espanhol surge-nos com um filme cuja crítica social não se encontra tão escondida, tão subtil.

Após a sua visualização - que já decorreu há muito tempo perdoem qualquer falta de memória - entrou logo para o leque de favoritos do realizador, que tendo em conta a qualidade do mesmo é dizer muito. A crítica social e religiosa em "Viridiana" - carregada de simbologia - é fortíssima e mostra-nos o quanto este realizador consegue ser ácido e severo, mas nunca descurando o humor ainda que seja negro.

Uma das cenas que mais me marcou foi a do cão que se encontra preso a uma carroça. A personagem Jorge, para o salvar tem de o comprar, mas ao fazê-lo surge-lhe novamente a mesma situação com outro cão. Pessoalmente considero esta uma metáfora muito rigorosa do nosso mundo. É aquela sensação de que a solução para o problema não está numa qualquer ajuda individual, ainda que esta seja relevante. Uma boa acção é melhor que nenhuma. Mesmo assim sentimos-nos esmagados com o peso do mundo onde mudá-lo é como remar contra a maré.

quinta-feira, novembro 21, 2013

Susana (1951)


Da negra tempestade surge Susana, com seu corpo angelical e alma demoníaca. É recebida pela família Guadalupe que lhe dá abrigo e carinho. Como se fosse um membro da família Susana é assim integrada naquela dinâmica familiar tão celestial. Mas os símbolos estão lá, Susana é o mal, no dia em que chega à quinta um potro morre e uma égua adoece, se isto não fosse  claro o final volta a reforçá-lo, tudo fica bem sem a presença de Susana.

Ela é a serpente do paraíso em contraste com a família perfeita e católica (até o nome do filho é Jesus) e o efeito sedutor que tem nos homens, não demora a fazer-se sentir. Susana sabe que a sedução é algo que lhe vem de forma natural e manipula o seu dom a seu bel-prazer. Em pouco tempo, não há homem na quinta que não saiba quem ela é e que não sonhe com ela. O problema de ser demasiado sedutor é que por vezes seduzimos mesmo quando nem tentamos.

Toda a família cai em tentação, cada um à sua maneira e, no entanto, apenas Susana é recriminada como sendo "o diabo", a culpada. Ela que nos é apresentada como prisioneira num reformatório onde parece ser constantemente recriminada pelas suas acções, afinal de contas, não é pura nem virtuosa. O filme trata-a assim a partir de todos os simbolismos, mas será que a mensagem é mesmo essa por parte de Buñuel? Não é. Há aqui uma forte ironia em toda esta situação, mas uma ironia tão suave que fintou de forma genial a censura da altura como muito bem explica este belo texto de João Bénard da Costa que encontrei no Cine Resort.

Neste meu precurso pela filmografia de Luis Buñuel, chegou a vez de "Susana" o filme com a maior carga de sensualidade e erotismo que vi do realizador. A sensualidade e a nudez não são a mesma coisa e "Susana" não deixa de ser uma lição nesse campo, para muitos outros filmes que falham em capturar semelhante atmosfera.

O final recordou-me o de "A History of Violence" aquele regressar às origens como se nada se tivesse passado. Claro que neste caso o contexto é diferente e o final muito mais surreal e inverosimil. Uma coisa é certa: para passar a provação é sempre mais fácil remover a tentação.

quarta-feira, maio 08, 2013

El Ángel Exterminador (1962)

 
Um grupo de amigos e conhecidos, após uma sessão de Ópera, dirigem-se para casa de um deles a fim de festejarem durante um magestoso jantar. Para espanto dos anfitriões e até mesmo de alguns convidados, ninguém abandona a casa. Passam-se assim longas horas sem que nenhum dos convidados manifeste interesse em abandonar a sala acabando por dormirem todos nessa mesma divisão

O que de noite se estranhou, obteve a confirmação na manhã, ninguém era capaz de abandonar a sala em questão. Não há razões aparentes, nem qualquer tipo de lógica, pura e simplesmente ninguém é capaz de dar um passo para fora e, inconvenientemente, ninguém consegue entrar dentro daquele propriedade. Desta forma, este grupo de pessoas fica exilado do resto do mundo, tendo de sobreviver dentro de apenas uma divisão - é que nem sequer podem usufruir da casa inteira.

A primeira vez que ouvi a ideia deste filme foi no "Midnight in Paris" de Woody Allen e captou imediatamente a minha curiosidade. Sou fã do bizarro, sou fã do surreal. Há filmes que vemos e nos conquistam logo, rapidamente sentimos que vimos um grande filme. Mas, há outros, que conseguem ir ainda mais além, entrar logo naquele lista dos preferidos, há filmes que quando os vemos consideramos que muito provavelmente vão entrar na lista dos "filmes da nossa vida", "El Ángel Exterminador" é um desses filmes.

Quanto mais conheço Luis Buñuel mais acredito que é um dos grandes mestres da 7º arte. O autor utiliza esta "prisão surrealista" para desenvolver as relações sociais entre um grupo de pessoas que da noite para o dia se encontra encurralada. Os ânimos vêm ao de leve, onde uns são mais tempestuosos e outros mais calmos e ponderados. Porém, pouco a pouco, todos acabam por quebrar à sua maneira. Alguns optam pela única fuga possível enquanto outros enquanto houver vida jamais a largarão.


sexta-feira, abril 12, 2013

Abismos de pasión


Continuando a descobrir o cinema de Luis Buñuel, sigo para este "Abismos de pasión" (1954) a adaptação do livro Wuthering Heights (O Monte dos Vendavais) de Emily Jane Brontë. Antes de mais fiquei surpreendido com o número de adaptações cinematográficas que existem deste livro, parece que são tantas como as covers que há dos Depeche Mode.

O que vou dizer em seguida pode ser uma barbaridade, uma vez que não li o livro, mas fiquei com a sensação que Buñuel e Pierre Unik (os argumentistas) começaram a história a meio. Fica a sensação que faltou contar o nascimento do amor entre Alejandro (Jorge Mistral) e Catalina (Irasema Dilián), das suas aventuras e desventuras enquanto cresciam e da relação amarga entre Alejandro e Ricardo (Luis Aceves Castañeda). Evidentemente que nos situam na história, rapidamente percebemos quem são as personagens e o que as motiva, qual o seu passado, contudo não deixei de sentir este "salto" - real ou não - em termos narrativos.

O  sentimento que une Alejandro e Catalina é digno de um "Romeu e Julieta", pois sem um deles a vida do outro perde o sentido e esvai-se do corpo. Contudo, ambos são muito diferentes das personagens de Shakespeare. Alejandro é muito mais amargurado devido ao seu passado e cruel quando Catalina o recusa, já casada com Eduardo (Ernesto Alonso). Ao contrário do que esperaríamos Catalina não luta para ficar com aquele que amará para sempre, mesmo admitindo esse amor sem hesitar e mesmo não sendo capaz de viver sem ele. É como a grande maioria das grandes histórias de amor, uma tragédiam cheia de emoções fortes e dramatismos, que culminam num pathos final assombroso.

segunda-feira, março 04, 2013

Los Olvidados



O nome Luís Buñuel tornou-se sinónimo de surrealismo no cinema. Ninguém hoje discute a exploração desta corrente artística na sétima arte sem mencionar o nome do realizador espanhol. No entanto, acima de tudo, Buñuel era um realizador de cinema, um que não tinha receios de experienciar e que durante a sua carreira explorou uma série de géneros diferentes.

 “Los Olvidados”, apesar de conter elementos surrealistas, é na sua génese um filme profundamente realista, algo que era essencial a fim de desenvolver o seu objectivo, podendo ser incluindo no movimento artístico do realismo social. Logo a início o narrador alerta-nos para o problema em questão, a pobreza na infância, um problema que será demonstrado numa história – apresentada como real – que decorreu na Cidade do México, mas que poderia ter decorrido num outro lado qualquer. O narrador é também muito claro em afirmar que este filme tem apenas o intuito de evidenciar este problema e não de o resolver, as respostas, essas, cabem a todos nós procurar e descobrir, porque “Los Olvidados” pode ser um filme, mas o problema é muito real.

O filme tem início com o regresso de El Jaibo, um jovem delinquente que fugiu de uma casa de correcção e se reúne com o seu antigo grupo, onde rapidamente assume a posição de líder. De momento aquilo que mais o move é a procura por Julián quem ele crê ser o responsável pelo seu encarceramento. Todos no grupo admiram a sua tenacidade, todos incluindo Pedro, aquele que verá a sua vida intimamente ligada à de El Jaibo quando o assiste na sua sede de vingança.


 A pobreza pode levar a vários cenários de terror, incluindo ao próprio abandono de um filho como é o caso do rapaz que ganha a alcunha de ojitos. Todas estas crianças têm uma história, um passado que as conduziu até onde estão hoje e todas estas histórias poderiam ser, cada uma delas, um outro filme, contudo, aqui é a história de Pedro que é revelada, aquela sobre qual Buñuel se debruça. Quando conhecemos o seu ambiente familiar – vive com a mãe e os irmãos – percebemos rapidamente que Pedro cresceu sem o sentimento mais importante no desenvolvimento de qualquer criança, o amor. Como alguém refere no filme, às vezes deviam ser os pais a ser presos e não os filhos. Mas, “Los Olvidados” não pretende julgar, pois por mais condenáveis que as acções da mãe de Pedro sejam também ela é uma vítima da sua própria realidade.

Alfonso Mejía está soberbo no papel de Pedro, o rapaz tem um brilho nos olhos que nos faz instantaneamente acreditar nele sem serem precisas palavras ou acções, é um sentimento que paira no ar e nos faz saber que dada a oportunidade Pedro será um dos bons, que por muito que a sua moral tenha sido corrompida, o seu coração ainda está no sítio certo.

Vencedor do prémio de melhor realizador em 1951 no festival de Cannes, “Los Olvidados” é um daqueles filmes que após visto fica connosco para sempre, nunca mais nos largando.


Nota: Este texto foi publicado originalmente no site da Rua de Baixo, onde fiz uma perninha na secção de Cinema para falar de um clássico da sétima arte à minha escolha.