quarta-feira, maio 15, 2013

Cem Anos de Solidão



Pablo Neruda apelidou "Cem anos de Solidão" como a maior revelação na literatura de língua espanhola desde "Dom Quixote" de Cervantes. Escolhi começar o texto por esta frase não tanto pelo elogio de Neruda, mas pela curiosidade de que - no seguimento do clube de literatura - Dom Quixote foi o livro que calhou ser lido imediatamente após este.

Além de ser um dos livros mais conhecidos da língua espanhola, é também um dos mais conhecidos do género do "realismo mágico", que segundo o crítico Franz Roh, é um estilo de escrita "em que o sobrenatural é apresentado de forma mundana e o mundano de forma sobrenatural ou extraordinária" [1]. De facto a forma como Gabriel García Márquez introduz os elementos fantásticos surge-nos de uma forma tão terrena como outra actividade qualquer que respeite as leis da física. Não existe nunca um enaltecimento ou deslumbramento no tom da escrita quando se aborda o mágico, mantendo-se sempre a mesma sobriedade ou loucura, para abordar qualquer assunto, o que torna o ambiente narrativo numa mistura natural entre o real e o fantástico.

Esta é a história da família Buendía, encabeçada no início por José Arcádio Buendía - fundador da aldeia Macondo (situada algures na América do Sul) - e a sua mulher Úrsula Iguarán. Logo a inicio o tema do incesto surge quando sabemos que Úrsula e José Arcádio Buendía são primos, o que leva a mulher a recusar as primeiras investidas do marido por temer que os seus filhos nasçam com rabo de porco. Eventualmente Úrsula vê-se obrigada a aceder aos pedidos do marido, de forma a não causar maiores estragos dando início à descendência dos Buendía, com o nascimento do primogénito José Arcádio, do observador Aureliano e posteriormente da rancorosa Amaranta. Contudo o tema do incesto não se fica por aqui, marcando sempre uma forte presença ao logo das várias gerações.

São duas grandes personagens estas que dão início à história, de um lado temos o sonhador impulsivo que é José Arcádio Buendía, o homem das tarefas mirabolantes, e do outro uma das personalidades mais fortes de toda a história, a imbatível Úrsula, que se mantém firme e resistente contra todas as adversidades.

No fundo, "100 anos de Solidão" pode ser visto quase como um conjunto de várias curtas histórias, uma vez que começamos com a de José Arcádio Buendía e Úrsula, mas continuamos com as dos seus descendentes que vão chegar até à sétima geração. Ao longo do livro vamos notando algumas similaridades nas personagens e nas suas aventuras e desventuras, algo que Úrsula irá captar e vincar a dada altura. É como se a hístória dos Buendía estivesse condenada a repetir-se, porque o tempo não é uma linha recta mas antes um círculo. Tal pode ser visto também em algumas personagens que ao partilharem o nome partilham também determinadas características tais como os José Arcadios (fortes e impulsivos) e os Aurelianos (mais solitários e obecadados). Isto parece assumir um papel tão forte que quando tal não ocorre, falo dos gémeos José Arcádio Segundo e Aureliano Segundo, Úrsula prontamente afirma que se trocaram quando eram miúdos, o que muito provavelmente é verdade e dá um gosto especial ao final das suas histórias.

Existe também uma forte carga política no livro - onde Macondo representa a Colômbia - que começa logo com o patriarca José Arcádio Buendía, mas que assume proporções maiores na história do seu filho, aquele que dará nome a uma rua, o Coronel Aureliano Buendía. Quando o seu sogro lhe revelou as diferenças entre o conservadorismo e o liberalismo, Aureliano percebeu que ao contrário dele era um convicto liberal. Esta é uma decisão que irá colocá-lo no caminho das revoluções e da guerra. Foram várias as batalhas que travou onde todas elas terminaram em derrotas, derrotas não só físicas mas também de espírito, quando a linha que separa os valores do liberalismo e do conservadorismo não parece tão carregada e intensa como no início. A par dos seus pais, o Coronel Aureliano é uma dos melhores personagens cujo final ficará sempre cravado na minha memória.

Devido ao isolamento de Macondo em relação ao resto do mundo, a cidade começa como se estivesse parada no tempo, deslumbrando-se com as novidades que os ciganos trazem de tempos a tempos. Eventualmente a cidade sofrerá várias alterações que a vão colocando em maior contacto com artigos e costumes de outras culturas, como quando Úrsula descobre o caminho que o seu marido procurou e nunca encontrou e que fará a ligação a outras localidades trarzendo novos visitantes. As mudanças tornam-se mais drásticas quando os caminhos de ferro chegam a Macondo e com eles o "progresso". Atente-se quando um dos muitos visitantes, o Sr. Brown, dá início ao negócio de plantação de bananeiras, o que resulta na criação de uma sociedade aparte de Macondo e separada por arame. Um segmento onde o capitalismo e as leis do trabalho são explorados, resultando num terrífico confronto que para sempre assombrará uma das personagens do livro. Aqui García Márquez foca também o quanto a passagem da História para as futuras gerações está dependente dos vencedores para a contarem, algo mais desenvolvido e explorado no livro anterior o "1984" de George Orwell.

É um belo e muito divertido livro, que nos faz viajar pela História de uma terra imaginária, desde os seus primeiros tempos, até aos finais. O final é tocante e mágico, onde o cigano Melquíades ainda tem uma palavra a dizer, a partir dos seus famosos pergaminhos que nos revelam o encerrar de um ciclo de 100 anos de solidão. Uma solidão que esteve muito presente na família Buendía e que chega enventualmente, como todas as coisas, ao fim.

4 comentários:

Rafael Santos disse...

Para ler muito em breve, tenho bastante curiosidade por esta obra! Já agora, acabei hoje mesmo de ler "A Voz Subterrânea" do Dostóievsky. Aconselho vivamente :) Um livro existencialista e único, nunca li nada assim. Óptima forma de me iniciar no autor eheh

Abraço,
Rafael Santos
Memento mori

Loot disse...

Vou estar atento a esse "A Voz Subterrãnea", Dostoiévski é um daqueles autores que quero continuar a seguir atentamente. Acho que ele é dos que melhor explora a nossa mente e consciência.

Quanto a este é bastante diferente, aliás como deve ser toda a literatura russa da sul-americana.

Gostei bastante, também é um livro sofredor, mas com um tom de maior diversão. Gabriel García Márquez é um bom narrador :)

abraço

Rafael Santos disse...

Percebo-te perfeitamente. Ainda só tive oportunidade de ler este (pequeno mas grande) livro dele mas denota-se isso. Consegue explorar com uma lucidez notável os meandros da loucura, a forma como um indivíduo se integra numa sociedade tão estruturada, etc etc. Tem tanta "alma" aquele livro...

Abraço

Loot disse...

Ele foi considerado um dos grandes "psicólogos" da literatura. Aliás a psicologia só foi considerada uma ciência perto ou após a sua morte, não tenho a data presente :P

Abraço