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quarta-feira, maio 22, 2013

Loverboy



Li finalmente a mítica trilogia do "Loverboy" personagem criada por Marte (Marcos Farrajota) em 93 para o fanzine "Mesinha de Cabeceira". A início, além do argumento, era desenhado também pelo próprio criador, tendo tido posteriormente um episódio desenhado por Miguel Falcato e um poster por Yip Sou. Em 96 entra João Fazenda para assumir o desenho de "Loverboy" num projecto mais longo e que resultaria em três livros: "O rebelde"; "A faculdade são dois ou três livros" e "[...]muda mas fica igual [...]".

Fiquei imediatamente fã deste Loverboy (parece que é mesmo o nome dele) uma personagem que nos é apresentada como um engatatão filha da mãe, capaz de seduzir uma mulher só para mais tarde a ridicularizar numa situação qualquer. No primeiro tomo, "Rebelde", acompanhamo-lo a ele e aos seus amigos durante uma noite de concertos. Como o público alvo feminino deste evento não parece estar muito interessado em Loverboy - parece que é um betinho - a noite não lhe corre nada bem, acabando por jurar formar uma banda para se vingar delas. De destacar também os seus amigalhaços, nomeadamente, o satânico Astarot que fez uma cruz invertida na testa com um ferro em brasa, esta personagem é qualquer coisa de espectacular. Quanto aos fãs de um género musical mais voltado para o rock e o metal estejam atentos aos inúmeros nomes de bandas que por aqui passam, todos trocadilhos com bandas reais e alguns dos quais hilariantes.


A fusão de estilos é que vai criar um som inovador! O que seria dos Rage Against The Working Class se não misturassem sons diferentes?

Leonardo


Loverboy podia ser perfeitamente uma personagem parada no tempo, no entanto, o autor optou por desenvolvê-lo e evoluí-lo (excelente opção). Se no primeiro tomo temos a personagem no fim do liceu, em "A faculdade são dois ou três livros" assistimos Loverboy a ingressar no ensino superior e mais importante ainda a apaixonar-se. Nunca antes este rapaz se havia preocupado com alguém, nem sentido o carinho que sente por esta rapariga. Claro que numa incursão pelo mundo universitário não podiam faltar as habituais praxes, aulas e - pois claro - as tunas.



Todas as tunas académicas são asquerosas e esta é a mesma merda.
Loverboy


Quanto a "[...]muda mas fica igual [...]" apanhamos Loverboy numas férias após ter tido o coração partido. Este livro é todo uma grande trip de ácidos e questiono-me se será por isso que Fazenda mudou o registo do desenho, mas arrisco-me a dizer que não. De qualquer das formas o seu traço é claramente distinto neste livro quando comparado com os outros, menos detalhado e pormenorizado, mas que assenta muito bem no tom psicadélico da história. E não posso deixar passar despercebida a aparição do "Pato Otário" a primeira personagem criada por Marte.



FUCK POSEURS!!! ALL HAIL METAL!!!
Astarot



Como já referi fiquei fã deste grupo de amigos, gostei das personagens criadas por Marte e das suas pequenas sátiras às várias comunidades, sejam os melómanos ou os universitários, entre outros. Quanto ao João Fazenda, já tinha gabado o seu storytelling em "Tu és a mulher da minha vida, ela a mulher dos meus sonhos" e volto a fazê-lo aqui, que num registo completamente distinto volta a marcar pontos. Quanto mais conheço dele mais pena tenho que não tenha editado BD nos últimos tempos.

Todos os livros foram editados pela Polvo e o segundo volume recebeu uma menção honrosa para melhor álbum português no festival internacional de BD da Amadora em 98.



quinta-feira, maio 16, 2013

Tu és a mulher da minha vida, ela a mulher dos meus sonhos


Se a capa de um livro é importante a fim de captar a nossa atenção, o título também terá um papel a desempenhar nesse sentido. São, afinal de contas, estes os primeiros contactos que temos com um livro e que nos poderão fazer pegar nele e folheá-lo. Claro que se não devemos julgar um livro pela capa, também não o devemos fazer pelo título. Isto para dizer que Pedro Brito (argumento) e João Fazenda (desenho) escolheram um título certeiro para esta BD. Há qualquer coisa de imensamente atractivo quando lemos as palavras "Tu és a mulher da minha vida, ela a mulher dos meus sonhos", onde rapidamente a nossa curiosidade é despertada, pelo menos foi o que aconteceu comigo.

Ainda há pouco tempo tive uma conversa sobre a forma como algumas pessoas olham a BD. Parece que muitos encaram-na não como uma arte com a sua própria identidade, mas antes como um género da literatura. Tal como existe o terror, o drama ou a comédia, existe também a BD. Ora nada mais errado, a BD é uma arte que tal como a literatura possui vários géneros e é normal, como em tudo o resto, que não se gostem de todos, isso não faz com que não se goste de BD. Por isso é que acho que a maioria das pessoas que o afirma, são as que menos a conhecem. Partilho esta conversa que tive porque ao iniciar este livro o protagonista, Tomás, também a tem com um amigo, foi como se me estivesse a "ouvir".

Tomás está neste momento a batalhar com os seus pensamentos em busca de inspiração para escrever um argumento para BD. A sua relação amorosa tem vindo a denegrir com o tempo, Elsa, a sua mulher, uma pintora ansiosa por receber reconhecimento, tem-se afastado cada vez mais dele, fechando-se num mundo ao qual ele não sente pertencer. Entretanto, enquanto continua a sua demanda em busca de uma musa inspiradora, parece vir a encontrá-la nos seus sonhos. Sonhos esses que parecem ter uma qualquer ligação a uma estranha planta que comprou no meio da rua. O mais estranho é que a musa que lhe surgiu em sonhos lhe acabará por surgir à sua frente no comboio. Será possível sonharmos com alguém que nunca antes vimos? Ou haverá algo mais neste acontecimento? Magia? Ou pura e simplesmente o destino?

Gostei da história e dos diálogos, apenas acho que o "destino" facilita muito a vida de Tomás no final. Todos os seus problemas se concluem de forma rápida e eficaz, principalmente o do seu casamento com Elsa, cuja dinâmica poderia ter sido mais explorada.

Conheci o trabalho de João Fazenda com as suas ilustrações para os textos da Visão de Ricardo Araújo Pereira e que deram o livro "Boca do Inferno". Quando soube que tinha feito BD comecei a procurar os seus trabalhos dos quais este foi o primeiro que li. O exercício que Fazenda fez neste livro é muito interessante e mostra como podemos fazer algo bom e diferente sem precisar de ter grandes custos de impressão. O livro é desenhado a preto-e-branco, usando em determinados momentos uma coloração vermelha, por exemplo, em algumas peças, de roupa, no fumo de um cigarro, ou no, mais óbvio, sangue. A combinação entre a cor vermelha e o traço negro de Fazenda resultam numa mistura singular que só por si já fazem desta uma leitura que merece a nossa atenção.

"Tu és a mulher da minha vida, ela a mulher dos meus sonhos" foi editado pela "Polvo" e venceu os prémios de "Melhor álbum português" e "Prémio Juventude" em 2001 no Festival Internacional de BD da Amadora, e "Livro do ano 2000 em BD" pelo Diário de Notícias.