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quarta-feira, fevereiro 13, 2013
Três Sombras
2012 foi um ano excelente ano no que toca a edições de BD, e do autor Cyril Pedrosa em particular. A ASA editou o livro “Portugal”, enquanto a Polvo, por sua vez, nos trouxe “Três Sombras”. Duas edições notáveis, cujos elogios atribuídos nunca serão demais.
Podemos falar de um livro não revelando absolutamente nada da sua história. Porém, não falar do seu intuito, daquilo que o move enquanto obra, é mais complicado; ao fazê-lo neste caso, demasiado de “Três Sombras” é exposto. Nada disto tira força alguma à história mas, se há véus que devem permanecer tapados e objectivos escondidos, o de “Três Sombras” parece ser um deles. Não querendo privar os leitores dessa descoberta, deixa-se este aviso antes que prossigam na leitura do texto, sublinhando a qualidade desta pequena preciosidade e o quanto é aconselhável a sua aquisição.
“Três sombras” traz-nos a história de uma pequena família de três que vive uma vida feliz, plena e despreocupada no campo. Tudo decorre dentro da normalidade, até Joaquim, o filho do casal – e ainda uma criança -, começar a ser perseguido por três misteriosas sombras. A princípio ignoradas, a persistência das sombras mantém-se, surgindo onde quer que Joaquim esteja.
Os temores começam assim a apoderar-se desta família, a qual lida com a situação de forma distinta, oposta. A mãe, Elisa, prefere procurar respostas e, quando as encontra, aceita dolorosamente o destino da sua família, compreendendo que não lhe pode escapar. Por sua vez o pai, Luís, sempre se negou a seguir esse caminho e, quando confrontado com a verdade, recusa-se a aceitá-la. A fim de proteger o filho das sombras embarca com ele numa aventurosa viagem, privando mãe e filho dos seus últimos momentos juntos, naquela que é uma das cenas mais emocionantes e poderosas de todo o livro.
Esta é uma viagem que tem tanto de bela como de dolorosa, que tem tanto de vida como de morte. É uma viagem que nos transporta para uma das piores situações que alguém poderá experienciar na sua vida, a morte de um filho. Uma morte mais lamentável que as outras porque quebra as leis da natureza, pois a pai algum deveria ser permitido enterrar um filho. Através de Luís e Elisa, temos duas abordagens muito distintas a esta situação e, se a da mãe poderá ser a mais ponderada, como é que na realidade poderemos reconhecer o momento em que devemos desistir e deixar partir aqueles que amamos? Para Luís essa resposta não só nunca veio, como provavelmente nunca se colocaria. E assim, durante o percurso tenebroso que escolheu, agarrando-se, com toda a sua força, a uma ténue esperança, lá continua o seu caminho com Joaquim, perdendo-se um pouco mais a cada passo que dá.
No entanto, nem tudo em “Três Sombras” são trevas, pois a noite é sempre mais escura antes do amanhecer; e se o autor nos consegue emocionar com a perda de Joaquim, também o consegue com igual força e proeza ao louvar toda a magnitude da vida. Pedrosa mostra-nos a felicidade no amor e na família e que os momentos mais negros no nosso percurso não nos devem destruir, mas impelir a continuar, porque há sempre um amanhã e com ele um novo dia. Ao terminar a história não nos admiramos ao saber que o autor se inspirou na história verídica de um casal amigo, cujo filho lhes foi tirado pela doença. Os elementos estão todos aqui, a mensagem intacta.
Neste livro o autor privilegiou um traço fino e o preto e branco, conseguindo transportar-nos para um outro mundo, por vezes fantástico, por vezes (tão) real. As suas pranchas contêm uma fervência impressionante – é como se as palavras ‘amor’, ‘medo’ou ‘ternura’se dilatassem até se tornarem meras linhas preenchendo as páginas em forma de belos desenhos, mas mantendo intacta toda a carga que emanavam enquanto palavras. Esta é uma daquelas histórias que, quando terminadas, nos recorda que alguns livros são mais especiais que outros.
Publicado originalmente no site da Rua de Baixo.
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quarta-feira, dezembro 19, 2012
Cyril Pedrosa - Portugal
Durante o festival da Amadora, aproveitei a presença do autor Cyril Pedrosa para ter o álbum "Portugal" autografado, do qual falei uns posts abaixo. Para mim um dos livros do ano a ser editado por cá. Porque nunca é demais lembrá-lo aproveito para deixar o desenho aqui. Um autor muito simpático e talentoso, onde curiosamente acabámos a falar de mangá (pensei que a foto tinha saído melhor, mas até gostei do efeito, talvez a substitua quando estiver novamente ao pé do livro).
Não tenho falado de "Três Sombras" porque ainda não possuo o livro, também de Pedrosa e também editado na mesma altura pela Polvo. A escolha sobre "Portugal" recaiu pelo preço em questão, teve um desconto de festival muito considerável. Mas, pelo que dizem "Três Sombras" é um livro extremamente poderoso e do qual falarei sem falta no próximo ano. Se o mundo não acabar claro.
Não tenho falado de "Três Sombras" porque ainda não possuo o livro, também de Pedrosa e também editado na mesma altura pela Polvo. A escolha sobre "Portugal" recaiu pelo preço em questão, teve um desconto de festival muito considerável. Mas, pelo que dizem "Três Sombras" é um livro extremamente poderoso e do qual falarei sem falta no próximo ano. Se o mundo não acabar claro.
sexta-feira, dezembro 07, 2012
Portugal
Este ano de 2012 tem sido prolífico para a BD em Portugal. Prova disso foram as edições de, não um, mas dois livros de Cyril Pedrosa: “Três Sombras”, editado pela Polvo e este “Portugal”, pela ASA. Ambos os livros foram lançados durante (ou próximos) do Festival da Amadora, aproveitando, muito bem, a presença do autor em solo nacional.
Ao analisar tanto o título do livro como o apelido do autor, chega-se rapidamente à conclusão que devemos estar perante um luso-descendente. E assim o é. Os avós de Pedrosa fazem parte da geração de emigrantes portugueses dos anos 30 que se deslocaram em abundância para França. Na capa surge-nos um belíssimo retrato do bairro alto, onde uma horta e roupas estendidas nas varandas dificilmente deixam margem para dúvidas. Estamos em Portugal, estamos em casa.
Mesmo que “Portugal” não o seja na sua totalidade, tem claros elementos autobiográficos. Trata-se assim de uma história onde a realidade e a ficção se misturam, nunca nos revelando onde termina uma e começa a outra. O livro encontra-se dividido em três capítulos, que se estendem ao longo de três gerações: segundo o filho (Simon), segundo o pai (Jean) e, por fim, segundo o avô (Abel). Apesar da ênfase dada em cada capítulo a cada uma das personagens que lhe dá nome, a história desenrola-se em torno do filho, o protagonista.
No primeiro capítulo é-nos apresentado Simon, um autor francês de BD, mas neto de emigrantes portugueses. Curiosamente, estamos perante dois aspectos intrínsecos da sua vida, mas que, de momento, se encontram ambos tão distantes do mesmo. Neste momento, Simon encontra-se um pouco “perdido” na sua vida, algo distante tanto a nível amoroso como profissional. O seu relacionamento com Claire parece seguir num determinado caminho, enquanto ele se mantém imóvel no mesmo local. Em relação à BD existe também um afastamento, mais consciente, da sua parte. Um afastamento amargurado, que espelha um certo descontentamento e até vazio com este processo de criação.
No que toca às suas raízes, Portugal é uma terra à qual não regressa desde criança e que por consequência foi caindo no esquecimento. Fruto, também, de uma família que se foi dispersando com o tempo e de um pai que pouco ou nada partilhou sobre as suas origens.
Contudo, já lá dizia o ditado, se” Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé”. E tudo está prestes a mudar na vida de Simon, graças a um convite para um festival de BD em Portugal – numa clara alusão ao Salão Internacional “Sobreda-BD” organizado pelo GBS (Grupo Bedéfilo Sobredense) à qual o autor atendeu em 2006. Esta curta passagem por terras lusas teve um efeito de grande comunhão entre o autor e o país, tornando um eventual regresso em algo indispensável.
Quando Simon regressa a França decide ir, juntamente com o seu pai, Jean, até Borgonha para o casamento de uma prima. Uma escolha que, possivelmente, se tornou mais apelativa após a sua passagem por Portugal. Neste segundo capítulo, Simon volta a estar em maior contacto com o seu pai e respectivos tios. É um daqueles grandes momentos familiares que, por ser tão esporádico, acaba por ter sempre uma intensidade imensa. Tanto a viagem a Portugal como este reencontro familiar levam Simon a partir numa viagem de regresso ao nosso país – desta vez à terra do seu avô Abel – Marinha da Costa -, em busca da sua história, das suas raízes e, acima de tudo, da sua própria identidade.
A nível gráfico, “Portugal” é uma verdadeira ode ao desenho. Os esboços de Pedrosa dão uma vida singular e sonhadora a este maravilhoso conto, cuja aura tão pessoal e genuína o tornam singular. O autor desenhou e pintou de forma distinta cada capítulo, a fim de dotá-los de um tom muito particular.
Para o primeiro e terceiro capítulo, o autor pintou as pranchas a aguarela. No primeiro utilizando maioritariamente uma só cor, mais aguada e privilegiando um tom escuro a fim de evocar uma certa melancolia que está inerente à história. Já nas cenas passadas em Portugal as cores são mais variadas e quentes, que resultam num desabrochar da história e de Simon também.
No capítulo segundo o seu pai, e ao contrário dos outros dois, o traço do autor é claramente mais forte, a evocar um traço mais sério. É o capítulo mais distinto em termos gráficos, nem que seja pelo facto de a própria coloração não ser em aguarela como nos restantes.
É, sem qualquer dúvida, um dos melhores livros de BD editados este ano e, a sua aquisição, torna-se obrigatória para qualquer apaixonado desta arte.
Publicado originalmente no site da Rua de Baixo
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