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quarta-feira, abril 06, 2016

Shakespeare na RTP2 em Abril


Mil desculpas pelo atraso, pois esta iniciativa já começou no Sábado passado com a exebição de "Romeu e Julieta". 

Em tom de celebração dos 400 anos de morte de William Shakespeare, todos os Sábados deste mês, pelas 21:45 irão exibir - na RTP2 - uma peça de Shakespeare, todas elas produzidas pelo Shakespeare's Globe Theatre em Southwark, Londres. As peças em questão são: "Romeu e Julieta"; "A Tempestade"; "Tanto barulho para nada" e "Noite de Reis". No último sábado será exibido não uma peça mas o documentário "Shakespeare: Last Will and Testament" realizado por Laura e Lisa Wilson, com produção de Roland Emmerich (aparentemente o senhor que realizou isto... vá-se lá saber).

Para mais informações ver aqui.

segunda-feira, fevereiro 22, 2016

Hamlet + Ricardo III

A escrita no blog pode ter diminuído, mas o interesse em conhecer Shakespeare não. Por isso desde que falei no "O Mercador de Veneza" e no "Romeu e Julieta", já acrescentei mais dois à lista de leituras concluídas. "Hamlet" e "Ricardo III" tiveram ainda a particularidade de serem complementados com a visualização das respectivas peças. É que, no final do ano passado - pelo menos -, peças de Shakespeare foi coisa que não faltou na zona de Lisboa: "The Tempest" na ZDB; "Hamlet" no Cornucópia, "Ricardo III" no Dona Maria e "Macbeth"no experimental de Cascais. Um final de ano em grande para quem gosta das peças do Bardo. Os textos que se seguem são apenas alguns apontamentos sobre estas experiências, uma vez que, falar de Shakespeare é matéria para longas conversas.

HAMLET


There is nothing either good or bad, but thinking makes it so.

Considerado por muitos como "a" peça de William Shakespeare, o meu primeiro contacto com ela foi através do filme de Laurence Olivier, uma adaptação muito fiel do texto. Hamlet, o príncipe da Dinamarca, foi uma das personagens mais complexas que li, constantemente em confronto consigo próprio, ao questionar todas as suas acções. Logo no início da peça vai ao encontro do espectro do seu pai para descobrir a maior das traições. Mas seria mesmo o espectro de seu pai? O coração de Hamlet acredita em tudo que lhe foi dito, enquanto a mente teme outro tipo de ilusões. Hamlet consegue reunir um temperamento tempestuoso e uma razão temperada como nunca vi, ele é astuto, perspicaz e até feudal, mas não se entrega à sua vingança tão rapidamente como se poderia esperar a início. A sua inacção está sempre ligada a fortes pensamentos sobre a via mais correcta de agir e por isso é uma das peças mais filosóficas de Shakespeare, com uma sensibilidade profunda sobre a vida humana. Ao contrário da ousada Julieta ("Romeu e Julieta") o interesse amoroso em "Hamlet" - Ophelia - é uma personagem muito mais passiva, cujas acções são sempre em função dos três homens da sua vida (pai, irmão e apaixonado). Muito se tem discutido sobre esta personagem e a sua submissão, no entanto, a dada altura da peça Ophelia rompe todas as suas ligações aos homens da sua vida, quando enlouquece, sendo a protagonista de uma das mais fortes e certeiras cenas da peça. 

A peça no teatro Cornucópia foi encenada por Luís Miguel Cintra e usou a tradução de Sophia de Mello Breyner Andresen. Uma das particularidades da peça que me captou logo a atenção é de que iria ter uma duração de cerca de quatro horas, ou seja, a peça seria exibida na íntegra. Cintra é da opinião que peças tão longas cada vez mais são encurtadas e poder assistir a um "Hamlet" desta duração é coisa para terminar. A peça seria uma adaptação muito fiel se Cintra não tivesse feito algumas alterações, na maioria das vezes, de cariz humorístico. A adição de um cão, ou de um comentador no combate final são adições que nada acrescentam à peça, sendo talvez uma tentativa de humor fácil numa peça longa e maçuda? De qualquer das formas resulta mal ou porque tem pouca graça ou porque há momentos em "Hamlet" que não são para rir. Além disso o humor nunca foi estranho a Shakespeare e "Hamlet" tem alguns momentos bem humorísticos tanto na personagem de Polónio, como no cinismo do próprio príncipe da Dinamarca ou no hilariante coveiro. De resto a peça segue o texto de forma fiel e numa linha muito clássica, com uma jovem promessa a vestir a pele de Hamlet de uma forma vigorosa. Um papel nada fácil que Guilherme Gomes consegue cumprir admiravelmente. A destacar também as prestações de Teresa Gafeira e Duarte Guimãres como Gertrudes e Polónio, respectivamente.


RICARDO III



Now is the winter of our discontent.

Aqui o esquema foi ao contrário. Quando tive conhecimento de que Ricardo III ia ser exibido no Dona Maria, não hesitei. Marcou-se desta forma o meu primeiro contacto com as peças históricas do Bardo, um contacto pungente graças a esta encenação contemporânea de Tónan Quito. Numa primeira impressão o palco chama logo a atenção pelo facto de estar tão despido de adereços e todo ele coberto de alcatrão. Alcatrão esse que é, ao longo da peça, constantemente remexido por pás (talvez a evocar o facto de o corpo do antigo Rei inglês ter sido descoberto há um par de anos). O maior destaque desta encenação, contudo, tem de ir para a representação de Ricardo III a quem todo o elenco dá corpo e alma, pelo menos uma vez. Para esta estratégia resultar faz-se uso da sua suposta corcunda e de uma bola vermelha que palpita por todo o palco. Aquele a quem a bola for colocada nas costas passa a ser automaticamente Ricardo III - todos são Ricardo e todos nós podemos vir a ser Ricardo! Uma prestação maravilhosa de um elenco fantástico no qual destaco os Ricardo's do bailarino Romeu Runa e de Tónan Quito. Para quem não tem grandes conhecimentos desta fase da História de Inglaterra é um pouco difícil entrar na peça ao início, até eventualmente tudo começar a fluir melhor. Uma palavra de apreço também para os músicos (que também representaram) e ao seu Jazz que tão bem encaixou no espírito da peça.

Quando peguei no livro já tinha um contacto mais próximo com a história - afinal isto foi escrito para o povo inglês - e sentia-me mais confortável a reconhecer todas as personagens que surgiam em cena. Pode parecer estranho querer ler a mesma história mal se sai da representação da mesma, mas "Ricardo III" é assim tão poderoso. A personagem é uma das grandes maquiavélicas da História e a sua sede de poder pelo trono não encontra nunca restrições. Não admira que tantas vezes o trabalho de George R.R. Martin seja acusado de beber influência das peças de Shakespeare. Seja na tragédia, na guerra pelo trono ou no enorme detalhe dado às personagens, as comparações fazem todo o sentido. Novamente, existem um sem número de cenas fortíssimas, tais como o sonho do duque de Clarence ou a previsão (de tudo o que vai acontecer) da antiga rainha Margarida. Mas a peça é de Ricardo e tanto o seu início - em que se auto-intitula como vilão - como o seu fim - aquela primeira vez em que se confronta com os seus próprios pecados - esboçam um circulo soberbo naquilo que foi a possível vida de Ricardo III (é importante lembrar que a linhagem Tudor também se esforçou por manchar ainda mais a imagem deste Rei, o único a morrer em batalha em terras inglesas). Não admira, por toda a intensidade que esta seja uma das peças mais encenadas de William Shakespeare.

segunda-feira, fevereiro 09, 2015

Romeo and Juliet


A glooming peace this morning with it brings. 
The sun, for sorrow, will not show his head. 
Go hence, to have more talk of these sad things.
 Some shall be pardoned, and some punishèd. 
For never was a story of more woe 
Than this of Juliet and her Romeo.

Existem obras cujo impacto foi tão grande no mundo, que a marca que deixaram é passada de geração em geração. "Romeu e Julieta" é uma dessas obras, uma história conhecida por qualquer um, mesmo que nunca tenha sido lida ou vislumbrada.

Claro que, nestes casos, apenas parte destas histórias é que são conhecidas e por isso a descoberta das mesmas, pode sempre conter enormes surpresas durante a sua leitura. Neste caso em particular, foi muito curioso descobrir que metade desta peça é uma comédia e que só a dada altura (mais especificamente após a morte de uma personagem) é que a mesma assume um tom mais trágico.

Mais do que isso "Romeu e Julieta" é uma peça cheia de camadas que poderão ser interpretadas de diferentes formas, por diferentes pessoas. Podemos olhar para este retrato do amor jovem e reconhecer como o impulso característico da juventude o empurrou para o abismo, imortalizando-o na sua pureza, ou para o papel que as forças do destino poderão desempenhar na destruição deste amor puro (que por ser tão jovial ainda não foi manchado pela corrupção do mundo). Além do retrato deste casal, a sociedade é algo que é igualmente focado, nomeadamente o conflito entre as famílias dos amados, que tão bem exemplifica como a violência gera violência. Não sabemos a origem deste conflito porque nunca é importante, a própria ignorância em relação ao mesmo dá força ao rídiculo da situação. Uma situação que apenas é corrigida através do sacríficio deste amor, pois é na morte de Julieta e Romeu que ambas as famílias encontram a redenção, uma redenção que de outra forma não existiria.

Ainda gostava de salientar a personagem de Mercucío, o melhor amigo de Romeu e que logo nas primeiras cenas nos conquista, sendo, sem qualquer dúvida, uma das personagens mais memoráveis da peça. Mercúcio além dos seus delírios provocadores, é a personagem que se encontra mais afastada de Romeu no que toca à interpretação do amor. É um anti-romântico que não leva a sério os sentimentos do seu melhor amigo quando este, ainda por cima, parece trocar de paixões como de camisas.

Quanto à escrita é, claro, exímia. Fiz questão de a ler no inglês original, precisamente para não perder nenhuma musicalidade desta poesia (claro que ajudas e traduções em português foram usadas quando se trata de um inglês com mais de 400 anos).

Uma peça extraordinária que merece e deve ser conhecida por todos, muito mais além do que a mera informação que foi sobrevivendo de "boca em boca".

segunda-feira, abril 21, 2014

O Mercador de Veneza

Estava mais do que na hora de entrar nas peças de William Shakespeare (entenda-se entrar por começar a lê-las). Para primeiro livro deste autor aconselharam-me "O Mercador de Veneza", o que me parece ter sido uma excelente sugestão para começar. É uma peça simples e muito divertida. Curiosamente, acabei por começar por uma das mais polémicas de Shakespeare, uma vez que é acusada de anti-semitismo por causa da forma como a personagem Shylock, o vilão, é abordada.

Se calhar convém contextualizar este tipo de obras, "O Mercador de Veneza" foi escrito entre 1596 e 1598 e segundo os historiadores é um retrato fiel dos costumes, esterótipos e preconceitos da altura. Fosse em Inglaterra ou em Itália, o preconceito para com os judeus era real. Aliás o retrato de Shylock por Shakespeare é tudo menos orginal, já existindo uma série de personagens "tipo" como esta em obras mais antigas.


SPOILERS

Shylock é um judeu rico que explora outros a partir dos juros que aplica nos seus empréstimos. No início deste livro, António, o homem que dá título à peça, recorre aos seus serviços para poder dar dinheiro a um grande amigo seu, Bassânio. Como Shylock despreza António, sentido-se humilhado pela forma como este o tem vindo a tratar, arranja forma de criar um contrato em que António terá de pagar com um pedaço da sua própria carne, caso não devolva o dinheiro no prazo acordado. O livro foca-se muito no quanto Shylock não é capaz de mostrar mesericórdia perdoando a dívida de carne.

Quais as verdadeiras intenções do autor ao retratar Shylock desta forma tão cruel é que se mantêm uma incógnita. Seria Shakespeare um filho do seu tempo e, devido ao contexto em que foi criado, acreditava que os cristãos eram mais dotados de compaixão? É a conversão de Shylock no final, a sua tentativa de final feliz? Ou, por outro lado, aproveita Shakespeare esta generalização do povo judaico para mostrar o quanto somos todos, enquanto Homens, iguais? Depois de nos apresentar uma personagem odiosa como Shylock, no final do livro Shakespeare escreve-lhe um dos discursos mais poderosos de toda a peça, quando este compara os judeus aos cristão, mostrando que todos sangramos, todos comemos e todos sentimos o mesmo, culimando no facto de os cristãos também se vingarem daqueles que lhes querem mal.Shylock vai mais longe dizendo ainda que a vilania da vingança foi-lhe ensinada pelos próprios cristãos.
Nunca vamos ter uma prova definitiva sobre as intenções de Shakespeare, se realmente ele queria provar um ponto maior ou apenas criar uma simples comédia. Prefiro a ideia de uma visão mais profunda, claro. Acho que o poder desse discurso de Shylock faz-se sentir e que é muito possível que Shakespeare quisesse instruir melhor o povo que assistia às suas peças, fazendo-os questionar o estado das coisas. Ou então pode ser, simplesmente, um filho do seu tempo, como a maioria de nós é.

If you prick us, do we not bleed? if you tickle us, do we not laugh? if you poison us, do we not die? and if you wrong us, shall we not revenge?

Algo do qual esta obra não beneficiou foi do facto de ter sido usada como propaganda no regime nazi, em particular a personagem Shylock. A associação ao governo de Hitler é um daqueles tipos de sugidade que mancham algo para a vida.

Mas "O Mercador de Veneza" tem vida além de Shylock, pois também na história de Portia, Shakeaspere cria uma personagem feminina fortíssima, sendo a mais perspicaz de toda a obra. Adorei a ideia dos três cofres diferentes, cada um com uma mensagem e onde num deles se encontra guardada a imagem de Portia, correspondendo à sua mão em casamento, caso alguém o escolha. Portia é uma personagem encontadora e que demonstra possuir uma grande consciência da sua realidade. Quando aquele que ama vai tentar a sua sorte ao escolher um dos cofres, Portia tenta atrasá-lo, a fim de aproveitar mais tempo na sua companhia, uma vez que se errar na escolha este é forçado a abandonar o seu castelo imediatamente. No final é quem acaba por salvar o mercador de Veneza (António) onde todos os outros falharam ao tentar.

Também me parece que Shakespeare retrata nesta obra a paixão homosexual de António pelo seu grande amigo Bassânio (que casa com Portia). Nota-se uma grande intimidade entre os dois e a minha leitura leva-me a crer que é algo propositado. Claro que Shakespeare não pode explorar isto de forma directa, estamos em pleno século XVI, afinal de contas. Os tempos eram outros.

Por fim, é de salientar não só a mestria da escrita de Shakespeare, mas também o seu enorme conhecimento da situação que se vivia em Veneza, criando um retrato fidedigno da altura. Uma palavra de apreço ao tradutor desta edição da "Lello" que tem uma secção de notas muito boa e cujo nome acrescentarei aqui, quando voltar a ter o livro nas mãos.