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segunda-feira, janeiro 14, 2013

O Bairro: O Senhor Valéry


O senhor Valéry era pequenino, mas dava muitos saltos.
Ele explicava:

– Sou igual às pessoas altas só que por menos tempo.

Mas isto constituía para ele um problema.
Mais tarde o senhor Valéry pôs-se a pensar que, se as pessoas altas saltassem, ele nunca as alcançaria na vertical.
E tal pensamento desanimou-o um pouco. Mais pelo cansaço, no entanto, do que por esta razão, o senhor Valéry um certo dia abandonou os saltinhos. Definitivamente.
Dias depois saiu à rua com um banco.
Colocava-se em cima dele e ficava lá em cima, parado, olhando.

– Desta maneira sou igual aos altos durante muito tempo. Só que imóvel.

Mas não se convenceu.

segunda-feira, junho 11, 2012

O Bairro: O Senhor Juarroz

 


Pensamento VS realidade é uma forma de resumir os dias do Senhor Juaroz.

Para aguçar o apetite coloco aqui o capítulo "Duas cadeiras":

O Senhor Juarroz estava a pensar que entre uma coisa do mundo e outra há um intervalo.

Mas também é possível existir uma única coisa entre dois intervalo.

E se assim for os intervalos passam a ser o principal e a coisa concreta, com volume e espaço, passa a ser o intervalo (a interrupção).

Uma cidade inteira pode ser considerada o intervalo entre dois espaços vazios — disse o senhor Juarroz, num tom audível, no preciso momento em que caía ao chão porque, distraído, tentara sentar-se no espaço vazio existente entre duas cadeiras.

segunda-feira, maio 28, 2012

O Bairro: O Senhor Henri


Já tenho a colecção inteiro de "O Bairro" de Gonçalo M. Tavares. Este fim-de-semana iniciei-me no "Senhor Henri" um homem que tem dois amores na vida e não sabe de qual gosta mais. Um é o absinto e o outro as enciclopédias. Minto, ele sabe de qual gosta mais, aliás o primeiro até faz com que goste ainda mais do segundo.

Passa os dias numa taberna a acarinhar essas duas paixões. Entre copos de absinto (que se devem beber de uma golada só) vai partilhando com quem o quiser ouvir uma inúmera série de factos (que encontra nas enciclopédias) e de pensamentos (que encontra graças ao absinto).

Aqui fica uma amostra do capítulo "O Contracto":


O sr Henri disse: os meus pais não me adormeciam com histórias infantis.
... os mais pais adormeciam-me a ler contratos de arrendamento e outros.
... o meu pai trabalhava num notário que tinha um notário e três homens que ninguém notava.
... o meu pai era um deles.
... o meu pai não tinha tempo para estar comigo e não tinha tempo para reler os contratos que era obrigado a redigir.
... o meu pai aproveitava os momentos antes de eu dormir para me ler alto os contratos e assim verificar erros, e eu cresci a pensar que as histórias infantis tinham sempre dois lados, o lado da direita e o lado da esquerda, dois outorgantes, e que um só dava uma coisa em troca de outra.
... só mais tarde percebi que isto acontecia mesmo na vida real - o dá e recebe - e só nos livros infantis é que se dava algo sem querer receber nada em troca.