quarta-feira, outubro 10, 2012
Cloudburst
Este ano só consegui ir à sessão de encerramento do Queer 2012. A escolha recaiu sobre "Cloudburst" uma simpática comédia sobre o amor de duas lésbicas idosas.
Quando Dot (Brenda Fricker) é internada, contra a sua vontade, pela neta num lar, a sua namorada Stella (Olympia Dukakis) vê-se obrigada a "raptá-la" de tal instituição iniciando assim a aventura deste filme. Stella e Dot vão conduzir até ao Canadá para se casarem e nunca mais poderem ser separadas. Pelo caminho dão boleia a Prentice (Ryan Doucette), um jovem rapaz que junto a elas forma um trio inesperado de aventureiros. No fundo é quase um "Thelma & Louise" da terceira idade.
Foi uma surpresa agradável, o amor nas pessoas mais velhas é já por si um tema pouco abordado e no caso de um amor homossexual, então ainda menos. Nesse sentido "Cloudburst" é um filme bastante competente com boas doses de humor, excelente Olympia Dukakis, e que nos traz mais um conto sobre o amor, mas um que interessa e deixa a sua marca.
Certamente não terá sido o melhor filme a passar no festival, mas parece ter sido uma boa escolha nesta despedida até 2013, pelo menos o público pareceu conquistado e com tanta ternura, como podia não ficar?
sábado, outubro 15, 2011
The Advocate For Fagdom

Às 22 horas estava a entrar na Sala Manoel de Oliveira no São Jorge para assistir ao documentário “The Advocate for Fagdom”. Momentos antes descubro que este será precedido por um videoclip realizado por Bruce LaBruce. Uma escolha nada inocente pois é sobre ele que o documentário se debruça. Faz todo o sentido portanto. O artista é Gio Black Peter e a canção, Revolving Door (New Fuck New York). Não estava mesmo nada a contar ver um vídeo musical pornográfico as 22h, principalmente um em que um homem a personificar um porco efectua sexo oral em outro que personifica o Papa Bento XVI. Não estava a contar porque não conhecia Bruce LaBruce, não fazia a mais pálida ideia de quem é este senhor. Se o videoclip tivesse passado depois do documentário podia ter sentido muita coisa, mas surpresa já não seria certamente.
Bruce LaBruce será para a maioria de nós, para mim era de certeza, um completo estranho, um total desconhecido. No entanto trata-se de um dos artistas mais transgressores do movimento Queer e apelidado por muitos como o líder do movimento Queercore.

Certos realizadores que se debruçam por temáticas Queer como Gus Van Sant, que participa neste documentário, atingiram hoje em dia um reconhecimento enorme e dispensam qualquer tipo de apresentações. LaBruce que começou a sua carreira cinematográfica mais ou menos na mesma altura, jamais em tempo algum conquistará o mesmo tipo de consideração e mediatismo. Dois realizadores conterrâneos e amigos, dois caminhos totalmente distintos.
É certo que Van Sant tem uma carreira que se pode dividir em duas ramificações. De um lado um cinema mais experimentalista e do outro mais mainstream. Filmes como o “Bom Rebelde” foram sem dúvida alguma cruciais no seu reconhecimento, mas é em filmes como “A Caminho de Idaho” que é mais amado pela crítica. Van Sant consegue assim ter o melhor de dois mundos.
LaBruce por seu lado sempre se manteve um realizador infractor e insubordinado. Para além das suas mensagens políticas e da violência nos seus filmes, o maior entrave numa maior projecção da sua carreira é, sem dúvida alguma, a constante utilização de sexo explícito. Por mais qualidade que tenham os seus filmes, por mais geniais que pudessem ser, a quantidade de sexo presente nos mesmos nunca os deixaria passar essa “barreira invisível” que existe no Cinema de Hollywood (e não só).

Ao se manter fiel a si próprio durante toda a carreira continua a ser obrigado a filmar com baixíssimos orçamentos porém é essa mesma veia transgressora que também não o deixa passar despercebido. Para os mais entendidos no universo Queer, LaBruce é considerado um marco, um ícone.
The “Advocate for Fagdom” é a oportunidade perfeita para conhecer os seus trabalhos, bem como o homem por detrás deles. Com convidados muito especiais como o já referenciado Gus Van Sant, Rick Castro, Bruce Benderson e o mítico John Waters, que numa temática diferente é também um dos realizadores mais transgressores da História do Cinema, “The Advocate for Fagdom” foi possivelmente um dos documentários mais interessantes que passaram no Queer Lisboa deste ano, cuja presença fazia todo o sentido num ano em que o tema de foco era, precisamente, a transgressão.
Publicado na Rua de Baixo por Gabriel Martins (Loot)
terça-feira, setembro 27, 2011
Difficult Love
Segundo documentário da fotógrafa e activista Zanele Muholi, co-realizado por Peter Goldsmid.
Muholi tem desenvolvido um forte trabalho em relação à defesa dos direitos humanos na África do Sul, mais especificamente ao tratamento da homossexualidade nas mulheres. Trabalhou no FEW (Forum for the Empowerment of Women) uma organização de lésbicas negras e também como fotógrafa e jornalista na revista online Behind the Mask. Artisticamente também se tem focado neste tema, sendo mais conhecida pelos seus trabalhos de fotografia mas que se tem vindo a dedicar também à realização de documentários tais como este que foi apresentado na edição deste ano do Queer Lisboa.
Em “Difficult Love” a autora leva-nos numa viagem pela África do Sul que pretende espelhar a realidade actual das lésbicas sul-africanas. Através da sua família e amigos e do seu trabalho e dedicação o documentário revela-nos uma realidade preconceituosa, ainda muito atrasada no tempo e nas mentalidades.
O que é realmente triste em relação a um documentário deste género é que este não tem qualquer tipo de surpresas. Por exemplo, basta mencionar que o filme aborda a vida de lésbicas sul-africanas e todas as imagens que se formam automaticamente na nossa mente vão ser negativas. Mesmo desconhecendo a realidade destas pessoas, temos a certeza que esta será tudo menos fácil. A sensação que fica ao assistir o filme é que já vimos isto acontecer em outro lado qualquer e isto é terrível. Terrível porque um preconceito que nunca devia ter existido ainda perdura e terrível porque aqueles que mais beneficiariam a assistir este documentário nem sequer estão presentes na sala.
Zanele Muholi continuará certamente a lutar pelo que acredita. Resta-nos a todos seguir-lhe o exemplo.
quarta-feira, setembro 21, 2011
Howl

Há 15 anos que o Queer Lisboa tem sido fundamental na divulgação de cinema gay e lésbico. O Cinema correspondente a esta temática e que é apelidado de cinema Queer, não é de fácil acesso para o grande público, estando na sua maioria afastado dos circuitos comerciais.
Na abertura deste 15º aniversário a responsabilidade de abrir as hostes coube a “Uivo”, título retirado do poema de Allen Ginsberg de 1955. E há semelhança do “uivo” que o poema de Ginsberg foi para a sua geração, a geração beat, podemos dizer que a escolha também soou como um “uivo” para todos os visitantes do festival. Um uivo que espelha o trabalho de 15 anos e que se mostra esperançoso em continuar a fazê-lo por muitos mais.
A narrativa do filme divide-se em três grandes partes que se vão alternando entre si. Sendo elas a declamação do poema “Uivo” pela voz de James Franco (na pele do poeta), ora para uma plateia, mas não uma plateia qualquer, a da sua vida; ora seguindo as suas palavras que atravessam o mundo em imagens de animação.
Outra das partes, baseada em gravações do poeta, tenta recriar, em jeito documental, uma entrevista. Por fim assistimos também ao célebre julgamento referente à publicação de “Uivo”. Onde o poeta Lawrence Ferlingh, editor do poema, foi preso e acusado de publicar material obsceno. Não deixa de ser irónico que a acção que mais contribui para a divulgação de uma determinada obra seja precisamente aquela que tem por motivo a sua condenação moral e por consequência extinção da face da Terra.

Jeffrey Friedman e Rob Epstein, são dois nomes mais conhecidos pelos seus trabalhos no cinema de documentário. Neste “Uivo” exploram juntos pela primeira vez, ainda que baseada em eventos reais, a realização de uma longa-metragem de ficção.
James Franco, continua a provar que é uma referência cada vez maior na sua geração e que não tem receios no tipo de desafios com que se depara. Na pele de Allen Ginsberg volta a ser um dos pontos mais altos do filme em que participa (a última vez tinha sido em 127 horas).
No leque de secundários há também nomes de referência e tanto nos actores (David Strathairn, Jon Hamm, Mary-Louise Parker, Jeff Daniels) como nas personagens (Jack Kerouac, Neal Cassady, Lawrence Ferlinghetti, Carl Solomon).

Como filme “Uivo” trata-se de uma peça bastante heterogénea, contendo tanto traços de documentário, como de animação e ficção. No entanto acaba por ser nas palavras que reside a sua maior força e não na cinematografia. São os vários “uivos” de Ginsberg que ecoam durante todo o filme que nos hipnotizam e comovem mais. Aqui as palavras prevalecem sobre a imagem, sempre.
Publicado na Rua de Baixo por Gabriel Martins (Loot)
segunda-feira, setembro 17, 2007
Queer Lisboa 11

O Posto já vem um pouco atrasado, mas mais vale tarde do que nunca.
De 14 a 22 de Setembro realiza-se no cinema São Jorge a 11º edição do Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa.
Para consultarem a página oficial cliquem na imagem.
Também está disponível um blog do evento.
