
De Coimbra a Veneza, do sonho à realidade, estes são os caminhos percorridos pelo “Menino Triste” ao longo desta fantástica viagem.
Dentro de um quarto recheado de imagens, livros e discos encontramo-lo a tentar desesperadamente criar uma banda desenhada. Mas como o próprio diz, não são todos os dias em que um artista consegue criar. O sentimento característico de ter apenas uma folha em branco à nossa frente assombra qualquer um e por isso decide passear um pouco pela cidade de Coimbra enquanto medita sobre o que é a arte, quais os seus processos de criação e qual a sua verdadeira essência. Pensamentos estes que se tornam ainda mais interessantes quando são desenvolvidos em uma discussão com os seus amigos.
Quantos de nós já se questionaram sobre o que é a arte? E qual a sua essência? O que faz uma obra ser arte? É o seu criador? As pessoas que a admiram como tal? Ou ambas? Esta é sem dúvida uma discussão que costuma resultar em muitas mais questões do que em respostas e por isso o “Menino Triste” decide aceitar o conselho dos seus amigos e partir numa viagem, em busca de inspiração e da tão desejada essência da arte. O destino escolhido é nada mais, nada menos do que a bela cidade de Veneza, precisamente na altura em que decorre o carnaval Veneziano.
A viajem pelas suas ruas é riquíssima, não só no traço incrivelmente detalhado da cidade, como também nas múltiplas referências artísticas que vamos absorvendo ao longo da narrativa. São vários os momentos em que se respira Shakespeare, Wagner, Mozart, Pratt ou Da Vinci, entre outros. O breve instante em que surge a silhueta de Corto Maltese, a inesperada aparição do maestro António Vitorino de Almeida, ou os excertos de “O Mercador de Veneza”, são alguns dos momentos que mais diversão me proporcionaram durante esta leitura que aliados a todos os outros demonstram como “A Essência” é uma obra que possui uma longa e detalhada pesquisa.
É de realçar igualmente o fascinante prefácio da autoria de José Luís Peixoto que é também, há sua maneira, um “Menino Triste”. “Triste” que aqui ao contrário do que se possa pensar não se refere necessariamente a tristeza ou infelicidade, mas antes a uma preocupação, como o próprio autor salienta.Este livro constitui assim o primeiro lançamento da editora “Qual Albatroz” que começa com o pé direito ao nos trazer uma bela edição de capa dura e com grande qualidade gráfica. Esperemos que esta qualidade se mantenha no futuro.
O “Menino Triste – A Essência” da autoria de João Mascarenhas foi lançado no FIBDA 2008 e é na minha opinião um dos melhores livros de BD editados por cá no ano passado. Trata-se de uma viagem espiritual em busca da verdadeira essência da arte, quando a resposta esteve sempre dentro de nós. Ao terminar o livro não deixa de ser curioso olhar para trás e reparar que a frase escolhida pelo autor para iniciar esta história: “O que não se vê, apenas se revela, a quem saiba procurar dentro de si”, seja precisamente a resposta para a grande questão colocada.
Excertos deste comentário e uma entrevista ao autor, João Mascarenhas encontram-se publicados na edição de Fevereiro da Rua de Baixo.

