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terça-feira, dezembro 03, 2013

A MORTE DE IVAN ILIITCH


Em poucas páginas Tolstói conta-nos a trágica e dolorosa história da morte de Ivan Iliitch, ou melhor, da vida de Ivan Iliitch, com especial incidência no desenvolvimento da sua doença que o conduziu àquilo que todos esperamos desde que pomos os olhos no título deste livro.

"A Morte de Ivan Iliitch" foi publicado em 1986 após "Anna Karenina" (1977) e "Guerra e Paz" (1869), numa fase em que o autor cada vez mais abdicava da sua interiorização em prol da sua exteriorização. Algo que provavelmente se deve à sua recente conversão religiosa que ocorre no final dos anos 70. Tolstói é um Homem de grande consciência e bondade, na fase em que este livro foi escrito, cada vez mais o autor abandonava o acto de escrita solitária e egoísta em prol do contacto com a sociedade e pela escrita de outros géneros de livros - segundo o posfácio de Vladimir Nabokov. O acto da escrita pode ser solitário e egoísta, mas o resultado de livros como "Guerra e Paz" é tudo menos isso e a sua  inspiração e legado perdurarão para a eternidade.

Nesta história nota-se um tom de fábula, algo intencional e ligado a este lado mais espiritual do autor. Ivan Illitch foi alguém que levou uma vida isolada e vazia de significado, acabando por ter na morte uma experiência mais agitada, consciente e, por consequência, sofredora. São vários os sentimentos e temas ao longo do livro, mas a resumi-lo, em uma frase, teria de ser algo similar a esta que escrevi, citando Nabokov: "Ivan viveu uma vida má e visto que uma vida má é apenas a morte da vida, este viveu uma morte viva". Até no final, Illicth aceita aquilo que vinha sempre a negar, a inocuidade da sua existência, haverá revelação pior do que esta ao nos aproximarmos do fim?

Independentemente da lição o retrato da personagem e seu posterior desenvolvimento são de uma mestria impressionante. O percurso de vida de Illitch e seus objectivos são apresentados em metade do livro, seguindo-se o surgimento da doença, algo que nunca sabemos especificamente do que se trata, bem como a sua causa. A forma como a sua (Iliitch) percepção da realidade vai mudando, bem como a relação que mantém com os outros, é descrita de forma magistral. Sem falar naquele sentimento de esperança, que por mais miserável que seja, nos obriga a agarrar-nos a ele. Acho que foi Dostoievski em "Crime e Castigo" que disse que um Homem mesmo que esteja a viver numa pequena ilha (que lhe segura apenas o corpo) se irá lá manter, agarrando-se sempre à oportunidade de viver (algo assim, não me lembro da frase ao certo). De facto, isto acontece a Illitch e quem de nós o pode censurar? Illitch, homem ligado ao direito, racional e que privilegia a lógica, chega a questionar a própria fé em determinados momentos. Porque mal não faz e se houver uma esperança de vida...

A morte sempre atormentou e continua a atormentar a humanidade. O vazio de uma existência, o derradeiro final é um tema que me faz sofrer a mim e a muitos por antecipação. Se existe razão para a criação de credos e religiões, passa muito pela justificação desse desconhecido que tanto nos assusta. A vida para aqueles que têm algo mais a que se agarrar poderá ser mais reconfortante nestes instantes, pois para aqueles que não acreditam em nada mais, estas questões são ainda mais sufocantes. Apesar de não me identificar com o protagonista e sua forma de vida (tanto profissional, como social e familiar), o seguir o seu desenvolvimento foi extremamente doloroso e arrepiante. Há momentos na vida que se sobrepõem a personalidades e gostos. A morte e questões existencialistas, são exemplos disso. Aqui não é só Illitch que se questiona sobre o propósito da existência, mas o autor também.

O primeiro capítulo que nos apresenta a história é o único que decorre após a morte de Illitch, uma decisão interessante e, penso que na altura, diferente. O título não deixa margens para dúvidas, não há surpresas a estragar. Nesta abordagem o autor apresenta-nos o protagonista a partir dos seus amigos e mulher, mas mais do que isso, a forma como a morte dos outros nos a afecta a nós, em diferentes estágios. Também o relato do velório e do que se passa dentro de nós nestes momentos é mais um excelente retrato da sociedade. Sejamos russos ou portugueses, há aspectos que são humanos, independentemente da nação. E Tolstói é um dos grandes mestres cronistas dos tempos e da sociedade.

De salientar ainda o posfácio de Vladimir Nabokov que fui mencionado ao longo do texto. Nabokov era um conhecido apaixonado pela escrita de Tolstói, principalmente deste e de "Anna Karenina". Um bom suplemento para ler após concluída a viagem de Ivan Illitch.

Para quem não tem este suplemento vou escrever o que foi referido pelo autor de "Lolita" sobre a escolha do nome do protagonista:

- Em russo Ivan é John, que em hebraico significa "Deus é bom, é gracioso". Illiitch por sua vez é filho de Ilya, a versão russa do nome Elias que em hebraico é Jeová (Deus).

- Ilya é um nome comum em russo que se pronúncia com uma sonoridade muito parecida ao il y a francês.

- Por fim, em inglês se separarmos o apelido temos Ill (doente) + Iitch (comichão), os males e as comichões  da vida mortal.


Concluindo: obra-prima.

sexta-feira, dezembro 21, 2012

Guerra e Paz


"Os mais fortes de todos os guerreiros são estes dois — Tempo e Paciência."

Diz Kutúzov, a dada altura, enquanto comandante-em-chefe do exército Russo. Tempo e paciência foram guerreiros formidáveis neste confronto, algo que Kutúzov sabia bem, mas que, na altura, não lhe foi devidamente reconhecido. Podia dizer que foi graças a isto que a Rússia expulsou a França das suas fronteiras, mas estaria a cair no mesmo erro dos historiadores criticados por Tolstói. Há uma série de causas que geram uma série de efeitos, e nunca vi uma análise tão detalhada e pensativa sobre este assunto como nesta obra, mas vamos por partes.

O que é "Guerra e Paz"? Um romance? Um épico, por excelência? ou uma crónica histórica? A resposta não é nenhuma, mas antes todas. A resposta encontra-se na união dos géneros mencionados (e ainda há outro), que juntos resultaram em uma das peças da literatura mais grandiosas que alguma vez li. Uma afirmação que ganha mais força (ou perde), quantos mais livros se lêem e aqui ao ser proferida por mim não lhe faz a devida justiça, o tempo mo dirá. O termo grandioso não é escolhido ao acaso, aparte do óbvio tamanho,"Guerra e Paz" é-o em todos os sentidos que a palavra "grandioso" pode assumir - quando falamos de literatura. Ora vejamos:


  1. Neste livro Tolstói conta-nos a história do povo Russo durante as invasões napoleónicas, alternando entre a vida na sociedade aristocrática e a vida durante as várias campanhas de guerra. Na edição da Presença (dividida em 4 volumes), salientam que Paz não foi a escolha mais correcta em termos de tradução, que sociedade assentaria melhor, mas nunca encontrei nada que corroborasse esta afirmação, até porque Tolstói se baseou no título "La Guerre et la Paix" de Pierre-Joseph Proudhon. De qualquer das maneiras, hoje, seria sempre difícil imaginar outro título que não este.

    O autor criou personagens fictícias para romancear esta história, utilizando cinco famílias aristocráticas (os Bezukhovs, os Bolkonskys, os Drubetskoys, os Kuragins e os Rostovs) para nos descrever a vida na Rússia durante os tempos de 1805-1813. É a partir delas que temos uma visão ampla e consistente da vida daquela sociedade durante esta época de grande tensão militar. São muitos anos aqueles em que acompanhamos estas personagens, em que assistimos ao seu crescimento, conhecendo aquilo que temeram e enfrentaram, ou o que amaram e protegeram. No final, não são as mesmas personagens que conhecemos no início, e toda esta construção de personalidade é feita de forma sublime.
  2. Por outro lado, o autor também elaborou uma severa pesquisa sobre a época para retratar o melhor possível os acontecimentos. O autor recorreu a vários livros de história, filosofia, e a vários documentos da altura, tais como entrevistas. Várias personagens do livro foram personalidades históricas e o cuidado que o autor teve nos seus discursos é notável e impressionante."Guerra e Paz" é portanto um grande trabalho tanto a nível de ficção como também, documental e onde a linha que separa estes dois géneros se torna mais ténue do que nunca.
  3. Na altura em que foi escrito, Tolstói quebrou as regras da literatura, como só os génios o souberam fazer. Enquanto narrador, tanto nos conta a histórias destas personagens, como se dirige a nós a fim de abordar o significado destes acontecimentos, procurando razões e justificações para os mesmos.

    Tolstói faz uma aprofundada reflexão sobre a história enquanto disciplina e desmistifica por completo o mito de Napoleão, ou antes, o mito do herói genial e causador dos eventos. É o homem que faz a história ou a história que faz o homem? Essa eterna questão ainda hoje discutida e que encontra aqui um dos temas mais controversos na obra do autor.

    Uma coisa parece certa, Tolstói foi pioneiro no que toca à análise histórica também. A fim de justificar a sua ideia de provar o caminho errado que seguiam os vários tipos de historiadores na altura, o autor recorre muitas vezes a comparações com outro tipo de ciências que nada têm a ver com a abordagem da história, mas cujos paralelismos têm lógica.

    Nas palavras do próprio a melhor literatura russa não se conforma às regras convencionais. E agora podemos ainda acrescentar o género filosófico aos mencionados acima, porque "Guerra e Paz" é também uma profunda reflexão sobre o Homem e sobre o seu conceito de libertade vs necessidade: "(...) é indispensável, do mesmo modo, renunciar à liberdade de que temos consciência e admitir a dependência que não sentimos."
  4. Por fim, mas não por isso menos importante, temos a qualidade da escrita. Não temos grande literatura se não tivermos um grande escritor, podemos ter grandes histórias, mas não é só a história que faz o livro, a forma como se a conta também.

    Gostei particularmente do seu uso da metáfora, desde a comparação do funcionamento de um exército, ao funcionamento de um relógio; passando pela comparação do funcionamento de Moscovo, com o funcionamento de uma colmeia. As suas escolhas sempre certeiras e tão bem descritas.

    Tolstói tem também uma escrita muito visual, arrisco-me a dizer, que em determinados momentos, é cinematográfica. As personagens, como já referi, são extremamente bem construídas e chegam a ser tão reais que quase lhes conseguimos tocar. Se "The Wire" foi a série mais realista que vi em termos policiais, este foi o romance -e chamar-lhe isto é ficar aquém - com o mais forte realismo que li sobre uma época histórica. Os raciocínios do autor, quando o narrador assume um papel ainda mais "divino", são também muito bem expostos e desenvolvidos, é como se a dada altura fizéssemos uma pausa na história para discutir os assuntos. Nunca li nada assim.
"Guerra e Paz" é em todo o sentido da palavra, uma obra ímpar, digo até uma obra-prima. O jornalista Isaak Babel disse que "se o mundo escrevesse por si próprio, escreveria como Tostói".


E se o mundo realmente terminasse hoje, não só ficaria contente por ter terminado o livro a tempo, como também por o meu último post recair sobre a obra de um daqueles que é considerado um nome maior da literatura - e que começo a compreender porquê - Lev Tolstói.