Quando pensamos no nome de Darren Aronofsky, a primeira coisa que nos vem à mente é cinema e não banda desenhada. Cedo se tornou um nome de referência da sétima arte e com filmes como “Pi” e “Requiem for a Dream” foi considerado por muitos (eu incluído) um dos realizadores mais promissores dos últimos tempos.Mesmo antes de iniciar o seu mais recente projecto cinematográfico, ou melhor, a sua mais recente paixão, “The Fountain”, que Aronofsky sabia que teria de atravessar várias dificuldades até conseguir terminá-lo. Juntamente com o seu produtor tentou desde o princípio assegurar os direitos desta estória para criar também uma novela gráfica e quando o filme foi efectivamente cancelado, devido a vários problemas, decidiu que tinha chegado a altura de iniciar a criação deste livro.
Nas suas próprias palavras sempre teve uma paixão pelo mundo das novelas gráficas, em grande parte porque é um mundo carregado de estórias fora do normal. Karen Berger editora da Vertigo adorou a estória e aceitou editar o projecto aconselhando Kent Williams para trabalhar no desenho.
Mas Aronofsky é um apaixonado pelo seu trabalho e é essa paixão que faz com que as suas obras sejam tão boas e carregadas de sentimento. Certa noite acordou e decidiu reescrever o guião de cinema de “The Fountain”, de forma a conseguir, com um menor orçamento, terminar este projecto. E foi assim que quase ao mesmo tempo uma banda desenhada e um filme nasceram.
Depois desta rápida explicação é claro que este livro não é uma adaptação do filme, ou vice-versa. Segundo o autor o livro e o filme são diferentes interpretações da mesma estória e aqueles que o lerem terão uma visão mais completa da ideia original do filme.
“The Fountain” é uma viagem pelo tempo e pelo espaço, que nos transporta através de três períodos distintos, o passado, o presente e o futuro. Uma odisseia de 1000 anos sobre a procura incessante da vida e do amor eterno, sobre o sofrimento inerente à perda desse mesmo amor e terminando num estado de plenitude atingido através da compreensão e da aceitação da vida como um ciclo, de que a morte implica vida e de que iremos viver para sempre.
No passado somos transportados para o ano de 1535, onde o Capitão de Espanha Tomas Verde se encontra algures no “Novo Mundo” em busca de um templo Maia que esconde o maior de todos os segredos, a “Árvore da Vida”. Graças a esta descoberta ele e a sua Rainha poderão finalmente ficar juntos para sempre, pois quem comer desta árvore viverá eternamente. Mas será que Tomas compreende verdadeiramente o sentido destas palavras?
No presente encontramo-nos no ano de 2005. Tom é um cientista que se encontrava anteriormente a pesquisar sobre o rejuvenescimento dos tecidos, porém desde o dia em que a sua mulher Izzie, foi diagnosticada com um tumor cerebral, que tem passado todos os dias (e noites) a trabalhar numa cura para o cancro. Absorvido na sua pesquisa para salvar a mulher que ama, acaba por se afastar e passar cada vez menos tempo justamente com a pessoa que pretende salvar.
Por outro lado Izzie encontra-se a escrever um livro sobre uma estória passada no século XVI onde um Conquistador de nome Tomas Verde se encontra à procura de um templo Maia que esconde o maior de todos os segredos, a “Árvore da Vida”… Bem penso que já perceberam a ideia. O último capítulo do livro é deixado em branco, segundo ela tem de ser Tom a terminar “esta” estória.
O terceiro período, desenrola-se algures em um futuro distante, mais especificamente no ano de 2463. Tom encontra-se a viajar dentro de uma bolha gigante e com ele encontra-se a “Árvore da Vida”, graças à qual tem conseguido sobreviver durante todos estes anos. Mas esta está a morrer e Tom só conhece uma maneira de a salvar, encontrando Xibalba.
Xibalba é uma nébula “embrulhada” à volta de uma estrela a morrer, o seu nome foi dado pela civilização Maia. Estes acreditavam que era o local para onde as almas mortas iam para poderem renascer. Através da morte de uma estrela Tom acredita que conseguirá salvar a árvore e automaticamente salvar-se a ele e a Izzie.
Darren Aronofsky prova que além de ser um cineasta exemplar é também um excelente contador de estórias em quadradinhos e que poderia ter enveredado com igual distinção por uma carreira nesta área. Esperemos que a partir de agora nos continue a brindar com grandes obras tanto cinematográficas como de banda desenhada.A imagem assume sempre uma grande importância quando falamos de banda desenhada e Karen Berger teve um grande golpe de visão ao aconselhar o nome de Kent Williams. Depois de ter lido o livro não imagino, nem quero imaginar outros desenhos além destes. Cada período da estória apela a situações e sentimentos diferentes e Williams consegue em perfeita sintonia alterar de forma sublime o desenho e a cor entre esses mesmos períodos, criando a atmosfera perfeita para podermos sentir esta estória em toda a sua glória.
Sim, porque a palavra-chave aqui é sentir. Mais do que uma bela estória sobre o amor e a vida, “The Fountain” é uma experiência sensorial avassaladora que independentemente de agradar ou não, certamente não deixará ninguém indiferente.
A todos os que tiverem coragem aconselho a lerem este livro ao som da banda sonora do filme, composta por Clint Mansell, uma experiência no mínimo explosiva.
Publicado originalmente em Rua de Baixo (Maio de 2007) por José Gabriel Martins (Loot)
