Estou no final de 2008 a ler "
The Graveyard Book" de Neil Gaiman, uma divertida história sobre um rapaz criado por fantasmas e educado por um vampiro e uma lobisomem. Trata-se de uma clara homenagem ao clássico de Rudyard Kipling, "The Jungle Book". Acho que é Gaiman que diz no posfácio do livro, que "O Livro da Selva" é um daqueles livros que todas as crianças deviam ler. Infelizmente, não foi o meu caso, em miúdo lia maioritariamente, ou quase exclusivamente BD, e a maioria destes clássicos passou-me ao lado. Decidi instantaneamente em corrigir isso, no que toca à obra de Kipling. Olho agora para a data do
post que fiz na altura e vejo que já se passaram quatro anos, foi uma resolução que se foi atrasando, mas, felizmente, que não foi esquecida.
Li a edição da Tinta da China, pertencente a uma colecção que já tinha mencionado
aqui. são edições bastante bonitas e cuidadas, que contam todas com ilustrações. Até à data penso já a ter completado.
Logo ao abrir o livro, apercebo-me de duas coisas que desconhecia, a primeira é de que "O Livro da Selva" não se trata de uma história, mas antes de vários contos. Além disso, os contos não se prendem todos com as aventuras de Mogli, pois este só está presente em cerca de metade do livro, logo nos três primeiros contos.
A história de Mogli é amplamente conhecida, onde para isso muito contribuiu a versão animada de Walt Disney. As aventuras de um rapaz adoptado pela selva espalharam-se pelo mundo fazendo sonhar tanto miúdos como graúdos. Penso que será justo dizer que Mogli é uma clara fonte de inspiração para "Tarzan" de Edgar Rice Burroughs, entre muitas outras obras.
Kipling começa por contar-nos a origem do bebé indiano que foi abandonado pelos pais após um ataque do terrível tigre coxo, Shere Khan. Graças à protecção de dois lobos e à intervenção do pantera Baguera e do urso Balu, Mogli seria salvo e posteriormente aceite pela alcateia Seeonee liderada por Akela. A fim de pertencer, ficaria a cargo da família de lobos que o encontrou e teria como mentores Balu e Baguera, que rapidamente se tornaram como irmãos.A sua entrada e posterior saída da alcateia são o foco deste primeiro conto que salta até aos 10 anos de idade de Mogli.
No segundo conto, volta-se atràs no tempo para contar o fatídico episódio em que Mogli foi raptado pelos lunáticos macacos e que contou com a introdução de mais um temível personagem, o cobra Kaa. Para a terceira e última a ventura, ficou guardado o iminente confronto entre Mogli e Shere Khan, que decorre após o final do primeiro conte. Nesta aventura o rapaz irá contar com a ajuda preciosa do seu irmão mais velho e de Akela. Neste último conto, o
título foi retirado do famoso poema "The Tyger" de William Blake.
É claro ao chegarmos ao final desta narrativa, que existem mais aventuras de Mogli, é citado pelo próprio autor que a jovem criança irá casar no futuro, mas que essa é uma história para adultos. E de facto existe um "Livro da Selva 2" que traz mais peripécias de Mogli, outra descoberta, outra resolução. Espero que desta vez não passem mais quatro anos até lhe pôr a vista em cima.
É uma história especial a de Mogli, a aventura de um rapaz humano que encheu de amor os corações de uma família de lobos e dos seus dois protectores. Haverá animais mais fantásticos na ficção que Baguera, Balu e Akela?
Além de Mogli, seguem-se mais quatro contos. Começamos pela odisseia de Kotick, uma foca branca que procura por um paraíso para as focas, um local aonde nenhum Homem chegue. De seguida temos a célebre batalha numa casa-de-banho de Rikki-Tikki-Tavi, um mangusto irrequieto e corajoso, que protegerá um jardim e uma família dos terríveis ataques de duas cobras. Em "Toomai dos elefantes" o protagonismo regressa às crianças humanas, onde Toomai uma miúdo de 10 anos irá assistir a algo que poucos homens viram na sua vida, a lendária "dança dos elefantes". Por fim, temos ainda uma conversa animada entre vários animais pertencentes a um campo militar onde todos discutem sobre os seus respectivos papéis na batalha.
Em relação ao conto de Kotick, nota-se que o tradutor se trocou algumas vezes com o nome da mãe deste foca, ora chamando-lhe Matkah (o correcto), ora chamando-lhe Maktah. Com nomes destes, é fácil trocarmos-nos em algumas letras.
Todos os contos são precedidos e terminados por fantásticos versos, que mostram que os dotes do autor vão além da prosa. No final é impossível ficar indiferente a estes contos tão inspiradores e divertidos, onde a Índia - país em que o autor viveu os primeiros cinco anos de vida - teve um papel essencial para a sua existência. Há lições de moral a tirar de cada um, o que me faz reforçar a frase citada acima, "O Livro da Selva" devia ser lido por todas as crianças.
A título de curiosidade, foi um livro usado para inspirar o grupo de escuteiros dos Lobitos, onde o lobo Akela assumiu um papel preponderante, tornando-se o nome adoptado pelo líder do grupo.
Para as ilustrações, a editora foi buscar os trabalhos do alemão Kurt Wiese, um conhecido e aclamado ilustrador. Wiese chegou a ser prisoneiro dos ingleses durante cinco anos durante a 1º guerra mundial. Foi durante esse tempo que o contacto com a vida animal o voltaria a inspirar para desenhar. Além do "Livro da Selva", Wiese ilustrou também a história de "Bambi" e das "20.000 léguas submarinas", entre tantas outras.