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terça-feira, julho 22, 2014

Lolita



She was Lo, plain Lo, in the morning, standing four feet ten in one sock. She was Lola in slacks. She was Dolly at school. She was Dolores on the dotted line. But in my arms she was always Lolita.


Tudo que escrevo por aqui é uma opinião de algo, num determinado momento da minha vida e tendo em conta o conhecimento que tenho sobre os assuntos. Nesse sentido, é desnecessário focar ao longo do texto frases como "na minha opinião", mesmo que já o tenha feito anteriormente. Além disso, se fosse reler hoje textos sobre determinadas obras, certamente que umas teriam crescido, outras diminuido no meu interesse e, quiçá, outras que se mantêm incólumes.

A minha área profissional não é nada a da literatura, tratando-se de uma paixão que tenho aprofundado a partir dos livros que vou escolhendo. Mesmo não sendo um especialista, considero-me um leitor interessado, e daquilo que conheço tenho de começar por dizer que "Lolita", de Vladimir Nabokov, é um portento literário. Um daqueles livros que mal o terminamos de ler, sabemos que entraram visceralmente na nossa lista de favoritos, qual tigre esfomeado a rasgar a carne de uma qualquer presa. Não é uma surpresa, verdade seja dita, este é um daqueles livros que tinha de ser obrigatoriamente muito bom para ser publicado nos anos 50, uma vez que aborda um dos assuntos mais controversos do mundo. O que me lembra que apesar de todos os problemas que se enfrentam no mundo, continuo a achar que caminhamos moralmente para a frente (lentamente mas para a frente). Que abolimos a escravatura e que, felizmente, já se percebeu há muitos anos que não é por uma mulher ter a menstruação que já tem maturidade para entrar na vida sexual adulta. Claro que me estou a focar na nossa realidade, ainda há países que sofrem muito com estas questões e outras.


Regressando ao livro e pasmem-se, ou não, "Lolita" é também um dos maiores romances que li. Porque chegados ao fim, não há dúvidas de que estamos perante uma história de amor. Uma que nunca devia ter existido, porque não há crime maior do que roubar uma criança da sua infância, mas ainda assim, uma história de amor. Em termos literários existe uma clara distinção na prosa que descreve os desejos proibidos do protagonista, Humbert Humbert e de outra personagem (que não posso revelar) que partilha dos mesmos pecados. Em Humbert Humbert há poesia e sensualidade nas suas descrições, enquanto que nas do segundo é a vulgaridade e deboche que imperam. Claro que é Humbert Humbert o narrador da história e estamos à sua mercê no que toca a descrição de factos. Porque no final há claras semelhanças entre ambas as personagens, mesmo que a segunda - o antagonista - seja, de facto, uma versão mais negra da primeira. Há humanidade nos monstros e é isso que torna tudo mais doloroso.

Além disto tudo, não contava que "Lolita" fosse também um policial, um daqueles que não se incomoda que a originalidade artística afaste leitores fiéis do género (brincando com palavras do autor). Toda a história é muito bem arquitectada, qual teia de aranha, em que pistas são espalhadas ao longo da trama para a grande tragédia final. É por isso mesmo um livro que pede obrigatoriamente uma segunda leitura (e certamente outras mais), para agora, com o conhecimento prévio de determinados aspectos, descobrirmos muitos mais pormenores maravilhosos que o autor foi semeando com tanta subtileza. A versão em inglês também ajudará, há uma tradução logo no prefácio que dificulta muito mais a sua segunda intenção. Já agora li a versão mais recente da "Relógio D'água" mas espreitei o inglês original, o qual será a próxima leitura quando voltar a pegar no livro.

A tradução de Margarida Vale de Gato, pareceu-me muito competente e, como a própria admite, há problemas cuja resolução ficará sempre aquém da obra inicial, a qual trabalha muito a lingua inglesa e francesa, bricando com as suas palavras. Se a segunda, por ser usada ocasionalmente, foi deixada no original, a outra só muito esporadicamente. Aqui confesso, em tom preguiçoso, que agradecia umas notas com o francês traduzido como acontece nos livros russos que tenho, mas pronto os diccionários existem para alguma coisa. Margarida Vale do Gato é também uma especialista em Edgar Allan Poe, algo que tinha de referir uma vez tratar-se de um autor tão importante na vida de Humbert Humbert.

Uma palavra ainda para um falso prefácio de um inventado John Ray Jr.'s, PhD.  A partir daqui Nabokov cria uma ilusão de que esta história foi verídica. Em adição é mais um momento em que o autor demonstra a sua postura crítica em relação à psicoanálise.


Seja desprezível ou arrogante, Humbert Humbert é uma personagem fascinante que terei muitas saudades de ler. E quanto a ti Lolita, o meu coração ainda chora por ti, merecias muito mais do que tiveste da vida. Merecias ser feliz.

terça-feira, dezembro 03, 2013

A MORTE DE IVAN ILIITCH


Em poucas páginas Tolstói conta-nos a trágica e dolorosa história da morte de Ivan Iliitch, ou melhor, da vida de Ivan Iliitch, com especial incidência no desenvolvimento da sua doença que o conduziu àquilo que todos esperamos desde que pomos os olhos no título deste livro.

"A Morte de Ivan Iliitch" foi publicado em 1986 após "Anna Karenina" (1977) e "Guerra e Paz" (1869), numa fase em que o autor cada vez mais abdicava da sua interiorização em prol da sua exteriorização. Algo que provavelmente se deve à sua recente conversão religiosa que ocorre no final dos anos 70. Tolstói é um Homem de grande consciência e bondade, na fase em que este livro foi escrito, cada vez mais o autor abandonava o acto de escrita solitária e egoísta em prol do contacto com a sociedade e pela escrita de outros géneros de livros - segundo o posfácio de Vladimir Nabokov. O acto da escrita pode ser solitário e egoísta, mas o resultado de livros como "Guerra e Paz" é tudo menos isso e a sua  inspiração e legado perdurarão para a eternidade.

Nesta história nota-se um tom de fábula, algo intencional e ligado a este lado mais espiritual do autor. Ivan Illitch foi alguém que levou uma vida isolada e vazia de significado, acabando por ter na morte uma experiência mais agitada, consciente e, por consequência, sofredora. São vários os sentimentos e temas ao longo do livro, mas a resumi-lo, em uma frase, teria de ser algo similar a esta que escrevi, citando Nabokov: "Ivan viveu uma vida má e visto que uma vida má é apenas a morte da vida, este viveu uma morte viva". Até no final, Illicth aceita aquilo que vinha sempre a negar, a inocuidade da sua existência, haverá revelação pior do que esta ao nos aproximarmos do fim?

Independentemente da lição o retrato da personagem e seu posterior desenvolvimento são de uma mestria impressionante. O percurso de vida de Illitch e seus objectivos são apresentados em metade do livro, seguindo-se o surgimento da doença, algo que nunca sabemos especificamente do que se trata, bem como a sua causa. A forma como a sua (Iliitch) percepção da realidade vai mudando, bem como a relação que mantém com os outros, é descrita de forma magistral. Sem falar naquele sentimento de esperança, que por mais miserável que seja, nos obriga a agarrar-nos a ele. Acho que foi Dostoievski em "Crime e Castigo" que disse que um Homem mesmo que esteja a viver numa pequena ilha (que lhe segura apenas o corpo) se irá lá manter, agarrando-se sempre à oportunidade de viver (algo assim, não me lembro da frase ao certo). De facto, isto acontece a Illitch e quem de nós o pode censurar? Illitch, homem ligado ao direito, racional e que privilegia a lógica, chega a questionar a própria fé em determinados momentos. Porque mal não faz e se houver uma esperança de vida...

A morte sempre atormentou e continua a atormentar a humanidade. O vazio de uma existência, o derradeiro final é um tema que me faz sofrer a mim e a muitos por antecipação. Se existe razão para a criação de credos e religiões, passa muito pela justificação desse desconhecido que tanto nos assusta. A vida para aqueles que têm algo mais a que se agarrar poderá ser mais reconfortante nestes instantes, pois para aqueles que não acreditam em nada mais, estas questões são ainda mais sufocantes. Apesar de não me identificar com o protagonista e sua forma de vida (tanto profissional, como social e familiar), o seguir o seu desenvolvimento foi extremamente doloroso e arrepiante. Há momentos na vida que se sobrepõem a personalidades e gostos. A morte e questões existencialistas, são exemplos disso. Aqui não é só Illitch que se questiona sobre o propósito da existência, mas o autor também.

O primeiro capítulo que nos apresenta a história é o único que decorre após a morte de Illitch, uma decisão interessante e, penso que na altura, diferente. O título não deixa margens para dúvidas, não há surpresas a estragar. Nesta abordagem o autor apresenta-nos o protagonista a partir dos seus amigos e mulher, mas mais do que isso, a forma como a morte dos outros nos a afecta a nós, em diferentes estágios. Também o relato do velório e do que se passa dentro de nós nestes momentos é mais um excelente retrato da sociedade. Sejamos russos ou portugueses, há aspectos que são humanos, independentemente da nação. E Tolstói é um dos grandes mestres cronistas dos tempos e da sociedade.

De salientar ainda o posfácio de Vladimir Nabokov que fui mencionado ao longo do texto. Nabokov era um conhecido apaixonado pela escrita de Tolstói, principalmente deste e de "Anna Karenina". Um bom suplemento para ler após concluída a viagem de Ivan Illitch.

Para quem não tem este suplemento vou escrever o que foi referido pelo autor de "Lolita" sobre a escolha do nome do protagonista:

- Em russo Ivan é John, que em hebraico significa "Deus é bom, é gracioso". Illiitch por sua vez é filho de Ilya, a versão russa do nome Elias que em hebraico é Jeová (Deus).

- Ilya é um nome comum em russo que se pronúncia com uma sonoridade muito parecida ao il y a francês.

- Por fim, em inglês se separarmos o apelido temos Ill (doente) + Iitch (comichão), os males e as comichões  da vida mortal.


Concluindo: obra-prima.