sábado, julho 13, 2013

O que ando a ler de BD Norte-Americana actual

Depois de ter falado do que ando a ler no campo dos "Super-Heróis" actualmente, chega a vez de falar de outros géneros (bem há aqui um que ainda entra no campo do Super). Porque há muito mais vida além dos Super-Heróis na indústria norte-americana de comics e que vale a pena conhecer.

Sou um grande apreciador de muitas das histórias editadas do outro lado do oceano, mas normalmente conheço-as posteriormente comprando as compilações, é mais fácil acertar no que vale realmente a pena assim. Desta vez estou a tentar estar mais a par do que se faz na actualidade e talvez consiga ter uma bela série para coleccionar em formato comic.

Como a ficção espelha muitas vezes a realidade, tem-se notado muito em algum material novo o quanto a actual crise económica tem influenciado o trabalho dos autores, sem mencionar um que é todo ele direccionado para nos alertar sobre o assunto, mas já lá vou.





 Occupy Comics


Em 2012 vimos nascer uma nova editora de BD norte-americana intitulada "Black Mask" que foi fundada pelos autores de BD Matt Pizzolo e Steve Niles, e pelo músico dos "Bad Religion" Brett Gurewitz. Esta editora surge da necessidade em criar uma editora que publique comics mais transgressivos e que apoie mais os seus criadores. Um dos seus títulos que nasceu do apoio na plataforma do "Kickstarter" foi esta antologia "Occupy Comics" que será composta por três números. Nesta antologia juntaram-se muitos nomes de referência na indústria da BD, nomeadamente Alan Moore (que assinala um extenso artigo sobre a história da BD), Art Spiegelman, David Lloyd, Ben Templesmith, J. M. DeMatteis, entre tantos outros. 


A antologia é criada por causa do movimento "Occupy Wall Street" e por isso mesmo todos os lucros revertam a favor de movimentos "Occupy".  Para Matt Pizzolo este era um projecto que fazia todo o sentido uma vez que o movimento "Occupy" está associado a uma estética artística, tendo começado com a imagem de uma bailarina em cima do touro de Wall Street com protestantes no fundo. Também o grupo "Anonymous" pegou na máscara de Guy Fawkes popularizada por "V For Vendetta" como imagem de marca. A força da simbologia desta máscara tem-se tornado tão grande que não será certamente estranho vê-la surgir várias vezes na antologia, seja em histórias ou ilustrações. A ilustração de David Lloyd onde a personagem V toureia o touro de Wall Street, foi uma das imagens de marca desta nova antologia, por exemplo, mas saliento também a belíssima ilustração da máscara por David Mack no #2 (ver acima). De momento já saíram dois números e mantenho a minha satisfação e apreço por esta antologia. Há aqui ilustrações de topo e algumas histórias emocionantes (lembro-me daquela sobre o furacão Sandy), bem como artigos de grande qualidade, como já referi um deles é de Alan Moore que como sempre assinala aqui um trabalho hercúleo e soberbo. Os lucros também são todos revertidos para ajudar acções relacionadas com o movimento "Occupy".





East of West






This is the world. It is not the one we wanted, but it is the one we deserved. The Four Horsemen of the Apocalypse roam the Earth, signaling the End Times for humanity, and our best hope for life, lies in Death.

Como não ficar entusiasmado com uma premissa destas? Além do mais tem o nome de Jonathan Hickman no argumento, um autor cada vez mais elogiado, por isso decidi arriscar e seguir a série. Há uma profecia antiga cuja hora parece ter chegado, onde os quatro cavaleiros do Apocalipse irão emergir da terra para consumir o mundo. É esta a cena com que nos deparamos nas primeiras páginas, o "levantar" de Guerra, Peste e Fome. Mas algo está errado, falta um... Parece que Morte tem outros planos e já "acordou" primeiro dirigindo-se neste preciso momento até ao Presidente dos Estados Unidos... para o matar.


Em "East of West" estamos perante um futuro diferente daquele que iremos conhecer, a dada altura o caminho que a América seguiu na guerra civil foi diferente, criando hoje (2064) um país muito distinto e governado por sete nações distintas. O que Hickman nos apresenta são várias peças de um puzzle que vamos juntando à medida que avançamos na narrativa. Parece que os cavaleiros do Apocalipse já foram humanos em tempos e que a Morte busca a sua vingança pelo que lhe fizeram a si e à sua familia. Ainda falta descobrir muita coisa e nesse sentido estes textos são mesmo mais apresentações do que apreciações.

De qualquer das formas com três números já disponíveis, "East of West" está a ser bastante entusiasmante e divertido. Nick Dragotta está a cargo do desenho e Frabk Martin da cor, uma parceria que resulta muito bem. Já todos vimos muita coisa sobre os Cavaleiros, mas nunca neste estilo e registo, "East of West" é um western futurista com uma mitologia que promete ser forte. Vale a pena espreitar.

Este livro é da "Image Comics" e é de salientar a qualidade do papel, aqui sim até faz sentido o preço ter chegado aos 3,5 dólares por comic.





Polarity




Esta mini-série de quatro números, editada pelo "BOOM Comics" chamou-me a atenção por ter Jorge Coelho no desenho (entrevista ao autor aqui). Max Bemis teve aqui uma ideia bem interessante e que mostra que há ainda novas formas de explorar o mito do Super-Herói. Imaginem alguém que sofre de bipolaridade descobrir que afinal tem super-poderes quando deixa de tomar os seus medicamentos? A ideia que tenho - e vem muito do "Six Feet Under" - é que mesmo sob medicação a vida de alguém que sofre desta condição é muito complicada, sentindo-se muitas vezes amarrado psicologicamente, culpa dos medicamentos que para pararem determinados aspectos da nossa psique, param outros também. Este libertar mental para o protagonista assume ainda proporções maiores aqui. No segundo número, contudo, já achei que o autor enveredou por caminhos mais comuns e que a psique do protagonista podia ter sido mais bem explorada, mas a um título do fim, parece-me uma aposta divertida e com uns desenhos fantásticos de Coelho que só por isso já vale a pena.






Jupiter's Legacy



Gosto do que li de Mark Millar e já falei dos seus "Ultimates" por aqui, uma abordagem moderna e cativante aos "Avengers". Contudo, aqui o grande factor que me levou a comprar "Jupiter's Legacy" prende-se com o desenhador, Frank Quitely que é de certa forma um herdeiro de Moebius, logo, um dos grandes desenhadores de BD do mundo. O gosto em querer ter algo dele em comic foi o factor decisivo. Há semelhança de "East of West" também aqui temos um desvio na História de um país. Durante a grande depressão Americana um grupo de Americanos preocupados partem em busca de uma ilha mística, encontrando-a (alguém espirrou "Lost"?). Millar não perde tempo a descrever-nos a mitologia por detrás desta ilha (nem me parece que o fará), usando-a apenas como um dispositivo narrativo (estou a tentar traduzir plot device) a fim de justificar porque este grupo de exploradores regressa de lá com super-poderes para salvar o sonho americano.

A partir desta curta intro damos um salto para o futuro. Estes heróis fazem parte integrante da actualidade Americana, tendo-a salvo de tempos negros e continuando o seu trabalho em defesa do sonho. Mais velhos, muitos deles têm agora descendência, uma descendência que por ter crescido neste meio e com super-poderes, parece ter-se tornado arrogante, desligada e irresponsável. Pelo menos é assim que são apresentados os filhos de Utopian - o líder da expedição.

Em tempos de nova crise económica, alguns heróis questionam até onde devem ajudar os governos. Utopian tem o pensamento tradicionalista do Super-Herói, ou seja, que está aqui para ajudar o povo e não para se intrometer em questões governamentais. Dito de uma forma geral, é um facto que no Universo dos Super-Heróis estes basicamente contribuem apenas para o mundo não ficar pior salvando-o da destruição. Mas questões como o combate à fome e às doenças, a corrupção, entre outros assuntos são trabalho para o homem comum. Neste universo Millar parece que irá enveredar por este caminho como o mostra no choque de opiniões distintas entre Utopian e o seu irmão, o qual acredita que o papel dos "Super-Heróis" deve ir mais além e por isso mesmo preparou uma série de tácticas para combater a actual crise económica. Contra a opinião de Utopian prepara-se para a apresentar ao governo dos Estados Unidos.

É precisamente esta linha de argumento que mais me interessou em "Jupiter's Legacy" ver até onde o papel de alguém com poderes pode ir e o quão perigoso também pode ser. Isto lembra-me que ando a ler "Marshall Law" e é fabuloso, mas sobre este falarei posteriormente.





The Crow: Curare






Após o regresso de James O’Barr ao título que lhe deu sucesso, “The Crow”, em “Skinning the Wolves”, parece que o autor lhe tomou o gosto voltando assim com mais uma mini-série de três números para a IDW sobre mais uma história de vingança dentro deste mundo. Como gosto do estilo negro de O’Barr e da mitologia do Corvo fiquei  curioso quando soube do seu regresso e segui-o em “Skinning the Wolves”. Trata-se de uma história bastante curta, sobre um injustiçado (foram tantos) que foi assassinado num campo de concentração durante a segunda guerra. Em três números dificilmente teriámos uma história que desse para grandes desenvolvimentos, ainda assim este curto conto negro de tragédia tinha um número pormenores suficientes para o fazerem interessante além do seu maior trunfo que é a vingança em si. Desta vez o regresso neste “Curare” volta a ser de três números, ou seja, mais uma curta - mas esperemos que intensa – história de tragédia e vingança.

A primeira coisa que salta à vista é que desta vez O’Barr usou uma criança para ser trazida de volta pelo Corvo e que talvez por causa disso mesmo precise de ajuda na sua missão, apelando ao detective encarregue do seu caso, Joe Salk - cuja vida pessoal está pelas ruas da amargura devido à sua profissão. Gostei do tom negro da história onde os desenhos de Antoine Dodé funcionam muito bem a transmitir uma atmosfera melancólica e perturbada. Novamente a violência é um ponto central destas histórias e não é nada descurada, além do próprio crime principal, a história que o detective conta, durante o pequeno-almoço, à sua mulher é, bastante intensa e é um bom exemplo das razões porque o seu casamento entrou numa espiral de descendência. Para quem é fã do género acho que tem aqui uma boa opção a experimentar. Por enquanto ainda só saiu um número.









Lazarus


Para terminar falo de mais uma aventura na "Image Comics" de Greg Rucka (argumento) e Michael Lark (desenho). Esta é mais uma deambulação por um futuro distópico onde Rucka - inspirado pela crise actual - decidiu tornar o 1% de riqueza, em 0,00001%, ou seja, estamos perante um mundo ainda mais severo onde os mantimentos são poder e esse poder pertence apenas a um mísero número de familia. Isto é bem notório logo nas primeiras páginas em que um grupo de pessoas arromba uma casa para roubar apenas comida. 

Cada familia escolhe um dos seus membros para ser o seu protector, para ser o seu "Lazarus", alguém que recebe toda a potencialidade da tecnologia de ponta para se tornar numa máquina de guerra. A nossa protagonista, chamada Forever, é o Lazarus da familia Carlyle, que há semelhança do Lazarus biblico, também "ressuscita" após um ataque dos "bandidos" mencionados acima. Forever cumpre na perfeição o seu papel, mas claramente o que isso representa está cada vez mais a afectá-la. Ela não nasceu para matar esfomeados e perseguir inocentes e é uma clara questão de tempo até Forever se revoltar contra a sua família.

Gostei do estilo de Lark, da escrita de Rucka e apesar de o tema não ser nada de novo, gostei bastante da forma como estão a desenvolver nesta história. Ainda só temos um #1, mas é um #1 promissor. No final temos um texto de Rucka onde nos fala sobre o processo de criação de "Lazarus" onde tem algumas histórias interessantes como aquele em que recorreu à ajuda do grande Warren Ellis para lidar com as questões de ficção-científica. Vale a pena espreitar.

5 comentários:

Mauro ZiBex disse...

Grande selecção! Já me abriste o apetite :D

Loot disse...

Nas séries ainda é cedo para saber se teremos material icónico, mas de uma forma geral está promissor :)

tadeu disse...

gostei do "east of west". gosto muito do millar e fiquei curioso com o "lazarus".
dicas interessantes...cool! :)

Rafael Santos disse...

Tens aqui muitas propostas interessantes :D Fiquei especialmente curioso pelo Occupy Comics, O East of West e o Lazarus. Confesso que ainda só tinha ouvido falar do Lazarus no meio destes todos.
De momento ando de volta de algumas séries:

- "Sweet Tooth" (um pouco à la Walking Dead mas a meu ver mais minimalista e ao mesmo tempo mais aprofundada) e "Trillium", ambas do Jeff Lemire, autor que estou a gostar bastante de conhecer
- "Saga", como já te tinha referido. O Brian K. Vaughn merece todo o meu respeito.
- Fables. Está a ser uma boa surpresa
- The Unwritten. Ainda não me convenceu mas também ainda só li 3 números
- Coffin Hill. Ainda só saiu um número mas até foi interessante.

Loot disse...

O Sweet Tooth e o Unwritten jé me falaram, mas também ainda não me iniciei, há semelhança do Saga.

Fables adoro, as personagens a narrativa. Acho que funciona tudo muito bem :)

Os outros não conheço.

Desta lista, ainda saliento o Corvo. Ainda falta sair o 3º (está a demorar), mas em termos de desenho e cor, é muito bonito.

O Jupiter's Legacy ao 3º volume torna-se mais aliciante. Lá está isto de ler por fascículos tem destas coisas, ainda estou muito no início de alguns destes títulos e é cedo para fazer grandes podnerações.

O Polarity tem um primeiro número que gostei muito, mas depois começa a descer e nunca mais volta a apanhar o ritmo. Prometia ser uma coisa mais diferente e depoix acabou por ser "mais um". Mas vale a pena estar atento ao desenhador, o Jorge Coelho que está actualmente a desenhar o Venom para a Marvel :)

Agora também me iniciei no "sex Criminals" do Matt Fraction. Ainda só li o 1º, mas achei interessante. E como não comprei o Hawkeye dele de que todos falam maravilhas, arrisquei neste.

Caramba é tanta coisa e tão pouco tempo :S

Abraço