segunda-feira, setembro 02, 2013

Tertúlia BD de Lisboa

Amanhã é mais um dia de "Tertúlia BD de Lisboa". Mas desta vez é um dia diferente, pois vou ser eu o convidado especial no âmbito de um ciclo dedicado a divulgadores de BD blogoesféricos.

Quero agradecer o convite aos organizadores e aproveitar para corrigir pelo menos uma falha minha na escrita desta biografia que apresento. No final quando falo da minha participação no "Cartaz Daire" na Rádio Limite, esqueci-me de dizer que o convite veio do Tadeu Almeida, mais uma vez um muito obrigado a ele.

A quem quiser apareça por lá para dois dedos de conversa bedéfila.



Ar puro e água fresca - Lançamento


"Ar puro e água fresca" do autor francês Pero é a mais recente aposta editorial da "Polvo". Pela curta amostra parece termos aqui mais uma excelente aposta por parte desta editora cujo historial merece certamente o voto de confiança.

O livro terá distribuição comercial em Agosto/Setembro. Segue o comunicado de imprensa:

O LIVRO

Filho de caçador, Joshua vê-se brutalmente órfão após o ataque à casa familiar por um grupo de índios. Terá então de aprender a sobreviver sozinho e a tornar-se adulto no ambiente vasto e rude das Montanhas Rochosas de meados do século XIX. Nesta história, o autor coloca o seu traço elegante ao serviço de uma fábula inteiramente muda que conta a natureza selvagem dos grandes espaços e a natureza não menos frustrada dos homens. Este é um western iniciático, trágico, com toques de humor, um romance que alia uma radicalidade gráfica e de argumento, que se mantém de uma extraordinária fluidez de fio a pavio, pois Pero escolheu o silêncio para deixar exprimir a força das ilustrações.


O AUTOR

Originário de Grenoble, França, Pero, pseudónimo de Olivier Peret, começou por estudar Desporto antes de ingressar na Academia de Belas-Artes de Tournai. Acabados os estudos, dedicou-se de corpo e alma à criação e animação da revista “Cheval de Quatre”. Vive em Lille. Com “Ar puro e água fresca”, a sua primeira obra enquanto autor completo, Pero aceita o desafio de uma história muda, onde revela um belo domínio gráfico e narrativo.

Ar puro e água fresca
Argumento e desenho: Pero
23 x 16,5 cm; capa em quadricromia, com badanas;
128 pág. impressas a preto e branco
PVP: 11,23 euros (s/IVA); 11,90 euros (c/IVA)
ISBN: 978-989-8513-13-7

sexta-feira, agosto 30, 2013

Ænima



Esta semana no programa "Álbum de Família" na Radar, o disco escolhido foi "Ænima", o segundo dos Tool, editado em 1996.


Por ser um dos álbuns da minha vida, não queria deixar passar isto despercebido. Foi o primeiro que comprei e conheci-o com as canções "Stinkfist" e "Eulogy" que me gravaram numa K7. Rapidamente fiquei contagiado e ainda hoje o considero como um dos melhores álbuns que já ouvi. A par com "Lateralus" são as obras-primas da banda.

A título de curiosidade Ænima é a junção entre a palavra Anima + Enema. Anima é latim para alma enquanto enema é, bem, é um clíster, portanto significa uma limpeza do intestino. Diz o guitarrista da banda Adam Jones que esta nova palavra pretende significar "Limpeza da Alma". Nada de estranho para quem já é familiarizado com a banda. Agora pensar que a última canção se chama "Third Eye" ganha todo um novo significado.

"Ænima" marca também um período de transição na banda quando o baixista Justin Chancellor se juntou aos mesmos em substituição de Paul D'Amour. Chancellor contínua ainda hoje nos "Tool" que segundo dizem vão editar novo álbum em 2014 (já é tempo).



quinta-feira, agosto 29, 2013

Anne Frank – Biografia Gráfica


Foi Winston Churchill quem disse que “aqueles que não aprendem com a História estão condenados a repeti-la”. Quando pensamos nos graves erros do passado, o Holocausto é um dos que nos surge rapidamente na memória. De todas as grandes atrocidades cometidas ao longo da História da Humanidade, as da segunda guerra mundial têm sido das mais lembradas e focadas nos mais diversos meios de comunicação.

De todos os registos e explorações do tema, houve um livro em particular que continua ainda hoje a constituir um dos relatos mais importantes e fundamentais desta trágica época: o“Diário de Anne Frank”, que tem a particularidade de nos dar a conhecer a impressão desta (sobre)vivência a partir do ponto de vista de uma adolescente judia.

A história de Anne Frank teve um impacto tão forte que tem vindo ao longo dos anos a ser adaptada a outros meios, tais como ao teatro, à televisão, ao cinema e, agora, à Banda-Desenhada. Pelas mãos de Sid Jacobson e Ernie Colónsurge-nos a primeira adaptação oficial em BD desta história, editada recentemente em Portugal pela “Devir”: “Anne Frank - Biografia Gráfica”.

É sempre de louvar uma tarefa destas, onde a partir da BD a história de Anne Frank volta a ser recordada, podendo chegar inclusive a mais pessoas. Nesse sentido, estamos perante uma adaptação que tem uma vantagem logo à partida – a importância da história em questão -, sendo esta mais uma forma de contribuir para a contínua imortalização deste relato. Não é à toa que a frase citada no início do texto se encontra exposta, actualmente, em Auschwitz.

Enquanto dupla, Sid Jacobson e Ernie Colón são dois nomes bem conhecidos da BD em geral e das biografias em particular, tendo trabalhado juntos na adaptação da vida de Che Guevara e dos acontecimentos do11 de Setembro. Desta vez escolheram debruçar-se sobre a vida da família Frank, mais especificamente de Anne, um projecto que contou com o apoio da “Casa de Anne Frank” em Amesterdão a qual disponibilizou todo o tipo de documentos que possuem sobre esta história. Isto, aliado a vários testemunhos de pessoas que conheceram Anne Frank, contribuiu para a construção de uma biografia rica em factos e bastante realista.


Apesar de o “Diário de Anne Frank” assumir um papel preponderante nesta história, uma vez que se trata de uma biografia, Sid Jacobson foi além do livro, avançando tanto nos acontecimentos que lhe são passado como nos que lhe são futuro, dando uma maior contextualidade a toda a história. Desta forma, Jacobson iniciou esta narrativa com o casamento dos pais de Anne e terminou-a a relatar os últimos dias do seu pai, o único sobrevivente do grupo de pessoas que viveu dois anos escondido naquela que é hoje conhecida por “Casa de Anne Frank”, em Amesterdão. Tudo isto alternando com a história do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, liderado por Adolph Hitler, mostrando-nos a sua subida ao poder e posterior declínio no final da segunda guerra.

Sobre as partes da história que se encontram no diário, o autor introduziu excertos escritos pela própria Anne Frank na história que, tendo em conta a abordagem escolhida por Jacobson ao material, resultaram num dos aspectos mais interessantes deste livro.
 
Em relação à adaptação em si, a voz do autor assumiu um tom académico e de listagem de acontecimentos, ao invés de deixar as personagens fluírem nas suas interacções, o que resultou num tom narrativo rígido e pouco dinâmico. Uma vez que os autores tiveram acesso a toda a informação disponível sobre Anne Frank, e não se tratando esta de uma adaptação literal do diário, seria interessante ver a utilização de todos estes factos na construção de uma novela gráfica. Apesar do tom mais adulto, “MAUS”, de Art Spiegelman, vem à memória como exemplo. “Anne Frank – Biografia Gráfica” surge-nos então como um livro muito educacional, mas pouco estimulante do ponto de vista da BD, cuja linguagem artística podia ter sido melhor explorada. 

Em termos gráficos, compreende-se a escolha de um traço mais leve por parte de Ernie Colón quando estamos perante um livro que parece mais direcionado para chegar até aos mais novos. Porém, de uma forma geral, estamos perante um desenho desiquilibrado que, apesar de ter bons momento,s é demasiado ínsipido e desinteressante na sua maioria. Uma das mais valias de Colón neste trabalho esteve na aproximação das personagens em relação aos seus retratos originais, algo que o autor trabalhou a partir de fotografias, mas que por outro lado também lhe parece ter dificultado a expressividade das suas faces em determinadas cenas.


No que toca à importância dada ao tom realístico, o mesmo se pode dizer sobre o trabalho do desenhador no que toca a alguns edifícios que surgem na história, nomeadamente a casa em Amesterdão onde Anne Frank viveu com a família escondida e que se encontra caracterizada ao milímetro como era na altura. Na página 80 temos, por exemplo, uma descrição gráfica desta casa que é um dos momentos mais bem conseguidos pelo autor, tanto no traço como na cor que, de resto, está também longe de impressionar, particularmente no padrão de vários vestidos onde se nota um facilitismo digital que não correu nada bem.
Sobre a narração gráfica, sendo funcional para relatar acontecimentos, é pouco cativante para o leitor. Por fim, a balonagem perde com alguns erros relativos ao posicionamento incorrecto de determinados balões em relação à ordem de leitura. Tudo isto deixa bastante a desejar quando estamos a falar de Ernie Colón, um artista que já provou várias vezes que é capaz de muito melhor.


É de salientar a belíssima edição em capa dura por parte da “Devir” e do segmento relativo a sugestões de leitura, organizadas pelos autores para quem quiser continuar a conhecer mais sobre a vida de Anne Frank.

Não se tratasse este livro da biografia de Anne Frank e o destaque que lhe foi dado seria certamente muito menor. Ainda assim o livro cumpre aquilo a que se propõe: contar a história trágica da família Frank e, com ela, dar-nos a conhecer um pouco do que decorreu durante a segunda guerra, em particular a partir de uma jovem que, infelizmente, não a sobreviveu, mas cujo testemunho é ainda hoje recordado e ensinado. Nesse sentido, é impossível não nos emocionarmos com o poder desta história, mas enquanto objecto artístico não convence.


Publicado originalmente no site da Rua de Baixo.

Donna Paulsen (Adler Holmes)


Quanto mais vejo "Suits" mais me parece que a Donna Paulsen (Sarah Rafferty) - uma das melhores personagens da série - é a filha ilegítima do Sherlock Holmes e da Irene Adler.

terça-feira, agosto 27, 2013

Pink Floyd e Doctor Who



Parece que os Pink Floyd eram fãs da série, uma vez que na canção "One of These Days" do álbum de 1971 "Meddle" se consegue ouvir algures (a partir do minuto 2:37) um eco do tema de "Doctor Who". Esta é uma referência que foi mais salientada em prestações ao vivo.

E com isto aproveito para me dizer que já me rendi aos encantos do Doctor e comecei a ver a série.

quinta-feira, agosto 01, 2013

Marshal Law - The Deluxe Edition



I'm A Hero Hunter. I Hunt Heroes.
Haven't Found Any Yet.

No prefácio Jonathan Ross cedo associa "Marshal Law" ao género Punk. Pego nessa ideia e sublinho-a. Os elementos estão todos lá, começando na agressividade e passando pelo niilismo e independência, "Marshal Law" surge como um grito de revolta, um que à primeira vista poderá parecer voltado apenas para a indústria de BD norte-americana, mas que na realidade vai bem mais fundo, como Pat Mills explica no posfácio. Mais que uma sátira ao universo dos super-heróis "Law" é também uma severa crítica aos falsos heróis do nosso mundo, aqueles que apregoam guiar-nos na escuridão, mas apenas para nos mergulhar mais fundo nela. Sim Marshal Law é definitivamente uma BD Punk e é espectacular!

Pat Mills, um dos fundadores da "2000AD" e apelidado por muitos como o "Padrinho dos Comics Britânicos" aliou-se mais uma vez ao mestre Kevin O'Neill para criar esta série cuja publicação teve início na "Epic Comics" em 1987. Esta extinta editora pertencia à "Marvel" e havia sido criada em 1982 tendo posteriormente encerrado em meados dos anos 90, apesar de ainda ter voltado a publicar no futuro. A partir de 91 as coisas complicaram-se começando pela mudança de casa para a "Apocalypse Ltd", uma editora criada por autores britânicos, entre os quais Mills e O'Neill", que pretendiam continuar publicações sem o envolvimento das grandes companhias. Contudo, em 92 a "Apocalypse Ltd" fecha portas e o arco de "Marshal Law" que nela havia sido iniciado ("Super Babylon" inserido na antologia "Toxic!") acabaria por ser concluído na Dark Horse. Ainda no mesmo ano a série de Mills e O'Neill acabaria por desenhar um círculo perfeito ao regressar aonde tudo começou, à "Epic Comics", para um crossover com Pinhead de Cliver Barker em 93, mas foi sol de pouca dura pois em 94 a personagem regressou para a sua última história a solo, "Secret Tribunal". A partir daqui a personagem ainda fez algumas aparições em crossovers (na "Dark Horse" e "Image"), mas no que toca a uma série de BD própria nunca mais voltou a acontecer. Agora passados 26 anos desde a sua primeira aparição uma edição Deluxe é publicada pela DC Comics (que adquiriu os direitos das histórias), encontrando-se nela quase todas as aventuras em BD desta personagem (salvo os mencionados crossovers) e que são as seguintes: "Fear and Loathing" (Marshal Law #1-6), "Marshal Law Takes Manhattan", "Kingdom of the Blind", "Hateful Dead", "Super Babylon" e "Secret Tribunal". Salientei em BD porque os autores chegaram a publicar romances ilustrados de "Marshal Law", contudo, o interesse em voltar à publicação no formato BD mantém-se ainda nos dias de hoje e oxalá que esta nova edição venha contribuir para ajudar a esse desejo.


A acção desenrola-se maioritariamente em San Futuro, uma versão futurista de San Francisco após grande parte da cidade ter sido devastada pelo sismo que ficaria a ser conhecido na História como "The Big One". Nesta versão distópica do mundo a ciência dedicou grande parte do seu trabalho à criação de super-seres, sendo hoje capaz de providenciar poderes ao Homem adulto comum e, também, "cultivar" in vitro seres humanos a fim de possuírem poderes desde a nascença. Os segundos são considerados o futuro dos super-heróis.

À semelhança do que Alan Moore estava a fazer em "Watchmen" (começou a ser publicado um ano antes) também Mills aqui se debruçou sobre a desconstrução do super-herói mas de uma forma completamente distinta. Moore pegou no tema debruçando-se sobre vigilantes, pessoas comuns que vestiam collants de noite para patrulhar as ruas e livrá-las do crime. Eram em todos os níveis seres-humanos e sujeitos aos mesmos perigos que tu e eu, todos menos um, uma excepção que dá pelo nome de Dr. Manhattan. Mas mesmo Manhattan nos surge mais como um deus entre os homens do que como um super-herói. Ora em "Marshal Law" Mills explora mais o conceito de ser "super" e re-imagina todo um mundo agora povoado por indivíduos assim, e surpresa das surpresas, é bastante diferente do imaginado pelo universo tradicional do género.

Podemos começar pelos veteranos de guerra. Um governo com capacidade de dotar os seus soldados de super-poderes jamais desperdiçaria este "talento", munindo assim as suas tropas a fim de combaterem nas guerras vindouras. Tal acontece e resulta. Porém, um dos maiores problemas desta prática consiste no regresso a casa destes heróis, um regresso que se prova impossível para a maioria deles que, transtornados e sentindo-se "anormais", enveredam por uma vida pautada pelo caos. É aqui que entra Marshal Law um polícia cujos métodos de ultra-violência são os mais funcionais na caça a estes "super-heróis". Claro que ao passar pelo tema da guerra Mills não podia perder a oportunidade de atirar algumas farpas ao assunto, particularmente em "Fear and Loathing" e "Marshal Law Takes Manhattan", onde salienta o papel grotesco assumido por determinadas instituições governamentais que não impõem limites para levar os seus objectivos avante.


Noutro campo temos os super-heróis que são a inspiração do povo como é o caso de Public Spirit (inspirado em Superman) e que trabalha a sua imagem como a de sendo um Messias, um salvador. Como ele há outros que surgem como sendo os protectores da justiça e da verdade, mas Marshal Law vê através disso e sabe a quantidade de tretas que estão por detrás do que apregoam. A natureza corrupta do ser humano não é surpreendente, por isso não surge como estranho imaginar que muitos destes heróis, estando num patamar acima em termos de poder, acabem por se cegar com o mesmo. Law sabe isso e tem em Public Spirit o seu inimigo número um, não descansando até o desmascarar como a fraude que é. Este arco, inserido em "Fear and Loathing", é um arco onde se nota especialmente a raiva do autor - directamente espelhada no protagonista - em relação à divinização dos super-heróis.

Mills também salienta bem a ironia que existe em alguém apelidar-se de herói quando os perigos são perto do inexistentes. Muitas destas personagens não sentem dor e os riscos a que estão expostos acabam por ser irrisórios. O povo neste mundo acaba assim por esquecer os verdadeiros heróis, aqueles que arriscam constantemente as suas vidas em prol dos outros. Claro que isto funciona melhor neste universo criado por Mills e O'Neill, pois todos sabemos que no género clássico do super-herói estes colocam constantemente a vida em perigo e até os seres mais poderosos como o Superman já perderam a vida em defesa do planeta. De qualquer das formas percebe-se cristalinamente a mensagem que o autor quer passar em relação a este tópico.

Também as diferenças a nível sexual são mencionadas, algo que sempre "escapou" a este género. Aqui é bem focado que - por exemplo - personagens que voam não podem ter sexo com seres humanos normais, as suas fisiologias são incompatíveis podendo resultar na morte dos segundos.

They Say I Don't Pray For My Enemy
I Do
I Pray They Go To Hell

Por esta altura já é mais que tempo de nos focarmos neste agente da lei que se tornou o maior pesadelo dos super-heróis e tentar perceber em que consiste este antagonista? Afinal de contas quem é Marshal Law? À primeira vista poderá ser estranho que Law nos surja também com uma veste de guerra que omite a sua identidade, é irónico que o maior inimigo dos heróis se vista como eles, ainda que o seu gosto recaia mais numa aparência de polícia fascista com tendências sadomasoquistas. Nesta fatiota, onde o cabedal predomina com uma série de mensagens escritas (nomeadamente nas solas das botas para os "heróis" lerem quando estiverem a levar com elas nas trombas), há uma particularidade que chama muito a nossa atenção, o arame farpado que ele usa à volta de um dos braços. Podemos dizer que se trata apenas de uma questão estética, mas é mais que isso, o arame farpado está lá para o magoar constantemente, para nunca o fazer esquecer de onde vem o seu ódio pelos super-heróis, para o lembrar que ele já foi um deles. A fim de justificar esta sede de vingança era preciso termos um passado deste calibre, ou algum herói havia morto a família de Law ou então ele já tinha sido um dos que caiu na ilusão, um dos que acreditou em tempos neste novo sonho americano e que se alistou prontamente para ser um dos heróis do seu país. Esta desilusão e vergonha nunca o abandonam resultando num excessivo uso de violência que rapidamente se tornou a sua imagem de marca. É verdade que para combater alguém com super-poderes a violência terá de ser equiparada, mas Law vai sempre mais longe do que é preciso.


Não deixa de ser engraçado que a editora de BD que é o alvo de maior sátira em "Marshal Law" acabe por ser precisamente a editora que comprou os direitos das histórias e a publicou orgulhosamente agora nesta edição Deluxe com 480 páginas, falo da "DC Comics". E se "Fear and Loathing" é um thriller com o Superman como alvo principal (tinha de ser o primeiro), "Kingdom of the Blind" é com o Batman e "Super Babylon" com a Justice Society of America (com a adição do Captain America e do Bucky). A sátira ao Batman em particular deve ser a mais sórdida e macabra história de "Marshal Law". Mills e O'Neill pegaram no conceito do vingador negro e levaram-no a outros níveis de obscuridade. Por estas razões caiu logo nas minhas preferências. Se Batman é muito diferente de Superman, essa mesma diferença teria de se fazer notar entre Private Eye (Batman) e Public Spirit, algo que se reflecte no facto de Eye ser o único herói que Law não abomina, havendo até alguma identificação entre eles, uma vez que à sua semelhança também Eye é um vigilante que - à primeira vista - elimina a escumalha de San Futuro. Claro que nem tudo o que luz é ouro e Law irá descobri-lo não só às suas custas. Além do trabalho gráfico excepcional de O'Neill, Mills também não lhe poupa elogios no que toca a ideias para as histórias, nesta em particular foi O'Neill o responsável pela hilariante relação entre Private Eye e o seu mordomo, bem como alguns dos seus fantásticos engenhos - o carro de Private Eye consegue atropelar alguém, cortando e cosendo-o posteriormente.

Porém, nem só a presença da "DC Comics" se faz sentir, a "Marvel" também não escapa, mesmo estando por detrás da edição original - nem de outra forma podia ser. "Marshal Law" não se tornou propriamente a ideia que Mills e O'Neill haviam vendido à editora, mas quer tenham gostado ou não, esta nunca se pronunciou contra. Além da já mencionada participação das versões do Captain America e do Bucky temos a hilariante "Marshal Law Takes Manhattan" onde um grupo de heróis (sátira aos Avengers, Fantastic Four e até ao Silver Surfer) se encontram numa instituição para doentes mentais. O final que foi talvez dos momentos de maior gargalhada foram também da autoria de Kevin O'Neill que usa as características familiares dos heróis para a cena de suicídio conjunto mais hilariante da história dos comics. Aliás, tal como todas as boas sátiras é preciso conhecer bem o sujeito a satirizar e tanto Mills como O'Neill demonstram ter o trabalho de casa bem feito. Todas as histórias têm uma série de pormenores deliciosos sobre as versões originais em que são inspiradas, lembro-me de momento da piada que Law faz à versão do Green Lantern da JSA (Alan Scott) sobre a ridícula fraqueza que este tinha à madeira. Mas esta é apenas uma de inúmeras.


Ainda não saindo da "Marvel", será que"Hateful Dead" deu nascimento à futura "Marvel Zombies"? Provavelmente não, mas ver os heróis mortos por Marshal Law a regressarem das sepulturas foi mais um grande momento desta série, principalmente pelo foco que dão no facto de não haver nada para além da morte, o que pressupõe que não existe qualquer tipo de castigo ou recompensa para a vida que se leva na Terra, o que alguns encaram como carta-branca para cometer as maiores atrocidades em mais uma interpretação dos conceitos do Niilismo que desiludiria Nietzsche.


A encerrar temos “Secret Tribunal” uma história mais voltada para o terror na ficção científica numa espécie de amálgama entre os dois primeiros “Alien’s” mas com Marshal Law no lugar de Ripley. Uma das particularidades desta história é que além da voz interior de Law também seguimos a de outra personagem, um aspirante a super-herói - daqueles criados desde a fase embrionária - o Growing Boy. Foi um acrescento interessante para nos dar a conhecer um pouco melhor em que consistem as ideias e sonhos de alguém pertencente a esse grupo, um grupo cujo destino foi forjado ainda antes de terem nascido.

No género dos super-heróis a abordagem ao crime sempre foi relativamente superficial, havendo algumas excepções que até me parecem estar a aumentar com o tempo, talvez porque o género tem estado a acompanhar mais a idade dos seus leitores, mas isso é tópico para uma outra conversa. Em "Marshall Law" há claras menções ao papel que o Governo teve na criação destes monstros que são agora os super-heróis que povoam San Futuro. Também eles foram inocentes corrompidos e com as suas vidas arruinadas. Nesse sentido Law poderia demonstrar uma maior compaixão por estas personagens, mas tal não ocorre. Mesmo tendo noção que não são os maiores culpados - mas antes aqueles que os criaram - Law não acredita na sua reabilitação e por isso mesmo só conhece uma maneira de resolver o assunto, acabando por cair também no mesmo erro cometido pelos super-heróis que tanto abomina, ou seja, também ele é por vezes um instrumento - sendo constantemente aldrabado pelo seu superior - e também ele ataca apenas o mal superficial, os sintomas, deixando a verdadeira doença, as entidades governamentais, de lado e impunes. Seria interessante ver uma história de Law que enveredasse mais a fundo por esse caminho, até porque é algo bem desenvolvido e espelhado na série, algo que Law conhece bem, mas cuja resolução é bastante mais complicada. Aqui é preciso salientar que mesmo não partilhando simpatia por nenhum, Law apenas desmembra os super-heróis que seguiram o caminho do crime e um bom exemplo disso é a curta relação que ele acaba por ter com Growing Boy em "Secret Tribunal", um jovem ingénuo cujas aspirações ainda são nobres e puras.



Comecei a ler Pat Mills com "Sha" e "Requiem Vampire Knight", sou fã da sua escrita, do seu humor sórdido e considero-o um dos grandes mestres da ultra-violência. Mills é perito em massacrar os conceitos e ideias que abomina, doa a quem doer. Aliado a Kevin O'Neill tornam-se numa dupla imbatível. O'Neill foi crucial a dar vida a este universo, toda a estética gore e Punk, com vários grafites a tornarem-se parte integrante dos cenários, dão uma vida sem paralelo a San Futuro, uma cidade onde há de tudo um pouco, incluindo casas de prostituição com super-heróis onde o sexo é a última coisa a ser vendida. Hoje em dia O'Neill dispensa qualquer tipo de apresentação tendo alcançado fama mundial graças ao sucesso da sua parceria com Alan Moore em "The League of Extraordinary Gentlemen".

Como não podia deixar de ser "Marshal Law" gerou bastante controvérsia no mercado dos comics norte-americanos, tendo até sido banido de uma loja no Texas por ter um super-vilão a chutar um miúdo de San Futuro até Santa Monica. Mas tendo em conta o facto de ter sido publicado sem ser vítima de censura foi uma grande vitória para os autores.

No final surge a questão se passados 26 anos "Marshal Law" continua tão actual como antes? Eu só tive o privilégio de o ler agora, mas parece-me seguro arriscar que envelheceu muito bem e que fará tanto ou mais sentido agora do que na sua altura (Law no cinema?). A deificação dos super-heróis continua e a situação actual do mundo - infelizmente - fala por si. Em relação à segunda parte é particularmente triste que histórias como esta, entre tantas outras - Quino e a sua Mafalda vêm à memória - nunca fiquem datadas, sinal que a humanidade ainda luta contra os mesmos problemas, porque as pessoas serão sempre pessoas.

Tropa de Elite 1 + 2


No primeiro José Padilha arranhou a superfície do Brasil ao expôr a vida nas favelas e a intervenção da polícia e, claro, desta tropa de elite que tem no Capitão Nascimento uma daquelas personagens que se tornam icónicas no cinema. Um filme muito bem executado e com um ritmo invejável. Vi-o perto da altura em que saiu que foi em 2007.

Passados três anos surge "Tropa de Elite 2" e apesar de ter gostado muito do primeiro acabei por só vê-lo recentemente. Que grande surpresa, "Tropa de Elite 2" é uma sequela que faz todo o sentido e que não se limita a colar no que foi feito no primeiro filme. Se no primeiro Padilha arranhou a superfície, neste o realizador escavou bem mais fundo, mergulhando no maior problema do Brasil, a corrupção. Agora seguimos desde o início o Capitão Nascimento após ser transferido para trabalhar no governo. Aqui é que ele irá realmente descobrir o quão podre é a situação política brasileira e o quão complicado é fazer a diferença. É tal e qual como apregoam na capa "O inimigo agora é outro".

Dois filmes que fazem todo o sentido existerem. Fossem todas as sequelas assim.


segunda-feira, julho 29, 2013

sexta-feira, julho 26, 2013

Alternative Prison na Rádio


O sonho de participar em rádio aconteceu agora graças ao convite do Tadeu Almeida, um dos locutores da Rádio Limite que juntamente com Francisco Favinha, tem um programa cultural intitulado "Cartaz Daire". É verdade que já tinha feito uma "Hora do Bolo" na Radar, mas desta vez a participação foi muito maior.

No âmbito do programa fui falar de algumas novidades de BD, naquilo que se pode traduzir numa conversa entre amigos, onde acabou por se falar também de Cinema e televisão. Aproveitei a oportunidade para me focar na BD feita por portugueses, uma vez que se a BD é pouco falada nos meios de comunicação, a nacional ainda menos. Os escolhidos foram portanto Marco Mendes com o seu recente "Anos Dourados" e Jorge Coelho desenhador do "Polarity" que viu a sua conclusão este mês - dêem um desconto aos nervos que me fazem falar e falar.

Em relação às sugestões que dei de leitura, além das novidades, acabei por me concentrar no material que foi editado recentemente uma vez que há uma grande facilidade em encontrá-los à venda. Agora após ter terminado vejo que devia ter aconselhado alguma BD humorística, fica para uma próxima oportunidade.

Podem ouvir o programa aqui, mas aviso que se ao me lerem imaginavam uma voz de Mark Sandman, então é melhor não ouvirem. Aconselho também a audição das edições anteriores, todas disponíveis na Mixcloud.

Mais uma vez um muito obrigado ao Francisco Favinha e principalmente ao Tadeu Almeida pelo convite e voto de confiança.

quinta-feira, julho 25, 2013

O Batman Senta-se?


 Espero que o título tenha captado a atenção, foi uma história que achei muito tola e curiosa - maioritariamente tola - e que ando para partilhar já à algumas semanas. Aliás é precisamente por ser tão disparatada que acredito que seja verdade.

Este tema de conversa sobre o Batman surge após uma carta aberta e, no seu seguimento, uma entrevista dada ao site Bleeding Cool por Paul Jenkins, relativamente à sua saída das grandes editoras de BD norte-americanas, a DC e a Marvel. Já aqui tinha falado do projecto mais recente do autor, "Fairy Quest", em que ele recorreu à plataforma do Kickstarter para o desenvolver e que está agora a ser editado pela "BOOM". Parece que o corte com as editoras mencionadas almeja ser permanente.

Nestes documentos Jenkins espelha bem o seu descontentamento com o modo de funcionamento destas editoras nomeadamente naquilo que chegam a apelidar de "bullying dos criadores".  A partir da entrevista Jenkins respondeu a algumas questões dos fãs e uma delas chamou a especial atenção de todos - que foi posteriormente salientada aqui - e que passo a transcrever:


I would like to relay an editorial comment that I received near the end of my time writing the Dark Knight New 52 series. In one scene, I had written that Batman is sitting on a rooftop during an intense conversation, close to a person who has been injured. The editorial comment: “We’re not sure you are “getting” the character because it’s common knowledge that Batman never sits down.” This, mind you, after I had made it clear I was not going to rewrite material for the umpteenth time after it had already been approved.

Now aside from the fact that Batman could just as easily sit on his haunches as anything, if writing the character sitting down shows a basic lack of understanding of the character then I guess Alan Moore didn’t understand the character in Killing Joke:



And obviously Frank Miller missed out on the point during his Dark Knight Strikes Again series:



And, of course, Batman never sits down when he is in the Bat Cave looking at all those monitors. I think, perhaps, that if editorial comments are focused around, say, a character’s penchant for standing up as opposed to, say, the interactions between characters or the flow and structure of the story then the people behind such comments are missing the point. The requisite qualification for being a good editor does not have to be a degree in English (though that might help) but neither should it be a ridiculous adherence to past continuity, especially not a haphazard and inaccurate one.


Sucintamente, na altura em que Jenkins escrevia o título "The Dark Knight" (dos Novos 52) foi acusado de não estar a "compreender" bem a personagem do Batman porque escreve uma cena em que ele se encontra sentado. Obviamente que com tom jocoso Jenkins relembra rapidamente uma série de cenas em que Batman já surgiu sentado (The Killing Joke, Dark Knight Strikes Again, etc). Actualmente uma das imagens de marca de Batman é, precisamente, a dele sentado a olhar para os vários ecrãs da Batcave, mas enfim... É verdade que em muitas reuniões da Justice League, Batman permanecia de pé, mas dizer que a personagem nunca se senta e, principalmente, criticar um autor por isso não abona nada a favor da imagem dos editores da DC Comics (ou pelo menos deste em questão) e Jenkins critica isso com razão no último parágrafo que coloquei. É que além dos editores não terem nada a comentar em relação à interacção das personagens, a única coisa que criticam prende-se com uma questão relacionada com a continuidade antiga (estamos num reboot) e - a cereja no topo do bolo - incorrecta. Porque fosse algo importante tem termos de continuidade e faria todo o sentido a chamada de atenção - não é o caso.

Como tudo isto é do mais tolo que pode haver na indústria da BD, rapidamente alguém criou um tumblr sobre o assunto onde todos enviam imagens de Batman sentado nas BDs. Hilariante logo na imagem de apresentação. Vale a pena lembrar que nos dias de hoje é preciso ter muito cuidado com o que dizemos, a internet não perdoa. Podem consultar o tumblr aqui.

terça-feira, julho 23, 2013

Wolverine - Vol.1 (#1-4) 1982


Com a estreia à porta de "The Wolverine" regresso com mais uma sugestão bedéfila, desta vez uma bastante óbvia, ou seja, o arco de Wolverine escrito em 1982 por Chris Claremont e desenhado por Frank Miller. Escolhi-a por ser a história em que o filme se inspira, mas também, e mais ainda, porque vale bem a pena conhecer.

A ideia destas sugestões é a de aproveitar a projecção que estes filmes têm para fazer uma ponte entre eles e a BD, aproveitando assim o sucesso de um para dar a conhecer mais do outro. A intenção não era a de sugerir que ficam melhor servidos a ler estas sugestões do que a ver os filmes em questão, afinal de contas, são desportos diferentes e o prazer de um não implica nem arruína o do outro. Contudo, este ano os filmes têm ficado aquém das minhas expectativas, apesar de terem todos grandes momentos - o "Iron Man 3" tira uma grande cartada com o Mandarim e a introdução de "Man of Steel" é imponente - no final fica a sensação de que se podia ter ido mais além. No caso de "The Wolverine", inicialmente fiquei muito entusiasmado quando Darren Aronofsky foi revelado como o realizador deste filme, imagino que muitos de nós ficaram. Ter o realizador de "The Fountain" a pegar neste material era tão promissor que só podia ser mentira... Passado algum tempo Aronofsky saiu do projecto, por razões que questiono se foram mesmo autênticas, mas não vale a pena entrar em especulações. O projecto continua e pelas amostras em trailers e primeiras críticas, parece ser mais do mesmo que vimos no primeiro, ou seja, fraquinho (o que me lembra que vale a pena ler a "Origem" de Wolverine). Pessoalmente vou arriscar e vê-lo em casa, não quero contribuir para que continuem a pegar nestas personagens e nos sirvam material muito aquém do que elas merecem. É preciso mostrar aos estúdios que não é por ter o nome de uma destas personagens no título de um filme que ele será um sucesso comercial, é preciso mostrar-lhes que precisam ter qualidade. Mas chega de falar do filme, até porque nem o vi e fica-me mal.



Em relação a esta história, penso que foi a primeira a ser escrita sob o título de "Wolverine", em adição, tenho ideia que também é a primeira que foca o passado da personagem no Japão associando-o aos samurais, algo que hoje é uma imagem de marca da mesma.

Quando Logan recebe a notícia do casamento de Mariko Yashida, a sua amada, regressa imediatamente ao Japão para a confrontar com esta história. Os seus sentimentos ainda entram em maior turbilhão quando a encontra e descobre que tem sido vítima de abusos domésticos por parte do seu novo marido, um casamento ao qual Mariko foi obrigada para não desonrar o seu pai que havia oferecido a sua mão. Shingen Yashida, líder do clã Yashida e pai de Mariko, havia sido considerado morto, mas agora, passado alguns anos, está de regresso para provar o contrário. Neste retorno parece ter vindo um homem mais cruel e, pior ainda, sem honra, algo que Mariko ainda não contemplou na sua plenitude, mas que está condenada a descobrir.

Num primeiro encontro entre Shingen e Logan, o segundo é humilhado em combate pelo primeiro, não por ter perdido, mas pela forma desleal com que chega a combater. O que o mancha aos olhos de Mariko, que desconhece que Logan foi envenenado antes, não se encontrando em situação leal. Após ter sucumbido ao seu lado animal e ter visto a vergonha no olhar de Mariko, Logan opta por deixá-la em paz. Mas Shingen tem outros planos para "o animal" e sem saber Logan envolve-se numa grande conspiração pelo poder do crime organizado no Japão.

Chris Claremont é um excelente contador de histórias visuais e foi um dos nomes mais importantes a passar pelos "X-Men", nomeadamente por Wolverine em particular. Aqui presenteia-nos com a primeira história de Wolverine a solo, nesta série limitada de quatro números que posteriormente seria precedida por uma série continua, também escrita por Claremont e que narra as aventuras do herói em Madripoor.

Um dos grandes focos nesta história consiste na abordagem à dualidade na vida de Logan, à sua constante luta interior entre o seu lado humano e animal - Dr. Jeckyl e Mr. Hyde saltam à memória - e que é bem desenvolvida pelo autor. Estando no Japão o código de honra de um guerreiro ganha especial relevo e é interessante ver como Logan começa por se perder no início da história, para posteriormente se encontrar, descobrindo que não tem de ser o animal que Shingen o faz crer que é. Acima de tudo Logan é um guerreiro e um com honra.



A Claremont junta-se Frank Miller e é pena que apenas nestes quatro números. Tenho ideia que Miller foi uma influência forte na história e a nível de desenho é mais um trabalho notável seu, gostava de o ver mais vezes a desenhar o Wolverine. Lembro-me que a início me deslumbrei mais com as capacidades narrativas de Miller, mas quanto mais conheço o seu trabalho gráfico mais o admiro também como desenhador. Tem sempre um olho atento para a personagem que está a trabalhar avaliando clinicamente a forma como esta se deve mover, e claro, lutar. A forma como um Aranha, um Daredevil ou um Wolverine combatem é diferente e isso nota-se muito bem no trabalho de Miller.

Algo que se torna muito dispensável quando lemos a história seguida são as constantes introduções à personagem em todos os números. No início de todos os comics Claremont explica sempre quais os poderes de Wolverine. Era algo comum na altura, principalmente sendo o início da série a solo da personagem, para que qualquer leitor pudesse pegar em qualquer número e situar-se minimamente na narrativa.

Para concluir resta-me dizer que esta história teve um forte impacto na "carreira" da personagem. tendo-se tornado numa das mais populares. Além do filme também este arco foi adaptado na série de animé de Wolverine. A série também se encontra editada em português pela Devir.

segunda-feira, julho 22, 2013

Anos Dourados


Depois de “Diário Rasgado”, o autor Marco Mendes está de regresso com “Anos Dourados”. Desta vez, o Colégio das Artes da Universidade de Coimbra junta-se à parceria entre a Mundo Fantasma e a Associação Turbina, uma vez que a sua edição é feita no contexto da exposição “Maré Baixa”, integrada na XV semana cultural desta Universidade.

Neste novo livro o autor compila uma série de desenhos que realizou ao longo dos últimos 10 anos. A sua proximidade no tema e no formato fazem de “Diário Rasgado” e de “Anos Dourados” dois livros irmãos, onde no primeiro se encontram reunidas as BD`s do autor e, no segundo, as suas ilustrações (salvo uma excepção).

Para saberem mais sobre este livro podem ler aqui o meu texto na "Rua de Baixo".

sexta-feira, julho 19, 2013

Balcão Trauma - Lançamento




Depois de "Sexo, Mentiras e Fotocópias", Álvaro está de regresso com "Balcão Trauma" que parece seguir a mesma linha humorística que o seu antecessor, ou seja, prometendo uma série de situações mirabulantes entre um qualquer cliente e um qualquer funcionário, que certamente trarão boas gargalhadas.
 
O lançamento irá decorrer, neste sábado dia 20 de Julho pelas 17h00, na Feira do Livro de Poesia e Banda Desenhada na Guilherme Cossoul de Campolide, Rua Professor Sousa da Câmara, 156, Campolide - Lisboa. A apresentação está a cargo de Geraldes Lino.



Hannibal: Temporada 1


Depois de ter gabado o início de Hannibal aqui, venho agora, após 13 episódios, confirmar que a primeira temporada foi um dos grandes acontecimentos televisivos do ano.

O início da série foca-se muito em nos apresentar o detective Will Graham interpretado por Hugh Dancy que faz um trabalho notável a dar vida a este investigador atormentado que tem o "dom" de conseguir estabelecer facilmente empatia com as pessoas, o que o faz compreender a mente de um serial killer como poucos. O que Graham tem a mais, os psicopatas têm a menos, mas mesmo assim, quando o mesmo mergulha a fundo nas profundezas da psique de um maníaco, isso pode deixar as suas marcas e a sanidade de Graham começa a ser questionada.

Posteriormente, a série volta a sua maior atenção a Hannibal, que começa a estabelecer uma amizade com Will Graham. Sei que todos temos a imagem de Hopkins muito presente na memória quando se trata desta personagem, mas aqui Mads Mikkelsen é mestre e senhor, dando uma nova roupagem à personagem e tornando-a sua. A forma como Fuller a desenvolve no papel e, posteriormente, como Mikkelsen a transporta para o ecrã, rapidamente nos conquistam, só é preciso dar-lhes uma oportunidade.

De resto, como referi anteriormente, toda a estética dos episódios é muito bem orquestrada. Por se tratar de uma série que passa em sinal aberto, Fuller teve de se conter nas doses de sangue, mas nada que se faça sentir, a abordagem mais fria às cenas do crime é muito funcional e deixa a sua marca no espectador. Não resisto à tentação de referir que "Hannibal" é como uma refeição gourmet, preparada com muita atenção e delicadeza, o que me lembra as cenas com os preparativos culinários de Hannibal, os quais resultam sempre em grandes momentos de televisão, e onde aproveito para salientar o fantástico "Sorbet".

Trata-se também de uma série muito imaginativa, vi aqui alguns dos crimes mais horrendos e criativos da história da televisão. Tudo isto juntamente com a relação entre Hannibal e Will Graham, fizeram de "Hannibal"uma das séries mais antecipadas da semana. Todas as quintas estava ansioso para que desse mais um episódio. Já agora aproveito também para referir o quanto bom foi rever Caroline Dhavernas como Dr. Alana Bloom - está tão crescida desde "Wonderfalls" - e Gillian Anderson como Dr. Bedelia Du Maurier.

De resto, tendo por pano de fundo alguns crimes distintos, há sempre uma clara linha narrativa em que a série segue, desenvolvendo muito as repercurssões que o assassino de "Minnesota Shrike" teve em Will. Tal como é referenciado nos livros, este foi um caso que o atormentou particularmente.

A recta final é portentosa, onde vamos assinstindo ao culminar de todo um plano maticuloso de Hannibal que foi sendo contruído a cada episódio.Para todos os fãs desta mitologia o final é extremamente simbólico e, por isso mesmo, ainda mais poderoso.

Uma grande série, que felizmente já tem a segunda temporada confirmada.

terça-feira, julho 16, 2013

segunda-feira, julho 15, 2013

Uma Injecção de Woody Allen II

Woody Allen é um daqueles nomes que quanto mais se conhece, mais se adora. Agora sempre que me dedico a conhecer mais um pouco da sua filmografia os meus planos para ver um filme dele extendem-se em ver mais, como foi o caso este fim-de-semana em que vi três. Um filme de Allen por dia é uma alegria (estou a contar a sexta à noite).

Desde este post já vi o "Take the Money and Run" que é a segunda longa realizada por Allen e trata de uma história hilariante sobre o pior assaltante do mundo, Virgil Starkwell, interpretado, pois claro, por Woody Allen. Aquela cena em que Virgil (caramba até o nome é engraçado) ao assaltar o banco acaba por discutir a sua ortografia com o funcionário é um dos momentos mais icónicos do filme.

De seguida fui ao cinema ver "To Rome With Love", que mesmo estando furos abaixo do anterior "Midnight in Paris" é um filme bastante agradável e que gostei particularmente pela oportunidade de rever Allen na interpretação, que saudades.


Este fim-de-semana dediquei-me então aos seguintes, sobre os quais vou escrever muito breves apontamentos, porque de outra forma acabaria por não falar deles e são filmes que merecem ser espalhados como a boa nova:

Love and Death (1975)

Este é o filme com que Woody Allen encerra uma fase da sua carreira, uma mais ligada ao seu lado comediante. É verdade que o humor é algo que se mantém em quase todos os seus filmes, é parte essencial do seu charme, mas há uma clara distinção entre um Allen pré e pós-Annie Hall. Já o referi aqui, acho que a primeira fase de Allen também é genial, são filmes muito distintos dos futuros "mais sérios", mas que no seu género são do melhor que vi. Dificilmente imagino um filme que encerre melhor esta fase do que "Love and Death" que neste registo é Allen no seu expoente máximo. O filme tem um ritmo de piadas alucinante e, ainda por cima, vai buscar inspiração a alguns clássicos de literatura Russa, como obras de Tolstói e Dostoiévski - aquele diálogo final entre pai e filho sobre as personagens de Dostoiévski é fantástico. Posso estar a ser influenciado por o ter bem presente na memória agora, mas de momento parece-me o melhor filme de Allen pré-Annie Hall, pelo menos em termos de comédias malucas, as chamadas screwball comedies. Também se nota aqui, talvez pela primeira vez, o gosto de Allen pelo cinema de Ingmar Bergman, como se pode ver na sequência final da personagem de Diane Keaton, uma clara homenagem ao filme "Persona". A música, como não podia deixar de ser, tinha de ter uma forte identidade russa e o escolhido para a missão foi: Serguei Prokofiev. Curioso que pensava que "Match Point" era o primeiro filme com aquele teor tão negro de Allen e com uma banda sonora de música clássica em vez do típico Jazz usado pelo realizador. Agora após ter visto "Crimes and Misdemeanors" e este, já confirmei que estava errado nos dois pressupostos.




Sleeper (1973)


Este é o filme anterior a "Love and Death" uma viagem pelo mundo da ficção-científica e o primeiro em que entra Diane Keaton, cuja presença se manteria até "Manhattan". Miles Monroe (Woody Allen) é oriundo de 1973 e foi crio-preservado após complicações no hospital. Para sua grande surpresa vê-se despertado 200 anos no futuro por um grupo de rebeldes cuja missão é destronar o actual regime. Como Miles é o único humano que não está catalogado pode servir como um grande espião para a resitência. É mais um Allen cheio de momentos hilariantes que prima muito pela comédia fisica e também por isso mais reminiscente das comédias mudas - certamente que já quase todos passaram os olhos pela sua figura a imitar um robô. Gostei também particularmente do fim, quando Miles espelha a sua falta de fé no sistema político e na religião, referindo que as únicas coisas em que acredita na vida, são o sexo e a morte. As peripécias são sempre acompanhadas de um bom ritmo Jazz, com o próprio Allen no clarinete.





Manhattan (1979)



Já andava com o olho fisgado neste há muito tempo. Quando se fala de Woody Allen, todos mencionam "Annie Hall" e "Manhattan". Mas também por essa razão quis guardá-lo para ver posteriormente, como algo que guardamos com carinho para ver numa altura especial. Compreendo perfeitamente a paixão que o filme suscita, a bela Manhattan a ser filmada em preto-e-branco e os amores e desamores de Isaac, são Allen no seu melhor e adoro esta sua persona - quase de certeza auto-biográfica - de intelectual hipocondríaco. Allen tem dos melhores diálogos no Cinema, sempre com uma série de referências de valor. Lembro-me do seu primeiro encontro com Mary (Diane Keaton) em que discutem a sobre-valorização de certos autores, uma conversa excelente onde surgem nomes como os de Fitzgerald, Mahler e, claro, Ingmar Bergman. Se Isaac os defende a todos nota-se aqui, novamente, um destaque dado à importância que o autor dá ao cinema de Bergman, um dos realizadores por quem nutre maior admiração. É um filme ao qual é díficil não ficar rendido, Allen escreve muito bem sobre relações humanas e com uma cidade fantástica como pano de fundo. Um dos seus planos mais conhecidos tem de ser o dele ao lado de Keaton sobre a ponte de Brooklyn, após aquela longa e íntima conversa nocturna entre os dois e que foi posteriormente usada para o poster. A introdução ao filme é também uma cena marcante, enquanto visitamos a cidade Isaac tenta escrever o início do seu livro, uma história, que pelo que ele descreve, me parece ser a história de "Manhattan".

sábado, julho 13, 2013

O que ando a ler de BD Norte-Americana actual

Depois de ter falado do que ando a ler no campo dos "Super-Heróis" actualmente, chega a vez de falar de outros géneros (bem há aqui um que ainda entra no campo do Super). Porque há muito mais vida além dos Super-Heróis na indústria norte-americana de comics e que vale a pena conhecer.

Sou um grande apreciador de muitas das histórias editadas do outro lado do oceano, mas normalmente conheço-as posteriormente comprando as compilações, é mais fácil acertar no que vale realmente a pena assim. Desta vez estou a tentar estar mais a par do que se faz na actualidade e talvez consiga ter uma bela série para coleccionar em formato comic.

Como a ficção espelha muitas vezes a realidade, tem-se notado muito em algum material novo o quanto a actual crise económica tem influenciado o trabalho dos autores, sem mencionar um que é todo ele direccionado para nos alertar sobre o assunto, mas já lá vou.





 Occupy Comics


Em 2012 vimos nascer uma nova editora de BD norte-americana intitulada "Black Mask" que foi fundada pelos autores de BD Matt Pizzolo e Steve Niles, e pelo músico dos "Bad Religion" Brett Gurewitz. Esta editora surge da necessidade em criar uma editora que publique comics mais transgressivos e que apoie mais os seus criadores. Um dos seus títulos que nasceu do apoio na plataforma do "Kickstarter" foi esta antologia "Occupy Comics" que será composta por três números. Nesta antologia juntaram-se muitos nomes de referência na indústria da BD, nomeadamente Alan Moore (que assinala um extenso artigo sobre a história da BD), Art Spiegelman, David Lloyd, Ben Templesmith, J. M. DeMatteis, entre tantos outros. 


A antologia é criada por causa do movimento "Occupy Wall Street" e por isso mesmo todos os lucros revertam a favor de movimentos "Occupy".  Para Matt Pizzolo este era um projecto que fazia todo o sentido uma vez que o movimento "Occupy" está associado a uma estética artística, tendo começado com a imagem de uma bailarina em cima do touro de Wall Street com protestantes no fundo. Também o grupo "Anonymous" pegou na máscara de Guy Fawkes popularizada por "V For Vendetta" como imagem de marca. A força da simbologia desta máscara tem-se tornado tão grande que não será certamente estranho vê-la surgir várias vezes na antologia, seja em histórias ou ilustrações. A ilustração de David Lloyd onde a personagem V toureia o touro de Wall Street, foi uma das imagens de marca desta nova antologia, por exemplo, mas saliento também a belíssima ilustração da máscara por David Mack no #2 (ver acima). De momento já saíram dois números e mantenho a minha satisfação e apreço por esta antologia. Há aqui ilustrações de topo e algumas histórias emocionantes (lembro-me daquela sobre o furacão Sandy), bem como artigos de grande qualidade, como já referi um deles é de Alan Moore que como sempre assinala aqui um trabalho hercúleo e soberbo. Os lucros também são todos revertidos para ajudar acções relacionadas com o movimento "Occupy".





East of West






This is the world. It is not the one we wanted, but it is the one we deserved. The Four Horsemen of the Apocalypse roam the Earth, signaling the End Times for humanity, and our best hope for life, lies in Death.

Como não ficar entusiasmado com uma premissa destas? Além do mais tem o nome de Jonathan Hickman no argumento, um autor cada vez mais elogiado, por isso decidi arriscar e seguir a série. Há uma profecia antiga cuja hora parece ter chegado, onde os quatro cavaleiros do Apocalipse irão emergir da terra para consumir o mundo. É esta a cena com que nos deparamos nas primeiras páginas, o "levantar" de Guerra, Peste e Fome. Mas algo está errado, falta um... Parece que Morte tem outros planos e já "acordou" primeiro dirigindo-se neste preciso momento até ao Presidente dos Estados Unidos... para o matar.


Em "East of West" estamos perante um futuro diferente daquele que iremos conhecer, a dada altura o caminho que a América seguiu na guerra civil foi diferente, criando hoje (2064) um país muito distinto e governado por sete nações distintas. O que Hickman nos apresenta são várias peças de um puzzle que vamos juntando à medida que avançamos na narrativa. Parece que os cavaleiros do Apocalipse já foram humanos em tempos e que a Morte busca a sua vingança pelo que lhe fizeram a si e à sua familia. Ainda falta descobrir muita coisa e nesse sentido estes textos são mesmo mais apresentações do que apreciações.

De qualquer das formas com três números já disponíveis, "East of West" está a ser bastante entusiasmante e divertido. Nick Dragotta está a cargo do desenho e Frabk Martin da cor, uma parceria que resulta muito bem. Já todos vimos muita coisa sobre os Cavaleiros, mas nunca neste estilo e registo, "East of West" é um western futurista com uma mitologia que promete ser forte. Vale a pena espreitar.

Este livro é da "Image Comics" e é de salientar a qualidade do papel, aqui sim até faz sentido o preço ter chegado aos 3,5 dólares por comic.





Polarity




Esta mini-série de quatro números, editada pelo "BOOM Comics" chamou-me a atenção por ter Jorge Coelho no desenho (entrevista ao autor aqui). Max Bemis teve aqui uma ideia bem interessante e que mostra que há ainda novas formas de explorar o mito do Super-Herói. Imaginem alguém que sofre de bipolaridade descobrir que afinal tem super-poderes quando deixa de tomar os seus medicamentos? A ideia que tenho - e vem muito do "Six Feet Under" - é que mesmo sob medicação a vida de alguém que sofre desta condição é muito complicada, sentindo-se muitas vezes amarrado psicologicamente, culpa dos medicamentos que para pararem determinados aspectos da nossa psique, param outros também. Este libertar mental para o protagonista assume ainda proporções maiores aqui. No segundo número, contudo, já achei que o autor enveredou por caminhos mais comuns e que a psique do protagonista podia ter sido mais bem explorada, mas a um título do fim, parece-me uma aposta divertida e com uns desenhos fantásticos de Coelho que só por isso já vale a pena.






Jupiter's Legacy



Gosto do que li de Mark Millar e já falei dos seus "Ultimates" por aqui, uma abordagem moderna e cativante aos "Avengers". Contudo, aqui o grande factor que me levou a comprar "Jupiter's Legacy" prende-se com o desenhador, Frank Quitely que é de certa forma um herdeiro de Moebius, logo, um dos grandes desenhadores de BD do mundo. O gosto em querer ter algo dele em comic foi o factor decisivo. Há semelhança de "East of West" também aqui temos um desvio na História de um país. Durante a grande depressão Americana um grupo de Americanos preocupados partem em busca de uma ilha mística, encontrando-a (alguém espirrou "Lost"?). Millar não perde tempo a descrever-nos a mitologia por detrás desta ilha (nem me parece que o fará), usando-a apenas como um dispositivo narrativo (estou a tentar traduzir plot device) a fim de justificar porque este grupo de exploradores regressa de lá com super-poderes para salvar o sonho americano.

A partir desta curta intro damos um salto para o futuro. Estes heróis fazem parte integrante da actualidade Americana, tendo-a salvo de tempos negros e continuando o seu trabalho em defesa do sonho. Mais velhos, muitos deles têm agora descendência, uma descendência que por ter crescido neste meio e com super-poderes, parece ter-se tornado arrogante, desligada e irresponsável. Pelo menos é assim que são apresentados os filhos de Utopian - o líder da expedição.

Em tempos de nova crise económica, alguns heróis questionam até onde devem ajudar os governos. Utopian tem o pensamento tradicionalista do Super-Herói, ou seja, que está aqui para ajudar o povo e não para se intrometer em questões governamentais. Dito de uma forma geral, é um facto que no Universo dos Super-Heróis estes basicamente contribuem apenas para o mundo não ficar pior salvando-o da destruição. Mas questões como o combate à fome e às doenças, a corrupção, entre outros assuntos são trabalho para o homem comum. Neste universo Millar parece que irá enveredar por este caminho como o mostra no choque de opiniões distintas entre Utopian e o seu irmão, o qual acredita que o papel dos "Super-Heróis" deve ir mais além e por isso mesmo preparou uma série de tácticas para combater a actual crise económica. Contra a opinião de Utopian prepara-se para a apresentar ao governo dos Estados Unidos.

É precisamente esta linha de argumento que mais me interessou em "Jupiter's Legacy" ver até onde o papel de alguém com poderes pode ir e o quão perigoso também pode ser. Isto lembra-me que ando a ler "Marshall Law" e é fabuloso, mas sobre este falarei posteriormente.





The Crow: Curare






Após o regresso de James O’Barr ao título que lhe deu sucesso, “The Crow”, em “Skinning the Wolves”, parece que o autor lhe tomou o gosto voltando assim com mais uma mini-série de três números para a IDW sobre mais uma história de vingança dentro deste mundo. Como gosto do estilo negro de O’Barr e da mitologia do Corvo fiquei  curioso quando soube do seu regresso e segui-o em “Skinning the Wolves”. Trata-se de uma história bastante curta, sobre um injustiçado (foram tantos) que foi assassinado num campo de concentração durante a segunda guerra. Em três números dificilmente teriámos uma história que desse para grandes desenvolvimentos, ainda assim este curto conto negro de tragédia tinha um número pormenores suficientes para o fazerem interessante além do seu maior trunfo que é a vingança em si. Desta vez o regresso neste “Curare” volta a ser de três números, ou seja, mais uma curta - mas esperemos que intensa – história de tragédia e vingança.

A primeira coisa que salta à vista é que desta vez O’Barr usou uma criança para ser trazida de volta pelo Corvo e que talvez por causa disso mesmo precise de ajuda na sua missão, apelando ao detective encarregue do seu caso, Joe Salk - cuja vida pessoal está pelas ruas da amargura devido à sua profissão. Gostei do tom negro da história onde os desenhos de Antoine Dodé funcionam muito bem a transmitir uma atmosfera melancólica e perturbada. Novamente a violência é um ponto central destas histórias e não é nada descurada, além do próprio crime principal, a história que o detective conta, durante o pequeno-almoço, à sua mulher é, bastante intensa e é um bom exemplo das razões porque o seu casamento entrou numa espiral de descendência. Para quem é fã do género acho que tem aqui uma boa opção a experimentar. Por enquanto ainda só saiu um número.









Lazarus


Para terminar falo de mais uma aventura na "Image Comics" de Greg Rucka (argumento) e Michael Lark (desenho). Esta é mais uma deambulação por um futuro distópico onde Rucka - inspirado pela crise actual - decidiu tornar o 1% de riqueza, em 0,00001%, ou seja, estamos perante um mundo ainda mais severo onde os mantimentos são poder e esse poder pertence apenas a um mísero número de familia. Isto é bem notório logo nas primeiras páginas em que um grupo de pessoas arromba uma casa para roubar apenas comida. 

Cada familia escolhe um dos seus membros para ser o seu protector, para ser o seu "Lazarus", alguém que recebe toda a potencialidade da tecnologia de ponta para se tornar numa máquina de guerra. A nossa protagonista, chamada Forever, é o Lazarus da familia Carlyle, que há semelhança do Lazarus biblico, também "ressuscita" após um ataque dos "bandidos" mencionados acima. Forever cumpre na perfeição o seu papel, mas claramente o que isso representa está cada vez mais a afectá-la. Ela não nasceu para matar esfomeados e perseguir inocentes e é uma clara questão de tempo até Forever se revoltar contra a sua família.

Gostei do estilo de Lark, da escrita de Rucka e apesar de o tema não ser nada de novo, gostei bastante da forma como estão a desenvolver nesta história. Ainda só temos um #1, mas é um #1 promissor. No final temos um texto de Rucka onde nos fala sobre o processo de criação de "Lazarus" onde tem algumas histórias interessantes como aquele em que recorreu à ajuda do grande Warren Ellis para lidar com as questões de ficção-científica. Vale a pena espreitar.