quarta-feira, outubro 30, 2013

Asterios Polyp



Existem livros que nos marcam tanto que com receio de não lhes fazer justiça acabamos por não escrever sobre eles ("From Hell" ainda te devo um texto). Não pode ser, se são estes os livros que consideramos melhores, é obrigatório que falemos deles, nem que seja a partir de uma simples menção.



"Asterios Polyp" é um portento da banda desenhada, um livro que explora as potencialidades desta linguagem a vários níveis tornando-se, além de um belíssimo livro, um tratado em como fazer BD.


David Mazzucchelli é nome que estará sempre associado ao universo dos super-heróis uma vez que desenhou alguns dos grandes clássicos do género, tal como "Daredevil: Born Again" e "Batman: Year One", ambos com argumento de Frank Miller. Fora deste género é conhecido por ser um dos artistas que adaptou o livro de Paul auster, "City of Glass", à BD. Em 2009, passados 8 anos sem publicar, regressou com um trabalho original e 100% da sua autoria, este "Asterios Polyp".

Mas por que é que este livro é assim tão bom? O que o faz tão especial?






Quando se fala deste livro um dos aspectos que é sempre mencionado como sendo uma das suas maiores virtudes é a forma como a sua história nos é contada. De qualquer das formas considero o argumento de Mazzucchelli fantástico e digno de nota, conseguindo ter tanto de racional como de emotivo. Aliás a dualidade é "o" tema de "Asterios Polyp", marcando presença em toda a narrativa. Uma das dualidades desenvolvidas pelo autor é a eterna questão do destino e do livre arbítrio, uma discussão que ultimamente tenho salientado muito no blog, por se tratar de um tema do qual sou particular entusiasta.

Esta é a história da vida de Asterios Polyp, um arquitecto de grande prestigio académico, pois apesar de ter ganho vários prémios pelos seus projectos, nunca nenhum deles foi construído. A sua história é-nos narrada pelo seu irmão gémeo, aquele que não sobreviveu ao nascimento, que surge como uma presença constante ao lado de Asterios e a qual não passa totalmente despercebida ao protagonista que vive obcecado com o facto de ter sido ele a sobreviver e não o irmão. Se ambos tivessem nascido, será que as suas vidas seriam parecidas? Os gémeos muitas vezes, mesmo quando separados, levam vidas bastante similares (novamente o DNA a mostrar a sua relevância).




Se a dualidade é a espinha dorsal do argumento, faz todo o sentido que a história seja contada alternando entre dois períodos. De um lado vamos conhecendo o passado de Asterios, na altura em que conheceu a sua mulher, Hana, mostrando como duas pessoas tão diferentes se podem encontrar e mudar o mundo uma da outra. Do outro lado temos o seu presente, encontrando-o de novo solteiro e sozinho. Nesta fase Asterios já não é o mesmo homem e isso é bem vincado logo ao início quando o vemos assistir apaticamente ao seu prédio a arder. Um momento que ele aproveita para fugir da sua vida, escondendo-se numa outra realidade, naquilo que poderá ser um novo começo.

Toda esta história é pautada por uma forte presença da cultura grega . Desde a "Odisseia" até à lenda de "Orfeu". Imagino que ajude conhecer a história trágica de Orfeu e Euridice para se sentir na sua plenitude a cena que decorre no teatro quando Asterios personifica - nos seus sonhos - esta figura trágica da mitologia. Por tocar em tantos temas que adoro, quase parece que "Asterios Polyp" foi escrito especialmente para mim, um sentimento falso mas que o quero destacar em tom de elogio.





Em termos visuais "Asterios Polyp" é esplendoroso, Mazzucchelli volta-nos a recordar porque o seu nome fará sempre parte da História da BD. A forma gráfica como ele narra esta história é um poço de ideias para fazer BD, desde o ritmo da história, à passagem de vinheta para vinheta, tudo isso tem um grau de dedicação que impressiona e muito. Também os desenhos assumem um papel muito importante na narração, por vezes o autor desenha as personagens consoante a percepção que cada uma tem da realidade, por exemplo, Asterios é por vezes desenhado com formas geométricas azuis, porque é racional e frio. Já a sua Hana tem um traço mais livre e vermelho, a evocar as artes e as suas emoções. Contudo, a nossa percepção do mundo não é sempre a mesma, ao longo da nossa vida nós também mudamos e essa mudança é causada por factores externos, nomeadamente por outras pessoas. Quando Asterios conhece Hana pela primeira vez, assistimos nas personagens a uma mistura entre o traço e cor de ambas, um dos muitos grandes momentos proporcionados por esta leitura.






É preciso também referir que cada personagem possui um tipo de letra distinto das outras, uma vez que todos falamos de forma diferente. Aliás todo o design do livro é imaculado, um portento tanto em termos narrativos como visuais. Como já deu para perceber são vários os pormenores que fazem parte deste livro, mas essa quantidade de informação nunca cansa o leitor, funcionando sempre de uma forma maravilhosa.

Não tenho qualquer dúvida que estamos perante um dos livros mais interessantes feitos na actualidade, um que entrou logo na minha lista de predilectos. Em adição ainda tem a vantagem de servir como manual de estudo para quem quer fazer BD.

Aproveito ainda para referir que em 2010 venceu o primeiro prémio de "Los Angeles Times Book Prize Graphic Novel", três Eisner e três Harvey.





3 comentários:

Mauro ZiBex disse...

Excelente!
Obrigado pela espectacular sugestão, só de ler o teu texto quer ler este livro depressa.

Fiquei impressionado com uma série de pormenores que referes e que se vêem bem nas imagens que escolheste para ilustrar o post.

Tanta BD para ler... (no bom sentido)

Loot disse...

Este é dos imperdíveis :)

Abraço

MMMNNNRRRG disse...

ok! isto também é bom...
mas entre pizzas e trash japonoca????