sexta-feira, fevereiro 01, 2008

The Fountain

Quando pensamos no nome de Darren Aronofsky, a primeira coisa que nos vem à mente é cinema e não banda desenhada. Cedo se tornou um nome de referência da sétima arte e com filmes como “Pi” e “Requiem for a Dream” foi considerado por muitos (eu incluído) um dos realizadores mais promissores dos últimos tempos.
Mesmo antes de iniciar o seu mais recente projecto cinematográfico, ou melhor, a sua mais recente paixão, “The Fountain”, que Aronofsky sabia que teria de atravessar várias dificuldades até conseguir terminá-lo. Juntamente com o seu produtor tentou desde o princípio assegurar os direitos desta estória para criar também uma novela gráfica e quando o filme foi efectivamente cancelado, devido a vários problemas, decidiu que tinha chegado a altura de iniciar a criação deste livro.
Nas suas próprias palavras sempre teve uma paixão pelo mundo das novelas gráficas, em grande parte porque é um mundo carregado de estórias fora do normal. Karen Berger editora da Vertigo adorou a estória e aceitou editar o projecto aconselhando Kent Williams para trabalhar no desenho.
Mas Aronofsky é um apaixonado pelo seu trabalho e é essa paixão que faz com que as suas obras sejam tão boas e carregadas de sentimento. Certa noite acordou e decidiu reescrever o guião de cinema de “The Fountain”, de forma a conseguir, com um menor orçamento, terminar este projecto. E foi assim que quase ao mesmo tempo uma banda desenhada e um filme nasceram.
Depois desta rápida explicação é claro que este livro não é uma adaptação do filme, ou vice-versa. Segundo o autor o livro e o filme são diferentes interpretações da mesma estória e aqueles que o lerem terão uma visão mais completa da ideia original do filme.
“The Fountain” é uma viagem pelo tempo e pelo espaço, que nos transporta através de três períodos distintos, o passado, o presente e o futuro. Uma odisseia de 1000 anos sobre a procura incessante da vida e do amor eterno, sobre o sofrimento inerente à perda desse mesmo amor e terminando num estado de plenitude atingido através da compreensão e da aceitação da vida como um ciclo, de que a morte implica vida e de que iremos viver para sempre.
No passado somos transportados para o ano de 1535, onde o Capitão de Espanha Tomas Verde se encontra algures no “Novo Mundo” em busca de um templo Maia que esconde o maior de todos os segredos, a “Árvore da Vida”. Graças a esta descoberta ele e a sua Rainha poderão finalmente ficar juntos para sempre, pois quem comer desta árvore viverá eternamente. Mas será que Tomas compreende verdadeiramente o sentido destas palavras?
No presente encontramo-nos no ano de 2005. Tom é um cientista que se encontrava anteriormente a pesquisar sobre o rejuvenescimento dos tecidos, porém desde o dia em que a sua mulher Izzie, foi diagnosticada com um tumor cerebral, que tem passado todos os dias (e noites) a trabalhar numa cura para o cancro. Absorvido na sua pesquisa para salvar a mulher que ama, acaba por se afastar e passar cada vez menos tempo justamente com a pessoa que pretende salvar.
Por outro lado Izzie encontra-se a escrever um livro sobre uma estória passada no século XVI onde um Conquistador de nome Tomas Verde se encontra à procura de um templo Maia que esconde o maior de todos os segredos, a “Árvore da Vida”… Bem penso que já perceberam a ideia. O último capítulo do livro é deixado em branco, segundo ela tem de ser Tom a terminar “esta” estória.
O terceiro período, desenrola-se algures em um futuro distante, mais especificamente no ano de 2463. Tom encontra-se a viajar dentro de uma bolha gigante e com ele encontra-se a “Árvore da Vida”, graças à qual tem conseguido sobreviver durante todos estes anos. Mas esta está a morrer e Tom só conhece uma maneira de a salvar, encontrando Xibalba.
Xibalba é uma nébula “embrulhada” à volta de uma estrela a morrer, o seu nome foi dado pela civilização Maia. Estes acreditavam que era o local para onde as almas mortas iam para poderem renascer. Através da morte de uma estrela Tom acredita que conseguirá salvar a árvore e automaticamente salvar-se a ele e a Izzie.
Darren Aronofsky prova que além de ser um cineasta exemplar é também um excelente contador de estórias em quadradinhos e que poderia ter enveredado com igual distinção por uma carreira nesta área. Esperemos que a partir de agora nos continue a brindar com grandes obras tanto cinematográficas como de banda desenhada.
A imagem assume sempre uma grande importância quando falamos de banda desenhada e Karen Berger teve um grande golpe de visão ao aconselhar o nome de Kent Williams. Depois de ter lido o livro não imagino, nem quero imaginar outros desenhos além destes. Cada período da estória apela a situações e sentimentos diferentes e Williams consegue em perfeita sintonia alterar de forma sublime o desenho e a cor entre esses mesmos períodos, criando a atmosfera perfeita para podermos sentir esta estória em toda a sua glória.
Sim, porque a palavra-chave aqui é sentir. Mais do que uma bela estória sobre o amor e a vida, “The Fountain” é uma experiência sensorial avassaladora que independentemente de agradar ou não, certamente não deixará ninguém indiferente.
A todos os que tiverem coragem aconselho a lerem este livro ao som da banda sonora do filme, composta por Clint Mansell, uma experiência no mínimo explosiva.


Publicado originalmente em Rua de Baixo (Maio de 2007) por José Gabriel Martins (Loot)

15 comentários:

Ângela disse...

Por acaso comprei o dvd do the fountain esta semana, na fnac. Até foi baratinho.

Beijinho *

_Loot_ disse...

O filme também é brilhante e sim está bastante barato, não gosto muito é da capa :P

bjs

Sam disse...

A graphic novel parece ter muito bom aspecto, adoraria "pôr-lhe as mãos em cima".

Quanto ao filme, um dos melhores de 2007.

Cumps. cinéfilos

_Loot_ disse...

Se gostaste do filme de certeza que vais gostar da BD e sim tem mesmo muito bom aspecto ;)

Abraço

Gonçalo Trindade disse...

A BD é óptima, tal como o filme. É sem dúvida, e tal como diz o texto, uma interpretação da história algo diferente da do filme. Creio que é de leitura obrigatória para os fãs do filme... e digo o mesmo em relação aos fãs de comic. É uma BD espectacular.

O Aronofsky também fez uma BD do primeiro filme dele: Pi. Mas é raríssima, hoje em dia... nunca a encontrei em lado nenhum...

_Loot_ disse...

Do Pi não sabia, agora fiquei com vontade de ler isso, mas se é assim tão rara estamos tramados, vou procurar isso, obrigado.

Abraço

DC disse...

A saga para o Aronofsky fazer o filme não é tão simples como a pintas. Foi muito mais dificil e muito mais demorada. Faltam-te alguns factos.
O Aronofsky escreveu o argumento e tinha o Brad Pitt, Cate Blanchet e outros para o elenco. O Brad Pitt começou com exigências a dizer que não queria o filme assim, que devia ser assado e acabou por sair do elenco. A Cate Blanchet se não me engano ficou grávida na altura ou meteu-se noutro projecto, já não me recordo bem. Os estúdios a uma dada altura desistiram do projecto e chegaram a vender cenários que já estavam feitos na fase de produção para pagar as contas até então.
Não conseguindo ninguém interessado em continuar a financiar, decidiu fazer a BD.
Mais tarde o projecto voltou a arrancar mas com um orçamento muito mais reduzido que o inicial e o Aronofsky teve que alterar muita coisa para, com o orçamento dado, conseguir fazer o filme.
Isto é o que me consigui lembrar. Na Wikipédia e IMDB deves encontrar muita mais informação já que não tenho bem a certeza de algumas coisas que se passaram.

DC disse...

Já agora, a quanto é que apanharam o DVD? Eu só consigo encontrar a banda sonora na Fnac mas está a um preço que é um roubo: 21€.

_Loot_ disse...

DC, obrigado pelas informações, mas eu não pretendi pintar nenhuma saga. Nunca tive intenção de explicar o que aconteceu durante a produção do filme, uma vez que a minha única intenção era falar sobre a estória da BD. Daí na pequena introdução eu apenas referir que houve dificuldades, mas nunca mencionei quais.

Se te estás a referir à frase em que digo "Certa noite acordou e decidiu reescrever o guião de cinema de “The Fountain”, de forma a conseguir, com um menor orçamento, terminar este projecto" ou ao facto de quando ele teve a ideia para escrever a BD. Posso dizer-te que se bem me recordo li isso tudo no próprio livro de The Foutain, que me parece uma melhor referência que a wikipédia ou o imdb, uma vez que foi escrito pelo autor.

Agora claro que houve muitas complicações algumas das que mencionas já conhecia, Brad Pitt também acabou por sair e envolver-se no Troia (se não estou em erro).
Mas penso que não escrevi nada falso e só isso me preocuparia, não a falta de informação sobre o filme quando se trata de um texto sobre a BD.

Mesmo assim agradeço qualquer correcção e se de facto algo está incorrecto espero que me avisem.

Quanto ao filme encontras pelo menos a 10 euros, agora talvez até a menos, é pena é a capa não ser grande coisa.

Cumprimentos

_Loot_ disse...

Alterei o português de um parágrafo para ficar mais claro que apenas quero dizer que Aranofsky atravessou vários problemas no decorrer do filme. Mantenho no entanto a ideia de que a alteração do guião para se fazer um filme com um menor orçamento partiu dele, pois ou muito me engano ou foi isso mesmo que aconteceu.

Podias ter mencionado que eras o SnakeCharmer ;)

DC disse...

Hehe Esqueço-me que o meu nick no blogger é diferente da CC. Já agora, como é que descobriste?
Eu li o texto um pouco a correr por isso que fiquei com a ideia que estavas a afirmar que era assimqeu se tinha passado. Não li o livro (mandei vir o Absolute Sandman por isso tenho que cortar em tudo para o pagar lol) mas na altura fiquei tão fascinado como filme que procurei imensas coisas na net sobre o filme e deparei-me com isto tudo.

_Loot_ disse...

Fui ver o teu blog e percebi a ligação à central comics, e como estava a ver tópicos no fórum vi o link para o teu blog no teu nick.

Se gostaste do filme (e já percebi que sim) tens de ler o livro também vale muito a pena.
Mas compraste Absolute Sandman, por isso ficaste muito bem servido é das minhas sagas favoritas de BD.
Ainda hoje tenho saudades do Morpheus.

Anónimo disse...

Olá a todos...mal o DVD saiu aproveitei e mesma no fnac comprei a novale gráfica e o DVD....uma vez que n sou de lisboa para ter visto o filme no cinema...tornou-se a minha história favorita top dos tops....uma experiencia sensorial avassaladora....
Lindo

Abraços

Anónimo disse...

quando vi essa obra de arte no cinema foi como ter tomado chá de ayahausca em plena sessao xamanica...nunca me identifiquei tanto com uma historia como essa...e cá estou na Espanha recordando intuitivamente de algo semelhante...abraços a todos

Loot disse...

É realmente uma experiência transcendental.

Obrigado pela lembrança.

Abraço