quinta-feira, outubro 18, 2012

A Trilogia Nikopol


Conheci o trabalho de Enki Bilal com a obra, " A Tetralogia do Monstro". Quatro volumes que exploram um futuro distópico a partir de três personagens e que é uma das viagens mais alucinantes que tive em Banda Desenhada.


Neste "A Trilogia Nikopol" - editado anteriormente e que demorou uma década a finalizar - Bilal já mostrava o seu fascínio pelo género da ficção científica, mais especificamente pela exploração de sociedades em declínio, num futuro não tão distante assim. Conflitos provenientes da religião e da política - que iriam ser um tema recorrente no trabalho do autor jugoslavo (ou sérvio após a independência) - marcam aqui uma forte presença ao longo de toda a história. O pano de fundo em que esta decorre é sempre pautado por um terror fascista e terrorista; e onde a separação entre as classes do povo é-nos apresentada por um grau de extremismo atroz.

A trilogia é composta pelos três volumes: "A Feira dos Imortais", "A Mulher Armadilha" e "Frio Equador".

Bilal é um artista ímpar dentro da banda desenhada, penso que a maioria o reconhece como um dos grandes desenhadores dos nossos tempos. Traços de grande qualidade e com um cunho pessoal fortíssimo. Bilal é inconfundível.

Em termos de argumento, o autor não tem qualquer tipo de amarras, com ele tudo é possível. Este caos poderá não agradar a muitos, mas é um dos factores, a par com o desenho, que tornam o autor tão especial para mim. Não há regras, nem géneros a respeitar. Bilal não pensa nisso, apenas está preocupado em contar a sua história, em mostrar-nos a sua visão. "A Trilogia Nikopol" tem tanto de ficção científica, como de fantasia.


Ao longo da narrativa também vai incluindo páginas de jornais como complemento da história e aqui é de salientar o suplemento extra em "A Mulher Armadilha" (confirmem a sua existência antes de o comprar) onde temos uma história escrita no futuro e editada no passado pelo jornal "Libération!".

No terceiro tomo, "Frio Equador" uma das personagens, um realizador, encontra-se a filmar a história do capítulo anterior. Bilal usa isso para ir incluindo excertos de película ao longo das páginas, enquanto conta a conclusão desta aventura. Isto culmina numa cena final que é nada menos do que memorável.

O Cinema a começar a surgir na obra de Bilal, ele que posteriormente envergaria por esta arte também, ainda que sem obter o mesmo sucesso e reconhecimento que na BD. A título de curiosidade em 2004 Bilal realizou "Immortel" a adaptação cinematográfica desta trilogia.


"A imortalidade é uma forma de ditadura da vida sobre a morte. Sendo ditador e vivo, só me resta tornar-me imortal. E hei-de sê-lo! Nem que morra para isso!» J.F. Choublanc (Escritos diversos)"

Esta história tem como personagem central, Nikopol, que em 1993 havia sido enviado para o espaço em crio-hibernação, condenado a uma sentença de 20 anos. Acabariam por passar 30 até um acidente ter solto a cápsula em que se encontrava, devolvendo-lhe a liberdade. Perdido num tempo que não é o seu acaba por travar conhecimento com o deus Egípcio Horus. A partir daqui Horus usará o corpo de Nikopol para colocar em prática o seu plano de vingança contra os restantes deuses . Tudo isto a decorrer numa Paris governada por um forte regima fascista liderado por J.F. Choublanc.


No capítulo de "A Mulher Armadilha", uma outra personagem de extrema relevância é adicionada à trama. Jill Bioskop, uma estranha mulher de cabelo azul e tez pálida que será justamente a jornalista responsável pela notícia a ser publicada no passado pelo "Libération!".
 
"Frio Equador" acabaria por ser de todos os capítulos aquele que deixaria a maior marca na história. Nesta aventura Bilal inventa um desporto híbrido chamado "Chess Boxing" onde os participantes têm de estar em excelentes condições físicas e mentais, alternando entre um combate de boxe e uma partida de Xadrez. A ideia é fantástica, mas o mais bizarro é que se tornou realidade. Em 2003,  Iepe Rubingh inspirado pela obra de Bilal criou as regras para o "Chess Boxing", desporto mais popular na Alemanha e Inglaterra. Quem sabe um dia se não chega até cá.

O preço do livro é um pouco intimidante, cerca de 34€. Mas, pensando que se trata da junção de três volumes, onde cada um fica a menos de 12€, não é assim tão escandaloso. Porém, como muitas vezes parece que custa mais quando se dá o dinheiro todo de uma vez, fica a minha sugestão em adquirir este belo objecto na "hora h" da feira do livro, onde fica a metade do preço, ou em segunda mão se preferirem. Eu tenho comprado os livros de Bilal todos desta forma, o ponto negativo é que não os posso ler mal são editados, tenho de esperar um ano e meio para entrarem na tal promoção. Este ano, por exemplo, comprei finalmente o "AnimalZ".

Quando passarem pelo livro, espreitem, vejam o aspecto, porque Bilal, vale a pena.

4 comentários:

MauroZiBex disse...

Eu acho que tinha o primeiro tomo, que me ofereceram quando era adolescente. Sem saber bem como, o livro desapareceu.. não sei se foi oferecido sem querer no meio de outras BDs como Yakari, mas o que é certo é que nunca mais lhe pus a vista em cima e acabei por me esquecer da história. Atualmente tenho apenas "Frio Equador", mas tenho de adquirir os dois primeiros, pois não faz sentido começar a mais de metade e ir até ao fim.

Na Feira do livro tens conseguido os livros dele a metade do preço?

Abraços,

Loot disse...

A feira do livro nos últimos anos tem tido a chamada "hora h" onde de segunda a quinta, das 22 às 23h algumas editoras têm os livros com 50% de desconto.

A Leya tem todos os seus livros ao abrigo desta promoção. Excepto os que foram editados há menos de um ano e meio, faz sentido que as novidades não entrem.

Como a Asa pertence à Leya tens montes de BD a 50% :D
Temos de combinar e ir lá para o ano. Eu ando a completar o meu Bouncer assim e tenho também o mais recente do Bilal para comprar :D

André Azevedo disse...

Loot,

Desta trilogia comecei pelo meio, A Mulher Armadilha, há já muitos anos e na altura não percebi nada da história, era muito novo.
Tenho de reler.
Conheces o filme do Bilal Bunker Palace Hotel de 89?

Loot disse...

Ainda por cima começaste por esse, é que o do meio é o mais confuso, a Jill anda numa maré de consumo de drogas e a realidade e ilusão misturam-se na história. Não é o ideal para miúdos ;)

Nunca vi um filme do Bilal, soube que ele tinha carreira na área com o Immortel, que na altura não me puxou a ver. Mas vou dar atenção a isso e já ouvi falar do Bunker Palace.

De autores de BD e realizadores iniciei-me à pouco foi com o Jodorowsky, que é muito bom :)

Abraço