quarta-feira, setembro 05, 2012

Bush no Coliseu dos Recreios (02-09-12)

Ah o saudosismo musical, tema muito abordado hoje em dia, uma vez que de momento os regressos das bandas estão para os concertos como as adaptações de BD para o cinema. Para uns há coisas que já passaram, que tiveram a sua altura e hoje em dia não fazem sentido a não ser para estimular aquela zona do cérebro onde se encontra a memória (e que bem sabe por vezes), aqui o caminho, portanto, é o de seguir para à frente. Isto tem o seu quê de verdade, há músicas que envelheceram mal, são fruto de um tempo e fora dele não sobrevivem, no entanto, há músicos que conseguem quebrar essa barreira e o trabalho deles é além de brilhante, intemporal e por isso ainda hoje se ouvem os Pink Floyd e os The Beatles entre tantos outros.

Mas uma coisa é em álbum e outra é ao vivo, coloca-se a questão se as coisas funcionam? Pessoalmente sim, a experiência é algo que se faz notar e quem tem muitos anos disto sabe o que faz, não é à toa que alguns dos melhores concertos que vi este ano foram os de Bruce Springsteen & The E Street Band, dos The Flaming Lips e dos Radiohead, apesar destes últimos serem mais recentes. OK é verdade que nenhum destes é um "regresso" todos se mantêm mais ou menos no activo e continuam com a pedalada toda, mas acima de tudo são todos grandes músicos e no caso dos Radiohead ainda hoje lançam alguns dos álbuns mais interessantes do mercado mesmo que já não gozem da popularidade dos tempos do "OK Computer" e do "Kid A". E não falem no Peter Gabriel ou nos Dead Can Dance que ainda choro esses concertos por os ter falhado.

Também não sou daqueles saudosistas que acha que antigamente é que era, continuam a surgir bandas extraordinárias todos os anos e para não sair deste, posso acrescentar aos concertos acima, os de Jack White que falei ainda ontem e o de Beach House cuja atmosfera criada por este duo é de uma beleza emocionalmente esmagadora. No fundo música é música e o resto é conversa.

Nisto os Bush lançam um novo álbum e passam pelo coliseu no dia 2 de Setembro. Porque há dois tipos de regressos, com ou sem material novo. Este "The Sea of Memories" o 5º de originais da banda é melhor do que esperava, foi crescendo e ganhando o seu espaço, não é do melhor que a banda já fez, acho que ninguém contava com isso, mas não deixa de ser bom. Esta é uma das bandas que mais ouvi na adolescência e ainda hoje revisito com frequência o "Sixteen Stone", o primeiro e que quanto a mim é um dos melhores discos do género dos anos 90. Comecei a partir deste regresso a revisitar os restantes álbuns com o bichinho de os ver ao vivo a crescer cada vez mais, porque Bush, goste-se ou não dos álbuns, tem, indiscutivelmente, grandes canções rock que têm tudo para funcionar ao vivo, logo não lhes é muito complicado criar uma set list poderosa.

Claro que depois surgem concertos mais cedo, o dinheiro gasta-se, fazem-se planos para viagens no futuro e é preciso amealhar, com isto Bush foi caindo no esquecimento. Só que ver Jack White acordou o monstro adormecido dos concertos e no dia seguinte correu-se para comprar Ornatos Violeta, não deixar passar a nova data como aconteceu com as anteriores, e também Bush. Porque por muito irresponsável que nos parecesse naquele momento era certo que íamos ficar arrependidos se deixássemos passar esta oportunidade. Claro que ir ver com a namorada um concerto do "homem da sua vida" pode ser estranho, o que me lembra que um amigo disse uma vez que "a música é o maior chicks magnet do mundo" e... é por aí. Neste caso Gavin Rossdale já nasceu com vantagens genéticas no campo, por isso até devia ter sido proibido de ter uma banda porque juntar a beleza natural à força da música é extremamente injusto para a concorrência.


Perto das 22h os Bush surgem no palco, da guitarra de Rossdale começa a sair o fortíssimo Riff de "Machine Head" e a acompanhá-lo um jogo de luzes verdes, quanto a mim esta é uma das melhores canções da banda. Não vejo melhor abertura para isto, tirou logo as dúvidas, se alguém as tinha, de que isto ia ser memorável. Durante a música reparo que estes Bush não são os mesmo que eu conhecia, Rossdale é inconfundível e o baterista, Robin Goodridge,  parece-me o mesmo, apenas mais velho e de cabelo cortado, mas os outros dois certamente não são os membros fundadores, Nigel Pulsford e Dave Parsons. Após uma curta pesquisa em casa já sei os nomes dos dois substitutos Corey Britz no baixo e Chris Traynor na guitarra, ele que deu um grande espectáculo e que tem uma grande química com o vocalista (afinal já trabalham juntos desde 2002).

Esta é a digressão do "The Sea of Memories" por isso seria certamente um dos álbuns mais focados, com cinco canções na set list, mesmo assim o primeiro acabou por ganhar com mais uma e ainda bem. A inserção das novas canções foi feita com cuidado sempre alternando entre elas e clássicos antigos, assim nunca havia perigo de o concerto morrer. Por exemplo, depois da abertura tocam a recente "All My Life" para logo de seguida tirarem mais um coelho da cartola com "The Chemical Between Us", era claro que isto nunca ia falhar com esta receita. Já agora esta "The Chemical Between Us" é uma grande canção que talvez na altura não lhe tenha dado o devido valor, bem como ao "The Sciense of Things" onde os Bush procuraram uma nova sonoridade e prova disso é esta poderosa canção que mantendo os riffs característicos da banda mas incorporando elementos da electrónica afastando-se assim dos meandros do grunge que tantas comparações aos Nirvana lhe valeram.


Mas, voltando às novas, acho que estas canções até foram muito bem recebidas, como a seguinte "The Sound of Winter" e mais à frente a "Stand Up" que foram dois grandes momentos. Depois do último single, Rossdale afirma que vai tocar uma nova canção e o tom irónico percebe-se logo, vem aí depois do último, o primeiro single que a banda lançou, o clássico "Everything Zen". Depois é tempo de visitar "Razorblade Suitcase" com "Swallowed", caramba a canção envelheceu melhor do que pensava, grande coro do público, grande química entre nós e eles, onde a alegria era visível tanto dentro do palco como fora e ainda vamos a meio. Após a nova "The Heart of The Matter" que volta a reforçar a ideia de que são muitos os que conhecem as letras do novo álbum, vem "Prizefighter" dedicada a Cristiano Ronaldo e que foi a segunda e última canção de "The Science of Things", estranhei não tocarem a sensual "Letting The Cables Sleep" e tive muita pena que deixassem a "Warm Machine" de fora, não se pode ter tudo.

Após a já mencionada "Stand Up" ouvimos o som de uma mosca a voar, quem não sabe a música que vem a seguir é porque está só a acompanhar alguém, é tempo de "Greedy Fly", que vem também fechar as canções de "Razorblade Suitcase", ficando de fora a belíssima "Bonedriven". Voltamos ao primeiro para uma das grandes baladas de Bush, "Alien" seguida por "Afterlife" onde o vocalista decide percorrer o Coliseu inteiro. Já por várias vezes Rossdale se tinha dirigido até ao público, mas desta vez foi até às bancadas, cantou ao pé dos fãs, bebeu do copo de alguém e, se era possível, conquistou ainda mais o público.


Para finalizar mais um dos hinos da banda, Rossdale em destaque em cima de uma coluna começa a tocar "Little Things", este homem está imparável, dança, atira-se para o chão, com quase 50 anos numa forma invejável e como já referi sempre em grande sintonia com o outro guitarrista. Em "Little Things" ainda foi tocar na bateria junto ao companheiro de longa data. A banda abandona assim o palco, claro que ainda vem o encore, mas já se sente que está, infelizmente, quase a terminar.

Quando regressam trazem duas covers que tocam seguidas, "Breath" de Pink Floyd e "Come Together" dos "The Beatles" (a menção acima não foi nada inocente). Que grandes escolhas, que grandes versões às quais o público respondeu com igual euforia. Todos cantaram a alto e bom som o refrão dos Beatles,

Na recta final, Rossdale menciona algumas palavras sobre o passado e o presente, sobre como gosta de tocar aqui e que promete voltar para o ano. Mesmo que tal não aconteça, ainda falta tanto, as palavras soam a sinceras, quem no seu perfeito juizo não ia querer  repetir a emoção que se viveu nesta noite? Assim sozinho com a sua guitarra começa a tocar a balada de eleição "Glycerine" alternando com momentos à capela para no fim terminar com a banda no seu todo, foi excepcional. Para terminar "Comedown" numa versão ainda maior, porque ninguém queria dizer adeus.


Ficou de fora o 4º álbum "Golden State", é verdade que na altura foi um regresso ao passado e o que se encontra lá já se tinha ouvido no primeiro, mas tem boas canções, não merecia ficar de fora, pelo menos uma passagem era de valor.

Termina assim um concerto que superou as minhas expectativas, que já por si eram bem compostas. Muitos não vão acreditar, mas foi mesmo um dos concertos do ano.


Nota: Como as fotos que encontrei já estavam devidamente identificadas não acrescentei nada. Qualquer inconveniente é só comunicar.

6 comentários:

ArmPauloFer disse...

Fui lendo com atenção só para perceber se a "Clycerine" teria ficado de fora (como, segundo informas, foi o caso da lindissima "Bonedriven"...).
Deve ter sido alto show!!!

PS: Estou a gostar bastante desta tua faceta de "repórter musical". Continua... força!

Loot disse...

Obrigado ;)
Se os concertos fossem ao preço do cinema havia mais vezes, mas este ano não me posso nada queixar até acho que vai ser aquele em que vi mais concertos.

Quanto aos bush, que me parece terem sido bastante desprezados pela crítica, merecem o destaque, isto não foi só um momento de revivalismo foi um grande concerto.

Acho que já tinhamos falado uma vez sobre isto, mas para mim a Bonedriven é uma das músicas mais substimadas, e por isso esquecida, da banda. Por isso já não contava que fosse tocada, ao contrário da Letting the cables sleep cuja ausência foi uma surpresa.

A Glycerine é também uma das melhores baladas da banda e talvez a grande favorita, eu gosto muito da canção.

Abraço

sonic disse...

este artigo está fabuloso, assim o concerto que foi soberbo. E ficou de fora speed kills e baby come home do novo album, as outras já foram referidas neste artigo. não me tinha apercebido que não tinham tocado nenhuma musica do golden state...mas 17 músicas do concerto foram electrizantes.

Sonic disse...

Este artigo está fabuloso, assim como o concerto que foi soberbo. E ficaram de fora músicas como; "speed kills" e "baby come home" do novo album, as outras, já foram referidas no artigo. Não me apercebi que não tinham tocado nenhuma música do golden state...mas as 17 músicas do concerto foram electrizantes.

Atentamente,

Loot disse...

Muito obrigado Sonic :)

O Golden State tem grandes canções podiam ter tocado como dizes a speed kills ou a Headful of Ghosts (gosto muito desta) ou num registo mais calmo a Out of this world. A inflatable também agradaria ao público certamente. Tive pena que o álbum ficasse de fora, mas são escolhas todos nós teríamos a nossa set list pessoal e é como dizes foram 17 canções electrizantes por isso não há queixas. E quando estamos a discutir quais as canções que faltam num concerto parece-me ser um excelente sinal de que tudo o resto correu mto bem.

A baby come home sempre foi uma daqueles em que eu apostava que ia ser escolhida, falando do novo álbum... perdi :P

Abraço

sonic disse...

Também eu perdi Loot, pois nunca pensei que não a tocassem, paciência fica para o ano...

Continua a escrever bons artigos,


abraço