sábado, julho 24, 2010

The Filth


Após uns desentendimentos com a DC Comics, Grant Morrison foi trabalhar para a Marvel. Nesta altura começou a criar “The Filth” e obviamente vendeu primeiro a ideia à Marvel. Se esta ideia já seria difícil de vender a uma editora como esta, Morrison ainda sugeriu que fosse uma história do Nick Fury. Escusado será dizer que a parceria nunca aconteceu. Acabaria por ser a editora com quem teve problemas, a Vertigo (linha adulta da DC), a pegar nesta obra, com quem Morrison já tinha trabalhado previamente nos seus “The Invisibles”. E assim em Agosto de 2002 “The Filth” começou a ser publicado durante 13 comics [1].
Nesta história acompanhamos Greg Feely, um homem comum cuja vida pouco preenchida e deprimente está prestes a dar uma volta de 180º. Os seus interesses resumem-se em dois. O consumo de pornografia, o seu único escape da rotina do dia-a-dia e o seu gato Tony, sem dúvida o ser mais importante na sua vida. Pouco a pouco vai sendo contactado por estranhos que lhe dizem pertencer a uma organização secreta de nome “The Hand”. Na verdade Greg Feely é Ned Slade um agente desta organização que decidiu tirar uma licença de descanço. É aqui que entra Greg Feely, que afinal se trata de uma parapersona, ou seja, não é real, apenas uma personalidade criada como porto de abrigo para Ned Slade descansar. Infelizmente as férias de Ned tiveram de ser reduzidas pois os seus valiosos serviços voltam a ser necessários.
Ned alinha nesta aventura esperando obter respostas e que a sua memória verdadeira regresse. Apesar de recordações lhe invadirem a mente, a personalidade de Greg Feely continua muito presente na sua vida, nunca desaparecendo e sentindo-a sempre mais real que a suposta verdadeira, o que por vezes faz com que a sua equipa de trabalho tenha pouca paciência para ele e as suas preocupações com Tony. Sim porque o seu gato continua sempre a ser o foco da sua vida, a sua maior preocupação.
The Hand é uma organização policial que tenta manter a sociedade num determinado caminho, denominado por Statuos-Q. Tratam todo o tipo de problemas que são considerados demasiado bizarros, extravagantes ou perigosos para as forças policiais comuns. Aqui Morrison aproveita para descarregar uma quantidade infidável de ultra-violência, degradação sexual e morte. The Filth é uma sátira à nossa sociedade que pega nos seus piores aspectos e retrata-os de uma forma grotesca uma exploração dos sentimentos mais negativos da nossa civilização.
Em 1999 Morrison esteve de baixa durante alguns meses sozinho em casa com o seu gato, nas suas palavras “Ao invés de ficar a lamentar-me, decidi transformar tudo num processo horroroso de solidão e decadência, em um tipo de purificação - ou putrefação – poética” [2]. E assim foi, Morrison mergulhou a fundo no mundo da morte, do sofrimento, de pornografia levada ao extremo, da decadência, ou seja, no mundo do caos, o Qliphoth (árvore da morte) que consiste no oposto da mais conhecida, árvore da vida. “The Filth é uma tentativa de injetar nos meus leitores uma mistura curativa de idéias vis, emoções nocivas e imagens inaceitáveis" [2].
Este é um dos trabalhos mais autorais de Morrison e uma continuação da temática que abordou em “The Invisibles” e “Flex Mentallo”. Felizmente “The Filth” não sofreu de tanta censura como “The Invisibles”, digo de tanta porque acho que ainda existe alguma. Como uma cena em que uma mulher aparece coberta por sémen negro que foi cortada e a personagem de Tex cujos genitais são pixelizados, apesar de Morrison afirmar que a ideia era mesmo a de aparecer pixelizado.
O desenho é de Chris Weston e a cor de Gary Erskine, que fazem uma excelente trabalho, que se adequa perfeitamente à podridão que é “The Filth”, às vezes a arte até cheira mal. Mas não podemos esquecer as capas de Carlos Segura que fogem ao estilo tradicional dos comics e são de uma creatividade e bom gosto enormes.
Nesta mistura toda ainda há tempo para mundos de BD dentro de “The Filth” (se bem que “The Filth” poderá ser já por si isso mesmo) e chimpazés comunas assassinos (grande Dmitri que se lixem os humanos).
Para quem leu em inglês, entender o sotaque inglês da Spector foi uma verdadeira aventura por vezes.

8 comentários:

maurobindo disse...

Só por isto "às vezes a arte até cheira mal", já quero ler!
Wishlist com ele!
Abraço.

Snow White disse...

"The Invisibles" é muito bom mesmo. "The filth" nunca li mas o interesse foi despertado.

Loot disse...

Mauro: Se gostas de Grant Morrison é de ter. Muito marado e muito bom.

Snow: OS The Invisibles ainda não peguei porque são mais, logo mais caros, mas estão na lista :)

Rodrigo Maia disse...

Loot, Invisíveis é muito bom! Mesmo! Não tarde a ler. Ao contrário de você, ainda não li The Filth. Meu único impedimento é o inglês; sei ler qualquer comics em inglês com facilidade, mas neste caso não estamos falando de BDs comuns, estamos falando de Grant Morrison, o que torna a leitura mais difícil... Mas a história dá para ser bem entendida mesmo assim, com essa dificuldade?
The Filth está na minha lista de consumo...

Loot disse...

Rodrigo lê the Filth porque é muito bom, e já percebi que vais adoras.

Filth é bastante marado e diferentes pessoas interpretam de diferentes maneiras mas isto nada tem a ver com a língua.
Eu acho que se lê bastante bem em inglês, e qualquer dúvida uma pessoa consulta o diccionário.

Só tive problemas com uma personagem a tal Spector que menciono no fim do texto. Ela fala com sotaque inglês muito forte e realmente às vezes é preciso ler em voz alta várias vezes para perceber o que ela está a dizer. E não posso garantir que tenha entendido todas as frases dela correctamente. Mas a não ser que haja noutra língua que entendas melhor compra em inglês e lê, sem receios.

Agora traduzido também se perde a piada do sotaque da Spector :P

Abraço

tadeu disse...

terá dois trabalhos adaptados ao cinema.
a ter em conta :)
bom fds!!

refemdabd disse...

Ainda não li o teu post! hehehe! Não resisti a já escrever estas linhas. Tiveste que ser tu a escrever sobre o Filth. Eu não consegui! Nem sabia por onde começar. Vou ler agora.

Loot disse...

Falar sobre o The filth dá pano para mangas ficava aqui a escrever um testamento como os teus :P

É apenas uma sinopse para aguçar o apetite até porque não podia desvendar certas coisas.

SPOILERS
Um dos aspectos que mais gosto é o facto de o mundo não ser nada retratado a preto e branco. Quando o principal descobre o que o grupo lhe fez e muda de lado parece que afinal os maus são os outros mas depois vemos que também não é assim. Todos têm o seus prós e contras e não sabemos para onde nos virar :P