segunda-feira, Março 04, 2013

Los Olvidados



O nome Luís Buñuel tornou-se sinónimo de surrealismo no cinema. Ninguém hoje discute a exploração desta corrente artística na sétima arte sem mencionar o nome do realizador espanhol. No entanto, acima de tudo, Buñuel era um realizador de cinema, um que não tinha receios de experienciar e que durante a sua carreira explorou uma série de géneros diferentes.

 “Los Olvidados”, apesar de conter elementos surrealistas, é na sua génese um filme profundamente realista, algo que era essencial a fim de desenvolver o seu objectivo, podendo ser incluindo no movimento artístico do realismo social. Logo a início o narrador alerta-nos para o problema em questão, a pobreza na infância, um problema que será demonstrado numa história – apresentada como real – que decorreu na Cidade do México, mas que poderia ter decorrido num outro lado qualquer. O narrador é também muito claro em afirmar que este filme tem apenas o intuito de evidenciar este problema e não de o resolver, as respostas, essas, cabem a todos nós procurar e descobrir, porque “Los Olvidados” pode ser um filme, mas o problema é muito real.

O filme tem início com o regresso de El Jaibo, um jovem delinquente que fugiu de uma casa de correcção e se reúne com o seu antigo grupo, onde rapidamente assume a posição de líder. De momento aquilo que mais o move é a procura por Julián quem ele crê ser o responsável pelo seu encarceramento. Todos no grupo admiram a sua tenacidade, todos incluindo Pedro, aquele que verá a sua vida intimamente ligada à de El Jaibo quando o assiste na sua sede de vingança.


 A pobreza pode levar a vários cenários de terror, incluindo ao próprio abandono de um filho como é o caso do rapaz que ganha a alcunha de ojitos. Todas estas crianças têm uma história, um passado que as conduziu até onde estão hoje e todas estas histórias poderiam ser, cada uma delas, um outro filme, contudo, aqui é a história de Pedro que é revelada, aquela sobre qual Buñuel se debruça. Quando conhecemos o seu ambiente familiar – vive com a mãe e os irmãos – percebemos rapidamente que Pedro cresceu sem o sentimento mais importante no desenvolvimento de qualquer criança, o amor. Como alguém refere no filme, às vezes deviam ser os pais a ser presos e não os filhos. Mas, “Los Olvidados” não pretende julgar, pois por mais condenáveis que as acções da mãe de Pedro sejam também ela é uma vítima da sua própria realidade.

Alfonso Mejía está soberbo no papel de Pedro, o rapaz tem um brilho nos olhos que nos faz instantaneamente acreditar nele sem serem precisas palavras ou acções, é um sentimento que paira no ar e nos faz saber que dada a oportunidade Pedro será um dos bons, que por muito que a sua moral tenha sido corrompida, o seu coração ainda está no sítio certo.

Vencedor do prémio de melhor realizador em 1951 no festival de Cannes, “Los Olvidados” é um daqueles filmes que após visto fica connosco para sempre, nunca mais nos largando.


Nota: Este texto foi publicado originalmente no site da Rua de Baixo, onde fiz uma perninha na secção de Cinema para falar de um clássico da sétima arte à minha escolha.

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