segunda-feira, março 16, 2009

Watchmen


"Quis custodiet ipsos custodes?"
("Who watches the watchmen?")

Após a DC Comics ter adquirido os direitos da editora Charlton Comics em 1985, Alan Moore começou a desenvolver um projecto em que renovaria alguns dos Super-Heróis da extinta editora.
Apesar do editor Dick Giordano ter gostado das ideias de Moore, achou que a sua história iria afectar de uma forma drástica o destino de muitos desses Heróis inutilizando-os para futuros projectos. Desta forma tentou convencê-lo a criar novos personagens, algo que o autor não queria a início porque considerava que não iriam sensibilizar tanto os leitores. Felizmente para todos nós acabou por mudar de ideias, "Eventualmente apercebi-me que se escrevesse os personagens substitutos suficientemente bem, para que parecessem familiares em determinadas maneiras, se certos aspectos seus trouxessem uma certa ressonância ou familiaridade genérica de Super-Herói ao leitor, então poderia resultar" comentou Moore numa entrevista a Jon B. Cooke.
Para quem estiver interessado em saber mais sobre os personagens originais que Moore queria usar e nos quais acabou por se basear ao construir os "Watchmen" convido a dar uma vista de olhos às notas que tenho escrito na rubrica "Influências/Semelhanças" que se encontra ordenada no lado direito do blog.
Dave Gibbons que já tinha trabalhado com Moore no passado quis envolver-se neste projecto e após ler um pouco da história e de ter conversado com o editor entrou imediatamente a bordo trazendo consigo o colorista John Higgins. Com a junção do editor Len Wein o núcleo central de "Watchmen" estava formado.
No final dos anos 30 começaram a surgir vigilantes mascarados e apesar de utilizar o termo "Super Herói" a verdade é que de Super não tinham nada, sendo apenas pessoas comuns que por alguma razão optaram por se mascarar e patrulhar as ruas tentando livrá-las do crime. Os primeiros a surgirem acabariam por formar os "Minutemen" o primeiro grupo de Super-Heróis a existir no mundo. Apesar de a história não se centrar nestes Heróis mas sim nos da 2º geração, Moore ao longo do livro e principalmente através dos extras, providencia-nos muita informação sobre a vida destes personagens, dando-nos uma ampla visão de como estas pessoas poderiam afectar a sociedade e vice versa. Através destas temos também o conhecimento dos vários perfis psicológicos que levariam alguém a usar um uniforme, seja a procura por justiça no caso de uns ou a fama no caso de outros. Como as suas carreira já estão bem terminadas durante a acção principal de "Watchmen" podemos também verificar aonde este tipo de vida os levou e para alguns a resposta apesar de óbvia não deixa de ter um sabor bem realista, pois se existissem de facto pessoas como eu e tu que saíssem de noite para combater criminosos seria de estranhar que muitos de nós acabassem mortos ou dementes?
Depois dos "Minutemen" uma nova vaga de Heróis surgiria, os "Watchmen" que constituem os personagens principais desta trama, falo de Rorschach, Nite Owl II, Ozymandias, Silk Spectre II, Doctor Manhattan e The Comedian o membro que faz a ponte entre as duas gerações. Se os Heróis anteriores deixaram uma marca na História, nada se compararia ao que aconteceria após o nascimento do Dr. Manhattan. Este novo Herói é o primeiro a surgir que realmente possui poderes. Após um acidente de laboratório Jon Osterman "morreu" para dar lugar a Manhattan um ser extraordinário com a capacidade de manipular matéria ao nível atómico sendo virtualmente capaz de criar tudo.
A sua existência alterou profundamente o percurso da História, os USA venceriam a guerra do Vietname e Nixon manter-se-ia na presidência ao longo de vários mandatos. A América desenvolver-se-ia então num país diferente daquele que hoje conhecemos e é nesta versão alterada da América que "Watchmen" se desenrola.
A sociedade eventualmente cansar-se-ia destes tipo de justiça mascarada e em 1977 após a greve das forças policiais o governo decidiu que era altura mais do que suficiente de lançar o Keene Act, uma lei que proibia a actividade de vigilantes mascarados, excepto se estes tivessem uma ligação ao governo como é o caso de Manhattan e Comedian.
A trama principal propriamente dita tem inicio em 1985 com a investigação do assassinato de Edward Blake a.k.a. The Comedian. Rorschach é agora o único vigilante que continua independente no activo, após uma curta investigação pelo apartamento de Blake começa a elaborar uma teoria de conspiração sobre alguém que pretende eliminar os vigilantes mascarados. O que começa por aparentar ser apenas um simples assassinato desenvolve-se em algo de proporções épicas que acabará por "obrigar" todos os Watchmen a tomarem um partido.
Surgindo-nos como uma história sobre a desconstrução do Super-Herói, "Watchmen" vai evoluindo em algo muito maior, tornando-se principalmente em uma história sobre a Humanidade. Moore afirmou numa entrevista a Vincent Eno e El Csawza que pretendia criar uma espécie de "Moby Dick dos Super-Heróis” e tenho a forte sensação de que conseguiu.
Originalmente o autor apenas tinha material para criar 6 comics, mas uma vez que o contrato era de 12 foi obrigado a esticar a história o que poderia resultar em algo aborrecido, mas estamos a falar de Moore e tal não foi o caso. A sua solução passou por se focar também no passado dos personagens o que na minha opinião foi uma excelente ideia uma vez que nos fez ter um maior contacto com cada um compreendendo melhor o tipo de pessoas que eram e em que acabariam por se tornar. É preciso salientar que todos os personagens estão incrivelmente bem construídos psicologicamente e que os seus ideias e formas de pensar estão em perfeito acordo com as suas acções ao longo do livro onde as atitudes de cada um merecem bastante reflexão.
Pessoalmente acho a arte de Gibbons muito boa e extremamente rica a salientar pormenores e simbolismos. Em relação à estrutura os autores optaram por usar maioritariamente um formato de 9 quadrados por prancha.
Antes de terminar tenho de salientar a fantástica ideia de ter uma história de BD dentro de outra. Falo obviamente de "Tales of the Black Freighter" o conto que é lido por um rapaz ao longo desta obra e que retrata a vida do único sobrevivente de um naufrágio causado pelo temível grupo de piratas do "Black Freighter". Assustado com a ideia de que os piratas se dirigem à sua terra para matar todos os seus habitantes onde se incluem a sua mulher e filhos, decide usar todos os meios ao seu dispôr para regressar naquela que se tornará a viagem mais negra da sua vida. Além da história viver só por si funciona também como uma alegoria a algumas situações de "Watchmen" sendo talvez a principal o percurso pela escuridão de um homem com com um dos mais nobres dos objectivos.
"Watchmen" foi um dos livros que mais revolucionou a forma como se olha para a BD no mundo e não é à toa que é considerado pela "Time" como um dos 100 melhores romances do séc. XX. A única BD a ter tido tal reconhecimento.

13 comentários:

na outra banda disse...

se na altura que li a bd, tivesse uma intro assim... :0)
vou tentar ver o filme hoje...
hugs!

Bongop disse...

Grande post looT!
Fizeste um bom apanhado da estória ao redor do livro, e afloraste o plot da melhor maneira, isto é, sem spoilers... :)

Abraço

csa disse...

Conheço a BD, que li há uns anos atrás, e a apresentação feita está mesmo muito boa.
Deixa-me vontade de ir ver o filme.
Espero não sofrer nenhuma desilusão, porque gosto muito das histórias de Allan Moore.

csa disse...

Conheço a BD, que li há uns anos atrás, e a apresentação feita está mesmo muito boa.
Deixa-me vontade de ir ver o filme.
Espero não sofrer nenhuma desilusão, porque gosto muito das histórias de Allan Moore.

Fifeco disse...

Excelente artigo. De resto, não poderia não o ser tal a tua paixão pelos comics (ou graphic novels).

Mas gostei muito de ler. Não tinha conhecimento de algumas coisas. Outras conhecia e partilho da tua opinião. A profundidade narrativa e complexidade de Watchmen fazem dele uma obra digna de registo. E é como dizes, o facto de desenvolver as personagens, leva-nos a identificar mais com elas.

Pessoalmente, a nível de capítulos, apesar de gostar muito de todos, tenho especial apreço pelo que engloba discussão entre Doc Manhattan e Silk Spectre acerca da humanidade, aquele que explora o passado de Rorchach e, claro, aquele final surpreendente.

E já agora, quanto ao filme?

Ainda não viste?

looT disse...

Na outra banda: Bem acho que o Moore disse que "Watchmen" é livro para ser ler 5 vezes por isso não faltarão oportunidades :P

Bongop: Obrigado, era mesmo essa a ideia que tinha em mente quando o escrevi. Porque vontade de falar na obra não falta.

csa: Obrigado. Sobre o filme não sei, depende de cada um mas pelo menos é bom distanciarmos-nos um pouco do livro, ter a noção de que era impossível experenciar tudo o que se leu em BD num filme.

Fifeco: Mas quando a paixão é assim tão grande ainda custa mais escrever, estava sempre com receio de não fazer jus à obra.

Fico contente que tenham gostado de ler. Sobre os personagens também não me estendi muito não só por causa dos spoilers mas porque aproveitei o facto de estar a abordar mais a fundo a personalidade de cada um no influências/Semelhanças (devia arranjar um nome mais giro para isto lol).

Há uma data de capítulos marcantes nem consigo escolher só um mas sem dúvida que o que mencionas é genial e já quando vemos Manhattan em Marte pela primeira vez e toda a sua noção do tempo é qualquer coisa de extraordinário.
Depois há o passado negro de Rorschach, obviamente o final, etc.

Já vi o filme, não o achei equilibrado pois alterna entre momentos geniais e outros um pouco parvos. Por exemplo todas as canções da banda sonora são excelentes mas algumas não gostei da forma como foram usadas principalmente a cena em que entra a "Hallelujah" do Leonard Cohen não gostei nada.

Depois o resto prende-se mais com pormenores coisas que eu escolheria fazer de forma diferente, mas isso cada um teria a sua opinião. E não falo do final que primeiro estranhei mas depois entranhei, acho que funciona muito bem e se não fosse por um pormenor diria que funcionava tão bem como o da BD.
Falo é da cena que envolve o "verdadeiro nascimento" do Rorschach que não entendi porque a mudaram, uma conversa entre Ozymandias e o Doctor Manhattan, entre outras. Mas são pormenores estou a ser picuinhas provavelmente.

Adorei o Rorschach e o Comedian os actores estavam perfeitos.

No geral acho que há aqui bastante mérito, "Watchmen" é uma obra muito complicada de adaptar pois uma das coisas que a BD tem de melhor é a forma como a história é contada e isso era impossível de adaptar à letra.

Fifeco disse...

Claro que existem inúmeros momentos memoráveis. Mas era impossível transporta-los todos. Pois, ninguém gostou mesmo da cena entre Silk e Nite Owl. Já vi que fui o único mesmo.

Mas como ja disse varias vezes, espero mesmo pelo director's cut.

Quanto ao rorschach, sim, também não gostei dessa parte.. mas foi praticamente a única :p As restantes alterações pareceram-me muito bem conseguidas.

Abraço

QUEIROZ disse...

Vai ter uma resenha do filme. Fico achando que a música que deveria tocar quando sobem os créditos deveria ser Live or let die, tamanha paixaõ que gera o filme em seus prós e contras.

Valeu Loot.

Izzi disse...

Enquanto eu não leio este post, visto que ainda não li a BD nem vi o filme, responde ao desafio que te deixei AQUI. Já sei que és repetente ;)

**

looT disse...

Fifeco: A frase que o Manhattan diz a alguém na BD tem muito mais impacto do que no filme que é dita através da conversa do Nite Owl II e da Silk Spectre II. A expressão na cara de...
Mas são pormenores claro, estou a ser picuinhas.

Adorei por exemplo a violência com que foi filmado aqui não perdoaram.
E nota-se que foi um trabalho feito com muita paixão e respeito, eu gostei do filme.


Queiroz: Eu quero ver a edição em dvd isso é garantido principalmente pela curta do "tales of the Black Freighter"

Izzi: Vou espreitar :)

Anita disse...

Antes de mais parabéns pelo texto!! Demonstra na perfeição toda a tua devoção e conhecimento sobre o livro. Espero que faças igualmente um texto sobre o filme, tenho mesmo curiosidade em ler a tua opinião completa apesar de já teres deixado aqui alguns "pózinhos" ;))

Eu gostei bastante do filme!!Não me decepcionou, bem pelo contrário, fiquei surpreendida pela positiva!!é claro que não perfeito mas, mesmo assim acho que é foi a melhor adaptação que já vi!!

Beijinho

looT disse...

Muito Obrigado :D
Sim a ideia é escrever também um texto para o filme que até gostava de ver novamente agora livre de expectativas.

Eu gostei do filme é bom e nota-se respeito e paixão pela obra.
No entanto não é uma obra prima, mas como já foi dito trata-se de uma adaptação herculeana.

bjs e boas férias ;)

Anónimo disse...

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