quarta-feira, setembro 13, 2006

A Scanner Darkly


Estou muito entusiasmado com o novo projecto de Richard Linklater, o famoso realizador de "Antes do Amanhecer" e "Antes do Anoitecer.
Não sei muito sobre a história (uma vez que ainda não estreou por estas bandas), aparentando ser um thriller esquizofrénico passado em Los Angeles num futuro "não muito distante", sobre uma droga altamente aditiva que dá pelo nome "D" e que irá ter uma grande influência na vida de Bob Arctor, um polícia infiltrado no mundo dos narcóticos.
O que me chamou a atenção neste filme é o modo como foi realizado, misturando imagens de representação real, sobrepostas por um estilo de animação bastante avançado, técnica que dá pelo nome de rotoscoping, e já tinha sido utilizada pelo realizador no filme "waking life", o resultado é no mínimo muito interessante.
O filme trata-se da adaptação da obra de Philip K. Dick, um dos escritores de ficção científica com mais obras adaptadas ao grande ecrãn, relembrando o grande "Blade Runner", juntamente com o "Total Recall", "Minority Report" e "Paycheck".
Para terminar o elenco conta com a presença de Keanu Reeves, Robert Downey Jr., Woody Harrelson, Winona Rider e Rory Cochrane.
Está neste momento uma petição online para que este filme tenha data de estreia em Portugal, uma vez que a distribuidora Columbia Tristar Warner, está a pensar lançar o filme directamente para DVD, quem estiver interessado em assinar a petição aqui fica o link: http://www.petitiononline.com/ascdkly/petition.html

Para mais informações visitem a página oficial e vejam o trailer: http://wip.warnerbros.com/ascannerdarkly/

terça-feira, setembro 12, 2006

Arrested Development


Sem dúvida uma das melhores séries de comédia que vi nestes últimos anos, é verdade que também não vi assim tantas, mas a série é genial e conquistou-me logo no primeiro episódio da segunda season (não havia a primeira season em casa da pessoa que conheci a série, já agora um grande abraço e obrigado ao Nuno).
Arrested Development utiliza um tipo de humor estúpido mas ao mesmo tempo cerebral, com Michael a personagem principal e aparentemente a mais racional, juntamente com o seu filho, se é que uma pessoa que dá o nome de George Michael ao filho pode ser racional. A estória desenrola-se à volta dele e da sua família mais que perturbada, um irmão com a mania que é mágico, uma irmã que não faz nada da vida (bem esta é válida para todos os outros personagens) casada com um "never nude", um irmão mais novo que vive com a mãe e já tem 32 anos, uma mãe que se mete na vida de todos e absorve álcool como uma esponja, um pai preso por actividades ilegais no Iraque, um dos piores advogados do mundo interpretado por Henry Winkler (o Fonzie de happy days), o seu filho que como já disse chama-se George Michael e juntamente com o pai é o único membro da família que faz alguma coisa. Nutre uma paixãos ecreta pela sua prima Maeby que é uma mentirosa compulsiva, mas com uns pais como Tobias e Lindsay muito bem ela saiu.
Arrested conta com as participações especiais de Ben Stiller, Thomas Jane, Julia Louis-Dreyfus, Christine Taylor, entre muitos outros (eu ainda não vi os episódios todos) e para terminar já mencionei que o narrador é o Ron Howard?
Concluindo: uma série a não perder, que tenho esperanças de (re)ver um dia, na televisão portuguesa.

domingo, setembro 10, 2006

And I miss you...








sexta-feira, setembro 08, 2006

OldBoy


Este filme é a prova viva de que o cinema Sul Coreano está cada vez melhor, e não me surprenderia nada que daqui a uns anos surgisse um remake Americano, o que me lembra que o remake do Infernal Affairs deve estrear este ano, mas isso é outra história.
Sobre Oldboy o que dizer? É um dos melhores filmes que vi nos últimos anos, é arrebatador, de cortar a respiração. A estória, o modo como a vingança é retratada neste filme é de um pormenor maquiavélico tal, que todo o filme me arrepia dos pés até à ponta dos cabelos. Brutal fisicamente, mais brutal ainda psicologicamente, este é um daqueles filmes a não perder. Foi vencedor do grande prémio do júri em Cannes, e vá-se lá saber porquê, o senhor Quentin tarantino nem era o presidente nem nada, um senhor que nem gosta de filmes alternativos e violentos.
Na minha opinião os filmes deveriam ser vistos sem sabermos nada sobre eles, principalmente filmes como este, mas para os mais curiosos assim muito rápido, posso referir que o filme é baseado no Manga de Tsuchiya Garon e Minegishi Nobuaki e conta a estória de Oh Dae-su, um homem que esteve preso 15 anos sem saber porquê, e quando é libertado parte à procura de respostas e de vingança. Mas será que a vingança retratada neste filme que referi à pouco é a de Oh Dae-su? A grande questão que temos de fazer antes de seguir o seu caminho é: porque é que ele foi preso durante 15 anos? E depois de nos questionarmos, talvez possamos ver que a vingança já tinha começado.
Para saber mais têm mesmo de o ver, isto foi apenas para aguçar o apetite, mas confiem em mim, gostem ou não, ninguém vai ficar indiferente a este filme.

sexta-feira, setembro 01, 2006

Ser do Vento...


"Inevitavelmente, voltamos sempre ao mesmo: o amor!...
Tudo já foi dito e redito, tudo já teve o seu direito e o seu avesso, no entanto, quando o dizemos de dentro, é como se tudo num breve instante se esbatesse e reencontrássemos a voz primordial.
É assim com a pessoa amada, é assim em todas as canções de amor.
Claro que gostamos de finais felizes, claro que fazemos sentir a nossa falta, claro que nos irritamos, claro que projectamos na voz da pessoa amada os nossos mais secretos desejos...
Claro que nos desiludimos para voltarmos ao mesmo: o amor!
Atravessamos um deserto cego e frio e só depois nos damos conta; deixamos livros marcados para que o outro dê conta de nós; rasgamos a pele e a roupa para que, num desespero de carência, se ofereça o essencial...e, no entanto, só perante o amor avaliamos a nossa total fragilidade.
É o suspenso momento de todas as indefinições, de todos os medos, de todas as dúvidas...Mas, simultaneamente, o grande delta de toda a razão de ser, a grande casa inacabada."

J. Monge


in Manuel Paulo no álbum "O Assobio da Cobra"!

sexta-feira, julho 28, 2006

TMNT


É curioso, falei ainda há pouco tempo das tartarugas ninja, esse fenómeno verde mundial, e não é que descobri que estão a fazer um novo filme sobre os adolescentes ninja. Marcado para estrear em Março de 2007, o teaser já anda a rondar pela net. O filme vai ser todo feito em CGI, e só espero que se mantenham fiéis às tartarugas que nós conhecemos, quero ver o Raphael a brilhar. Aqui fica o link:
http://www.apple.com/trailers/wb/teenagemutantninjaturtles/

Tool - 10.000 days


Já queria fazer isto há muito tempo, mas tem faltado tempo e inspiração, e como estou quase a ir embora, não queria deixar de falar num dos melhores álbuns que saiu este ano, provavelmente o melhor (para mim).
Depois da brilhante carreira de Tool, colocava-se a questão de como seria este novo álbum, se todos têm uma sonoridade diferente e uma notória evolução musical, a fasquia era altíssima. Quando uma banda lança um cd como o "Aenima", muita gente pensava que a fórmula iria repetir-se no álbum seguinte, mas quem conhece bem Tool sabia que isto não iria acontecer, e assim veio "Lateralus", um álbum que não sendo melhor que "Aenima" está no mesmo nível de qualidade mas explorando outros campos musicais (sendo sempre Tool). Depois de uma discofrafia destas, será que "10.000 days" iria responder como se esperava, ou seria uma desilusão?
Felizmente "10.000 days" prova que esta banda não conhece limites, não sendo um álbum que inove tanto como os anteriores musicalmente, mas como um conjunto de tudo o que os Tool aprenderam até hoje, uma reunião da sonoridade explorada pela banda. Quem não ouve este álbum e se recorda de todos os antigos da sua carreira? A "the pot", não faz lembrar o "Aenima" em certos momentos? E outras o "Undertow"? ou o "Opiate"? Até o "Salival" um álbum com músicas ao vivo, covers e raridades, se relembra em "10.000 days", ouçam a "Right in Two" e vejam se não se lembram da percursão que foi experimentada na versão do "Salival" da "push it". O Álbum com maior incidência neste último acaba por ser o "Lateralus" de longe, é este que mais se reconhece em "10 000 Days".
Concluindo e espero que isto não tenha ficado confuso, "10.000 days" é um álbum muito intenso e magestoso, as músicas estão em perfeita sintonia umas com as outras e sendo diferentes o cd acaba por ter uma sensação de união, entre canções, maior do que o "Laterauls" tinha.
A própria arte do cd de Alex Grey é muito boa, até vem equipado com óculos 3D para uma maior apreensão da arte gráfica, o que faz deste cd um grande artigo de colecção. Palavras para quê? Ouçam.
Existe uma mensagem subliminar na "Intension" se ouvirem a música ao contrário, soa a algo do género: "Work hard. Stay in school. Listen to your mother. Your father is right.", fica aqui um link com uma parte da música invertida: http://www.megaupload.com/?d=96JMW4KY
Outra curiosidade é em relação às canções
"wings for marie (part1)" e "1o.ooo days (part2)" em homenagem à mãe de Maynard James Keenan que esteve 10 000 dias numa cadeira de rodas. Se aliarem a última canção do álbum "Viginti Tres" à "wings for marie (part1)" vão ficar com uma faixa que tem o tempo idêntico à "1o.ooo days (part2)", agora só têm de passar esta nova faixa ao mesmo tempo que a "1o.ooo days (part2)". Para ouvirem cliquem aqui.

quinta-feira, julho 06, 2006


I chose this life.
I know what i´m doing.
And on any given day, i could stop it.
Today however, isn´t that day.
And tomorrow won´t be either.

Bruce Wayne
"Mas eu não quero ir ter com os loucos", Observou Alice.
"Não tens alternativa". Retorquiu o Gato.
"Nós Aqui somos todos loucos. Eu sou louco. Tu és louca.
"Como é que sabes que eu sou louca?" Perguntou Alice.
"Deves ser", Disse o Gato, "ou não terias vindo até aqui."

Lewis Carrol "Alice no País das Maravilhas"




terça-feira, junho 27, 2006

Spider Man 3


Aproveitem que tá fresquinho fresquinho, quero comentários:

http://www.apple.com/trailers/sony_pictures/spider-man_3/large.html

quinta-feira, junho 22, 2006


Normalmente quando vou a passear na rua, as pessoas abordam-me e perguntam-me: mas afinal quem são vocês? Não vos conseguimos destinguir nem nada!
E bem para esclarecer eventuais dúvidas aqui fica a foto do grupo, eu sou o verde. O lamy como só podia é o da máscara laranja, o Bug como o própio nome indica é o de baixo, não espera o nome não indica isso, o Cube (sim tens de ser "o" neste breve instante) é o suposto "líder" (yha yha só se for nos filmes) para aqueles que nasceram depois de 84 e possuem um conhecimentom limitado sobre os adolescentes ninja verdes estou a falar do da máscara azul.

PS: Sim eu de facto não me estou a sentir bem, mas não posso escrever mais tenho um trabalho para terminar.

segunda-feira, junho 19, 2006

Parabéns Cube

Muitos Parabéns (não, a cube não faz anos). É um grande momento quando o disciplo se torna no mestre, o padawan se torna Jedi e no teu caso literalmente a aluna se torna a professora.
Tenho pena não ter estado contigo neste dia que vai ficar para sempre marcado na tua memória, mas temos o mundo aos nossos pés e todo o tempo do mundo para comemorar. Um beijo muito grande e mais uma vez Parabéns.

sábado, junho 10, 2006

Teenage Angst


Shine the headlight, straight into my eyes.
Like the roadkill, I'm paralysed.
You see through my disguise

At the drive-in, double feature,
pull the lever, break the fever
and say your last goodbyes.

Since I was born I started to decay.
Now nothing ever ever goes my way

One fluid gesture, like stepping back in time.
Trapped in amber, petrified.
I'm still not satisfied

Airs and social graces, elocution so divine.
I'll stick to my needle, and my favourite waste of time,
both spineless and sublime.

Since I was born I started to decay.
Now nothing ever - ever goes my way.

quarta-feira, maio 10, 2006

Televisão, o caminho para a fama!

Hoje em dia toda a gente quer aparecer na televisão! Nem que seja a fazer figuras tristes e ridículas.

"[Jerry] Springer is the talker
He's the talking man
He's got the whole studio
Eating out of his hand
You can be on too
With the nuts and the geeks
Call 1-800-IMA FREAK
1-800-IMA FREAK"
(by Mark Knopfler)

Para todos aqueles que são idolatrados pelas massas sem nunca terem feito algo para o merecerem, eu digo isto:

They say you're a star
That's what the boys all say you are
I don't see much TV
So you don't mean shit to me.
(by Mark Knopfler)

sexta-feira, março 24, 2006

Para nunca terem medo ao escurecer.

Sobre a música de Mafalda Veiga...
Há quem diga muito bem, há quem diga muito mal e há aqueles como eu, que gostam.

Desde sempre que estas melodias me acompanham e hoje, depois de um dia de trabalho esgotante, onde os "meninos problemáticos" da escola da Damaia me deram tantas alegrias, ouço "O menino do piano" e aqui fica a letra dedicada a todos eles!

E para quem nunca ouviu Mafalda Veiga, ou pensa que não gosta...ouça esta música e sonhe!

Vi um menino, com um piano,
No céu da minha cabeca,
Veio de tao longe, só para me pedir,
Que nunca o esqueca.

Vinha tocar o seu piano,
Como só nos sonhos pode ser,
Por entre as nuvens e as estrelas,
Apareceu, quando me viu, adormecer.

Ficou sentado, perto de mim,
Onde mora a fantasia,
Quis-lhe tocar, mas nao se pode ter,
A noite a iluminar o dia.

Soprou devagarinho, uma estrela,
Que se acendeu na sua mao,
Disse-me podes sempre ve-la,
Se souberes sopra-la no teu, coracao.

Vi um menino, com um piano,
A despedir-se de mim,
Como uma nuvem, fez o mar e partiu,
Nos sonhos pode ser assim.

Disse-me esta a nascer o dia,
Vou p'ra onde a noite se esconder,
Volto com a primeira estrela,
Para tu nunca teres medo, ao escurecer.

terça-feira, março 21, 2006

Dia Mundial da Poesia

Tabacaria


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
Àparte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossìvelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos sêres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e êste lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz de propósito nenhum, talvez tudo fôsse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos,
Más lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?
Que seu eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fêz.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo.
Tenho feito filosofias em segrêdo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma
parede sem porta,
E cantou a cantiga de Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num pôço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sôbre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrêlas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e êle é opaco,
levantámo-nos e êle é alheio,
Saímos de casa e êle é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões tôdas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de fôlha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida dêstes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprêso sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fôsse viva,
Ou patrícia romana, impossìvelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocotte célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que fôr, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degrêdo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para àquem do lagarto remexidamente.
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbedo tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com desconfôrto da cabeça mal voltada
E com o desconfôrto da alma mal-entendendo.
Êle morrerá e eu morrerei.
Êle deixará a tabuleta, eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta gigante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas
como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da
superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entra na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever êstes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como a uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de tôdas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal
disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fôsse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo trôco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica. (O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria
sorriu.


Álvaro de Campos

domingo, março 12, 2006

Cântico Negro

"Vem por aqui" --- dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
--- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
--- Sei que não vou por aí.


José Régio

domingo, fevereiro 19, 2006

Your dreams come true

When you wish upon a star
Makes no difference who you are
Anything your heart desires
Will come to you

If your heart is in your dreams
No request is to extreme
When you wish upon a star
As dreamers do

Fate is kind
She brings to those who love
As sweet fulfillment of their secret drowns
Like a boat out of the blue

Fate steps in and sees you through
Moma when you wished upon a star
Your dreams come true

Fate is kind
She brings to those who love
As sweet fulfillment of their secret drowns
Like a boat out of the blue

Fate steps in and sees you through
Baby when you wish upon a star
Your dreams come true

When you wished upon a star
Makes no difference who you are
Your dreams come true

domingo, janeiro 08, 2006

E porque o que é nacional é bom, deixo aqui 3 propostas recentes de música portuguesa.
Os "civic" tornaram-se conhecidos quando venceram o concurso de bandas de garagem do Rock In Rio Lisboa. Onde abriram o palco principal no mesmo dia que Moonspell, Sepultura, Slipknot, Incubus e Metallica. Destas bandas aquelas com que "civic" partilha maior sonoridade serão uns Incubus num inicio de carreira. Para quem é fã deste tipo de sonoridade aconselho a ouvirem este disco de estreia que dá pelo nome “Ghosts & Shadows”.
A segunda proposta é o primeiro álbum dos "a naifa - canções subterrâneas", uma mistura de estilos de música tradicional portuguesa, mas com uma sonoridade actual, uma espécie de fado + pop, mas desenganem-se aqueles que ao lerem a palavra fado, pensarem que as músicas desta banda são todas sobre tragédias.
Por fim, vou falar do disco de estreia dos "Gota", para quem costuma ir ao musicais, pode já os ter visto a tocar várias covers entre as quais Sting. O cd está disponível a partir de amanhã, e pela primeira vez na vida tive a possibilidade de ouvir um cd antes de sair à venda. Para quem gostar eles vão estar dia 25 às 22:00 no Club Lua (jardim do tabaco) para apresentar o álbum. Pessoalmente não me cativou.

terça-feira, janeiro 03, 2006

Banda sonora da nossa vida


Quem não gosta de música? Quem não ouve música todos os dias? Quem não começa a cantar, mesmo que inconscientemente, quando ouve na rádio os primeiros sons de uma música conhecida? A resposta a todas as perguntas é certamente: ninguém. A música faz parte de nós.

Se todos gostamos de música, não interessando o género (se é que se pode catalogar friamente a arte que é compor melodias e letras com que nos identificamos), quantos de nós já pararam para pensar qual é a banda sonora da nossa vida? A resposta será: muito poucos.

Ao contrário da banda sonora de um filme, que é imutável, a banda sonora da nossa vida vai-se construindo, alterando e crescendo. Talvez por isso seja tão difícil construir uma banda sonora biográfica.

Mas fica o desafio. Pensa naquelas músicas que foste ouvindo ao longo da tua vida. Pensa naquelas músicas que associas aos momentos chave da tua vida. Pensa naquelas músicas que te fazem lembrar aquela pessoa especial. Pensa naquelas músicas nas quais te refugias nos momentos mais complicados. Pensa naquelas músicas nas quais soltas a tua alegria nos momentos mais alegres.
Aí está. Acabaste de construir a banda sonora da tua vida até hoje.

Agora pensa, há quanto tempo não ouves a maioria dessas músicas? Há dias? Há meses? Há anos? Então vai ouvi-las porque como dizia a música, "recordar é viver". E recordando, percebes como és hoje e o caminho que fizeste para aqui chegar.