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segunda-feira, fevereiro 24, 2014

Doctor Who: The Day of The Doctor (50th anniversary)



SPOILERS

Clara sometimes asks me if I dream. "Of course I dream," I tell her, "Everybody dreams". "But what do you dream about?" she'll ask. "The same thing everybody dreams about," I tell her, "I dream about where I'm going." She always laughs at that. "But you're not going anywhere, you're just wandering about". That's not true. Not anymore. I have a new destination. My journey is the same as yours, the same as anyone's. It's taken me so many years, so many lifetimes, but, at last, I know where I'm going, where I've always been going: Home, the long way 'round.
The Doctor


The Night of The Doctor

Neste mini-episódio temos uma surpresa maravilhosa. Paul McGann regressa como 8º Doctor para nos mostrar os seus últimos instantes, fazendo a passagem para o Doctor misterioso de John Hurt. Logo no início percebemos que o 8º Doctor tem estado afastado dos conflitos da "Time War" entre os Time Lords e os Daleks, continuando a ajudar aqueles que pode ao longo do Universo. Contudo, o facto de ser um Time Lord tem-lhe causado problemas, as pessoas já não confiam mais nele, temendo-o. Isto é importante para mostrar que neste momento os povos temem os Time Lords como temem os Daleks e que a grande Time War poderá destruir todo o Universo se não for terminada. Isto é muito importante para justificar as acções futuras do Doctor.

Outra surpresa é que o Doctor acaba por morrer ao tentar salvar uma mulher de nome Cass. Como ela recusou o salvamento acabaram os dois por se despenhar em Karn (o Doctor devia ter-se protegido na Tardis). Claro que tudo aqui parece ser obra do destino uma vez que se despenhou no planeta da Sisterhood of Karn, um grupo de mulheres que o reanimam temporariamente na esperança de que o Doctor aceite regenerar-se para terminar esta guerra. O nome Doctor é uma promessa e por isso é muito complicado para esta personagem entrar numa guerra, quando ele vive segundo o lema de que a violência gera violência. Mas tendo razão, será que se pode viver sempre sob o manto do pacifismo? Como se termina uma guerra como a Time War? Nesse momento de desespero o Doctor aceita regenerar-se de forma controlada, ou seja, a irmandade de Karn consegue criar poções que irão dar o corpo que ao Doctor mais convém. Colocando uma pausa no seu título o 8º escolhe o corpo de um guerreiro, aquele que participu na guerra, aquele que a terminou e por isso mesmo tem o seu nome esquecido da grande história desta personagem. O Doctor sem número, o War Doctor.

Existe ainda um outro mini-episódio - "The Last Day" - que nos mostra o início da batalha que levaria à queda de Arcadia.


The Day of The Doctor

Em "The Day of The Doctor" vemos o regresso de mais uns míticos vilões de Doctor Who, os Zygons (que antes apenas haviam aparecido num episódio). O mais interessante destas criaturas é a sua capacidade de assumirem a forma de outros seres vivos. Num ataque à Terra que envolve duas linhas temporais a história dos Zygons acaba por ligar o 10º e o 11º Doctor em termos narrativos. Mas a sua junção fisica ocorre por causa do War Doctor e do momento em que este decide terminar a guerra de uma vez por todas.O cerne do episódio é esse preciso momento em que o Doctor terminou a Time War.

Para terminar a guerra o War Doctor chega à conclusão que a única forma de o fazer é aniquilando Gallifrey juntamente com os Daleks. Para isso rouba "The Moment" uma arma de destruição massiva capaz de engolir galáxias. Mas devido aos seus poderes devastadores esta arma desenvolveu uma consciência que através de um interface comunica com o seu utilizador (tecnologia Time Lord). Desta forma "The Moment" assume uma figura do futuro do Doctor (achando ser do passado) para lhe mostrar o futuro após o momento em que destruiu o seu planeta de origem. Este interface é, nada mais nada menos, do que Rose Tyler quando absorve o Time Vortex, ou seja, Bad Wolf. Pensava mesmo que Rose iria aparecer no episódio, mas acho que esta foi a melhor forma de trazer Billie Piper. Rose teve um final feliz e está em outro Universo, os assuntos deste já não lhe dizem respeito. Como Donna não se pode lembrar ou Amy que já morreu, todos têm um fim, todos menos o Doctor.

Desta forma "The Moment", com uma facilidade necessária para a narrativa, junta os Doctors em vários momentos, nomeadamente no momento decisivo da Time War, evento que supostamente estava bloqueado. Mas antes de chegar aí vale a pena mencionar as aventuras que os três Doctors tiveram na Terra contra os Zygons. O episódio foi muito revivalista, algo que se notou logo com a introdução original. Este revivalismo foi muito bem desenvolvido, há uma série de referências ao passado da série que são muito bem introduzidas ao longo da aventura. E tivemos finalmente revelado mais sobre o passado entre o Doctor e a rainha Elizabeth I. A interacção entre os três Doctors é fabulosa e John Hurt assenta que nem uma luva no papel, não nos fazendo questionar a sua identidade.

Moffat gosta de mexer muito com a mitologia de Doctor Who. Ele criou um segundo Big Bang fazendo um enorme reset ao Universo; ele meteu os Silence a manipular os humanos (sabe Deus desde quando); ele criou o momento em que o Doctor morre, colocando um vilão e, posteriormente, uma companion a fazerem parte da linha temporal do Doctor. Ele gosta de grandes mudanças e desta vez trouxe-nos um novo Doctor que estraga os números, uma vez que Tennant será sempre o 10º e Smith o 11º. Para isso fazer sentido este Doctor teve um papel ingrato e por isso não é, supostamente, digno de usar o título do Doctor. Não sei se Eccleston tem aceitado regressar, se não seria ele próprio o War Doctor, não havendo necessidade para o resto. O 9º Doctor seria o único que eu vejo a encaixar neste papel, uma vez que é o que mais se assemelha a um soldado, um guerreiro. Talvez o argumento sofresse algumas alterações, o Eccleston não é de facto o War Doctor aqui descrito, ou talvez, a personagem do John Hurt sempre surgisse e Eclleston apenas seria mais um Doctor nesta grande mistela. De qualquer das formas, aqui acho que Moffat conseguiu criar algo inovador, interessante e estimulante. O War Doctor funciona. Já agora andava a imaginar um Sonic Screwdriver com a luz vermelha por isso quando vi o do War Doctor fiquei em extâse. Vermelho tinha de ser a sua cor.

Curioso que desde a fase de John Hurt que o Doctor tem vindo a ficar mais novo e, ao mesmo tempo, vindo a recuperar a vontade em viver. Talvez por esse conjunto de factores o 10º e o 11º sejam tão juvenis comparado com o War Doctor que apesar de mais novo parece bem mais velho. A guerra faz isto às pessoas. Seria era interessante ter o 9º Doctor a fazer a transição entre estes Doctor's.

No final, os três Doctors conseguem salvar a Terra (apesar de não sabermos como) e também Gallifrey. Em vez de destruirem o planeta dos Time Lords (com todos os seus inocentes) os Doctors decidem remover o planeta para um outro Universo, onde ficará perdido, mas vivo. Ao fazê-lo as hordas de Daleks irão destruir-se umas às outras (o que também justifica mais facilmente porque tantos Daleks sobreviveram). Afinal no momento mais negro da vida do Doctor ele conseguiu na mesma ir por outro caminho. Claro que para isso foram precisos todos os 13 Doctors. Sim! 13! O cameo de Peter Capaldi é mais um momento de puro fascínio neste episódio. Agora também o War Doctor faz parte deste panteão honroso, mesmo que não o venha a recordar. os Doctor's não são 11, mas sim 12 (isto vai ser caótico). A utilização de filmagens antigas para se sentir a presença de todos os Doctor's foi muito bem conseguida e conseguiu comemorar de uma forma única e especial estes 50 anos de "Doctor Who". A finalizar tivemos o cameo de Tom Baker o 4º Doctor que aqui parece regressar ao papel de Doctor, mas a qual? Talvez a um de um futuro muito distante. Um momento certamente ainda mais emocionante para os seguidores da série antiga.

Chega assim ao final o grande dia do Doctor e com ele a promessa de uma Gallifrey algures perdida. Temos aqui também o mote para a próxima temporada, a busca do Doctor pela sua casa e isso é muito aliciante.

Porém, houve uma parte em particular que me deixou com alguma pena. Falo dos acontecimentos de "End of Time". O concelho que decorre nesse episódio chefiado por Rassilon é mencionado neste especial para nos mostrar que não foi esquecido, contudo, não seria importante referir que os Time Lord esboçavam um plano para aniquilar toda a existência como foi mencionado em "End of Time"? Se nos basearmos apenas em "The Day of The Doctor" o sentimento de destruição do Universo é sentido, mas apenas como o resultado da continuada batalha entre dois povos. Em "End of Time" era claro que o presidente dos Time Lords se tinha passado ainda mais da cabeça e por esta altura o War Doctor já teria conhecimento destes planos uma vez que o 10º tinha (caso contrário nem mencionaria isto). Na altura até tinha ficado com a impressão que os Time Lords não tinham sido mortos mas presos no tempo, que o Doctor teria feito isso em vez de os matar, mas parece que fiz confusão com o facto de a gerra estar time locked. Também a profecia de que o Doctor os pararia poderia ser mencionada. Ou não era sabida por todos? De qualquer das formas esse lado negro dos Time Lords foi esquecido e reforçava a necessidade da acção do Doctor. Uma acção que afinal ele nunca tomou. Suponho que estes eventos decorram um pouco ao mesmo tempo que os "The End of Time", caso contrário esse ataque poderia nunca ocorrer e assim sendo o 10º Doctor não teria morrido. Com isto não quero deixar de salientar todo o trabalho que Moffat teve a escrever isto, a forma como interligou os acontecimentos e conseguiu construir uma peça monumental de História para esta série. Os meus sinceros parabéns Steven Moffat és um dos maiores.

Inicialmente (em 2005) o Doctor é-nos apresentado como um sobrevivente da guerra, um que teve de sacrificar o seu povo para salvar o Universo. Com o 10º Doctor essas razões foram mais aprofundadas, de certa forma, justificando-as ainda mais. Agora Moffat tirou-lhe esse peso da consciência. O Doctor conseguiu, mais uma vez, não derramar sangue (se não contarmos com os Daleks). É, novamente, uma decisão que mexe muito com a mitologia, afinal a destruição do seu povo fez parte do que era este novo Doctor. Mas acho que as coisas foram feitas com muita dedicação e cuidado (salvo o apontamento atrás) e a possibilidade de ter os Time Lords de volta é muito boa. O Doctor mais do que um herói é aquele que prometeu não ser cruel, não fazer sofrer e sempre ajudar. Não sei se será sempre possível, mas enquanto ele conseguir que seja esse herói, esse Doctor que cura o Universo vezes e vezes sem conta.

segunda-feira, fevereiro 03, 2014

Doctor Who: Especiais 2008-2010



SPOILERS


The Doctor: There's an old Earth saying, Captain. A phrase of great power and wisdom and consolation to the soul in times of need. 
Captain Addams: What's that then?
The Doctor: [shouts] Allons-y!!!


De forma a dar tempo a Steven Moffat para assumir as rédeas de "Doctor Who", após o término da quarta temporada, Russel T. Davies planeou apenas episódios especiais para o ano de 2009. Como David Tennant decidiu sair ao mesmo tempo que Davies, estes últimos episódios seriam a despedida de ambos e isso faz-se bem notar nestes episódios que vão crescendo gradualmente em termos de tensão e emoção.

No especial de Natal "The Next Doctor" temos mais um conto de esperança que envolve o regresso dos Cybermen a este Universo, no ano de 1851. Um episódio que se torna divertido graças à história em torno de Jackson Lake que se apresenta como "The Doctor" com a sua companheira Rosita. Como Davies é um homem de grande espectáculo, desta vez traz-nos como problema final um Cybermen gigante. Com este homem é sempre tudo em grande, questiono-me aonde ele poderia ir mais se continuasse a planear as temporadas de "Doctor Who".

"Planet of the Dead" também é um daqueles episódios leves e cómicos, apesar de todo o mistério em torno do enredo. O que gostei mais foi da nova espécie criada, capaz de criar wormholes. Todo o design daquelas criaturas é não só funcional como assustador e mal foram introduzidos o episódio assumiu logo um tom mais tenso, mas não o suficiente para o colocar na lista dos melhores. É aqui também que se dá mais um pedaço da profecia sobre a morte do Doctor: "ele baterá 4 vezes antes...".

Contudo, é em "Waters of Mars" que o suspense volta a dar cartas, como Davies havia conseguido em "Midnight" (temporada 4). O Doctor vai parar à primeira base humana em Marte, um daqueles pontos fixos no tempo que resulta na morte de toda a equipa. Ele sabe que não se deve envolver, que este é um momento crucial na História da Terra, mas...

Acho que nunca antes o Doctor havia focado que a maior parte do tempo está em fluxo e que os pontos fixos existem, mas são a minoria. O desastre que levou à destruição da base tem origem num vírus que se encontrava na água. A criação deste novo pesadelo funcionou muito bem e teve aquele nível de terror que apenas criaturas como os Vashta Nerada conseguem transmitir. Como se consegue derrotar um vilão composto por água? Como o Doctor diz, a água vence sempre. Pode demorar milénios, mas nada a pára: " água mole em pedra dura....".

Apesar de saber melhor o Doctor acaba por salvar três membros da tripulação, mas não sem antes explicar as consequências à Capitã. Estes especiais são marcados por um Doctor que anda sozinho. Depois de todos os acontecimentos passados o Doctor abandonou a ideia de ter uma Companion para não causar tragédia a mais ninguém. Um Doctor sozinho é um Doctor mais vulnerável ao seu lado negro. Quando ele decide salvá-los, decide quebrar as regras impostas pelos Time Lords, pois ele agora é o único e o supremo. Esse nível de poder é algo que nenhum Homem ou Time Lord deve ter e essas regras existiam por uma razão. Felizmente a Capitã Adelaide Brooke compreende o erro do Doctor e suicida-se. Por muito trágico que isto tenha sido é um despertar para ele, um que era muito necessário. Mais do que nunca compreendemos neste episódio que o Doctor pode tornar-se o seu pior inimigo, nunca antes o tínhamos visto assim.




E por fim temos "The End of Time", um especial dividido em duas partes que tem a tarefa mais árdua de toda a série até agora: a despedida de Russel T. Davies e David Tennant. A ligação entre criador e personagem é imensamente forte, este é o Doctor que Davies prefere e a partida de um simboliza a partida do outro.

Uma característica de Davies é que ele gosta de ir colocando referências ao longo dos episódios para depois concluir a história num épico de proporções magnânimas. As suas season finale envolvem sempre acontecimentos tão devastadores que parece sempre que os heróis estão perdidos, até ele introduzir algo que salve o dia, algo que normalmente assume proporções divinas, como quando a Rose absorveu o time vortex da Tardis, ou quando a crença da humanidade no Doctor o libertou das amarras do Master. Na temporada passada Davies já nos tinha trazido os clássicos Daleks com o plano mais ambicioso e devastador de todos: a destruição da existência em todos os universos. Para ajudar o Doctor, Davies reuniu todos os Companions que ele foi tendo na série, a malta de Torchwood e até a Sara Jane Smith. Depois de um final tão bom, o que poderia vir a seguir? Quem é que Davies iria trazer no confronto final de Tennant?

Antes, um pequeno aparte. Gostava de ver os Daleks triunfarem uma vez, numa versão falsa. É que os Daleks vivem para exterminarem. Depois de conseguirem ser a única espécie nos universos, qual o próximo passo? Não há. Eles são uma espécie criada para a guerra, não têm lugar noutra situação. Não os imagino a casar e ter filhos, a ver TV e ir às compras. Mas continuando...

A primeira parte começa a ser narrada pela voz poderosa de Timothy Dalton e é nesta narração que percebemos que vamos estar perante algo diferente, único e especial. O Doctor volta a ser convocado pelos Ood, como estes haviam previsto. Todo o universo está em perigo e só o Doctor lhe pode valer.

O primeiro inimigo a surgir é o "The Master". Adorei este Time Lord, o episódio em que ele despertou na terceira temporada e o facto de ouvir aquele tambor dentro da cabeça, foram momentos que definiram muito bem esta louca personagem - uma espécie de Moriarty do Doctor. Neste seu regresso não me conquistou particularmente, a personagem tinha morrido e teve de voltar através de um ritual de ressurreição que não funcionou na perfeição, deixando-o com traços de Skeletor. Contudo, o seu papel é essencial nesta história e há medida que avançamos nela cada vez mais a personagem vai trabalhando melhor o material que tem.


Claro que o regresso do Master só por si não chegava. O Doctor já o enfrentou e depois dos últimos acontecimentos só havia algo que Davies ainda não tinha explorado. Uma das raças mais antigas e poderosas da existência: os Time Lords! Acho que todos nós, já nos havíamos questionado sobre uma possível aparição e finalmente Davies responde às nossas preces. Ficamos a conhecer melhor o que aconteceu a esta espécie ancestral e ao porquê das acções do Doctor que optou por aprisioná-los na Time War. 

Em relação ao Master fechou-se o círculo aqui, explicando que a batida que ele ouve, foi implantada pelos próprios Time Lords para um dia poderem regressar. Este povo que foi transformado pela guerra e por isso mesmo aprisionado pelo Doctor, prepara-se para ascender a um outro nível de consciência, eliminando tudo o resto. Aqui as forças do Doctor unem-se às do Master e juntos expulsam os Time Lords, aprisionando-os novamente. Dos Time Lords aprisionados, apenas dois se mantiveram contra Rassilon (Timothy Dalton), o fundador desta sociedade (houve uma terceira que foi morta por ele). Serão esses dois os pais do Doctor?

No final do confronto, o Doctor emerge assim vitorioso, sem recorrer à violência e, surpreendentemente, vivo. A felicidade espelhada na sua cara é imediata, ele conseguiu, ele venceu e sobreviveu… até que ouve as 4 batidas que foram profetizadas. 4 simples batidas de Wilfred, o avô de Donna Noble e companheiro desta sua última aventura. O Doctor sempre pensou que morreria na batalha, mas não, ele morre para salvar o velho Wilfred, que se aprisionou numa câmara também para salvar outra pessoa. Uma câmara prestes a ser inundada por uma dose massiva de radiação, uma câmara que obriga sempre um homem a estar lá dentro e cujos problemas técnicos não deixam o sonicscrewdriver salvar o dia. Uma escolha difícil, mas que nunca foi realmente uma escolha para o Doctor.

Ao contrário do 9º Doctor, este 10º é alguém cuja paixão pela vida é muito maior. Apesar de ambos terem um lado de profunda tristeza, o Doctor de Eccleston aceitou a sua morte de forma mais serena. Ele é o Doctor que vem da guerra, talvez aquele que tenha inicialmente aprisionado para sempre o seu povo e talvez por isso mesmo seja mais amargurado na sua vida (apesar de também ter os seus momentos de diversão). Já o 10º apesar de toda a sua tristeza e trevas, é alguém que adora a sua vida e que não a quer largar, por isso ao contrário do seu antecessor vai a gritar e espernear.

 
A despedida de Tennant é muito sentida e foi até agora o momento que mais me emocionou. Davies nunca esqueceu as personagens que passaram pela série e deixou o seu Doctor visitá-las a todas para se despedir, fazendo uma última acção para os ajudar a todos. A visita à descendente de Joan Redfern apanhou-me desprevenido, adorei. Já agora, não conheço a fase da Sara Jane Smith, mas será que existe possibilidade de o seu filho ser do Doctor?

Depois da despedida aos seus Companions, o Doctor recebe uma última visita, a dos Ood, que se despedem dele entoando o seu cântico. Depois a regeneração acontece e tão intensa como nunca antes vista. A própria Tardis é destruída por dentro, tal é a força desta despedida, que teve realmente de tudo. Há que tirar o chapéu a Davies, ele deu todo o seu coração neste momento. Sai David Tennant e entra Matt Smith. Nunca a morte foi tão precursora de vida como em “Doctor Who”. Depois da regeneração estar concluída, toda a dor e tristeza desaparece. Este é um novo Doctor, entusiasmado em conhecer a sua nova vida. Smith parece preencher bem os All –Star de Tennant, vamos ver como corre a sua aventura.

A regeneração que foi algo pensado apenas quando o 1º Doctor teve de sair do papel, foi uma decisão que mudou para sempre a série, dando-lhe um leque infinito de possibilidades. Cada Doctor é diferente e único. A própria série foi também mudando como o seu Doctor e olhando para a antiga, podemos ver que há vários estilos distintos entre elas. Davies não fez um reboot em 2005, ele continuou a partir da antiga. Uma série que bebe da mitologia antiga, mas que tem o seu cunho pessoal, um que apesar de toda a diversão se distingue por assumir um tom negro. Há muita tristeza na história de Russel T. Davies, mas como Sally disse em "Blink": "Sad is happy for deep people".

Estas regenerações vêm sempre carregadas de um misto de emoções. A tristeza em vermos um Doctor que amamos partir e o empolgamento que também existe em ver um novo a nascer. Fico contente por Tennant ter tido direito a tudo o que merecia e agora abraço a nova fase da série. Steven Moffat é um homem que já provou ser capaz de tudo na TV (Coupling, Sherlock) e que tem alguns dos meus episódios favoritos de "Doctor Who". Estou ansioso e mal posso esperar.

De resto, nunca vos esquecerei Russel T. Davies e David Tennant. Sem vocês isto não tinha sido o mesmo.

ALLONS-Y!!!!!!!!!!!!!!!!

quarta-feira, janeiro 29, 2014

Doctor Who - Temporada 4



SPOILERS

I just want you to know, there are worlds out there, safe in the sky because of her. That there are people living in the light, and singing songs of Donna Noble. A thousand, million light years away. They will never forget her, while she can never remember. But for one moment, one shining moment, she was the most important woman in the whole wide universe.

The Doctor



"Doctor Who" consiste numa série de aventuras de um Time Lord, normalmente acompanhado por alguém humano, que viaja ao longo do espaço e do tempo, na sua nave espacial, cuja imagem é a de uma cabine telefónica (é um dispositivo de camuflagem, mas que ficou avariado na primeira aventura deste Doctor e quando digo a primeira é mesmo essa, em 1963).

Quando narrativamente nos envolvemos no tema das viagens no tempo, é preciso ter em conta como o vamos desenvolver. Por exemplo, o que acontece se o Doctor viajar ao passado e mudar um determinado acontecimento? Será que toda a continuidade do mundo mudaria também? Ou será que os acontecimentos em que o Doctor está envolvido acabam por ser os responsáveis pela continuidade já existente?

Uma vez que na série o tempo não é abordado como uma força linear, mas antes como uma - citando o Doctor -  "big ball of wibbly-wobbly... timey-wimey... stuff", a resposta está mais próxima da segunda hipótese levantada. Ter uma história com um universo em constante alteração poderia ser extremamente complicado uma vez que as repercussões seriam sempre gigantes. O que acabamos por ter na série é uma representação do tempo muito maleável em que existem determinados pontos fixos - assegurando continuidade - e outros flexíveis - onde as aventuras do Doctor podem decorrer mais à vontade. Ao longo destas 4 temporadas isto foi sendo sempre explorado e explicado. Contudo, os pontos fixos podem ser alterados, as consequências é que são severas como vimos na primeira temporada quando Rose salvou o seu pai e o Universo respondeu de volta. Para tudo isto funcionar o Doctor tem de ser capaz de distinguir os pontos fixos e os flexíveis. Por alguma razão ele é um Time Lord.

Nesse sentido é curioso ver como a série utiliza determinadas aventuras para serem causadoras ou estarme envolvidas em determinados acontecimentos da História. Ou seja, a continuidade delas está ligada a criaturas que ainda nem nasceram, tal como a erupção do Vulcão de Pompeia ou o desaparecimento misterioso de Agatha Christie. No fundo esta abordagem é similar à do James Cameron em "Terminator" onde o pai de John Connor é um homem que nasce muito depois do seu filho.

Tendo tudo isto em conta, simpatizamos quando Donna Noble quer salvar o povo de Pompeia em "The Fires of Pompeii", mas compreendemos que é algo que o Doctor não deve fazer. As repercussões no mundo seriam severas e passar uma vida a assistir a acontecimentos destes sem poder fazer nada, já deve ser penitente o suficiente. Ainda assim, surpreendentemente, Noble convence o Doctor a salvar uma família, o que não me fez muito sentido se supostamente quem morreu no passado não pode voltar. A única explicação para não existirem consequências neste caso é que essa família sempre foi salva pelo Doctor, mas isso pode levantar a questão: porque é que ele não os salvou logo? Será que não conseguiu ver que eles eram um ponto móvel no tempo... ou arriscou? o que seria ainda mais estranho. Bem, isto tudo para dizer que quem mexe com viagens no tempo depara-se com situações complicadas deixando as narrativas muitas vezes com questões do género. É como no "Regresso ao Futuro", quando Marty viaja só 15 minutos para o futuro ele deixou de existir nesses 15 minutos, mas quando viaja 30 anos, o mesmo não ocorre uma vez que ele encontra a sua versão mais velha. Sim eu sei que "Doctor Who" é uma série completamente surreal, com momentos "Deux Ex-Machina", mas gosto muito de discutir viagens no tempo e há sempre a questão da coerência da mitologia criada.

Ainda em relação ao "The Fires of Pompei" é de salientar que é um episódio muito especial, uma vez que participam nele Peter Capaldi - que é agora o novo Doctor - e Karen Gillan que será uma Companion do Doctor no futuro (a actriz, não a personagem que interpreta aqui).

Mas estou a adiantar-me. Ainda queria referir que antes desta aventuras tivemos o clássico especial de Natal que no final da temporada anterior prometia decorrer no Titanic. De facto tal é verdade, mas não no Titanic que esperaríamos. O Doctor vai parar a uma nave espacial que se trata de um réplica do antigo navio. Uma nave alienígena e turística que como sempre é mais do que aparenta à primeira vista. A assistir o Doctor temos a cantora pop Kyle Minogue.

Começando a 4º temporada propriamente dita com "Partners in Crime" temos logo uma grande grande surpresa. O regresso de Donna Noble. Tinha dito em relação à temporada anterior que esta personagem tinha imenso carisma para ser uma Companion. Uma pena que apenas tivesse durado um episódio. Não sei se isto estava já planeado, ou se o feedback positivo fez Russel T. Davies ir buscá-la. A verdade é que não interessa. O importante é que a 4º temporada é com Donna Noble e isso é brilhante. Não esperava que o enredo fosse com criaturas fofinhas que são gordura do nosso corpo, mas a dada altura uma pessoa já espera de tudo desta série. O que é também a sua grande força, tudo é possível em "Doctor Who".

Nesta temporada conhecemos também as origens dos Ood, um povo que foi torturado para se tornarem escravos do Homem. É uma imagem aterradora do nosso futuro, uma que nunca devia existir. Mais triste que ver um profundo erro cometido pela humanidade, é ver esse mesmo erro ser repetido. Os Ood são salvos pela dupla maravilha e após mostrarem a sua gratidão dão um aviso ao Doctor. A sua canção está para terminar... Eu já sabia, mas custa sempre ser lembrado.

Em seguida Doctor e Donna Noble regressam à Terra a pedido de Martha Jones. Gostei que esta Companion tivesse um papel de destaque nesta temporada, uma vez que entrou na temporada de "luto", nunca tendo a atenção que queria por parte do Doctor (bem também tem culpa que ele só queria um mate). Para compensação Jones terá sempre entrado em alguns dos melhores episódios de "Doctor Who". Mas voltando a este enredo. Jones abandonou as viagens com o Doctor, mas não as aventuras fora de órbita. Hoje é um soldado da UNIT (United Nations Intelligence Taskforce) e faz parte da vanguarda das defesas terrestres contra ataques extraterrestres.

A partir daqui seguem-se uma série de episódios bem distintos e muito divertidos. "The Doctor's Daughter" teve muito mais graça do que pensava a início. Adorei a forma como os dois povos em questão batalhavam há tantas gerações quando afinal tinha passado tão pouco tempo. E claro que a filha do Doctor - que tecnicamente não é mesmo filha - não podia morrer. Espero que a voltemos a encontrar, afinal de contas, Time Lords não é uma espécie que anda por aí em grandes números ultimamente.

Depois tivemos o - já mencionado - encontro com Agatha Christie, que poderia ter saído de um dos seus livros - excepto a parte alienígena. Aqui acho que o vilão devia ter sido trabalho noutra direcção, preferia-o, mas a história em si não é má e capta a atmosfera dos mistérios da autora que agora se fundem com a mitologia deste universo.

"Silence in the Library" e "Forest of the Dead" voltam a mostrar como o tempo é uma força tramada. Alguém pediu a ajuda do Doctor num planeta que já foi inteiramente uma biblioteca, mas que devido a problemas misteriosos ficou desabitado. A história é muito boa e temos conhecimento pela primeira vez de River Song, uma mulher que parece conhecer uma versão futurista do Doctor. Não ficamos a saber muito sobre qual a sua relação com ele, mas o facto de saber o seu nome verdadeiro prova que será muito intima. Marido e mulher? O futuro o confirmará.

Antes de entrarmos na recta final ainda tivemos o claustrofóbico "Midnight". Adoro este tipo de história em que um grupo de pessoas fica isolada numa situação de tensão. A forma como isso afecta cada indivíduo  dá sempre azo a questões pertinentes. "Midnight" não desiludiu nada, antes pelo contrário. Será que Russel T. Davies tem o seu melhor episódio em "Doctor Who" nesta abordagem mais contida? Ele que gosta tanto de excessos.

E pronto, a preparar o terreno temos "Turn Left", que nos mostra uma visão do mundo sem o Doctor, caso a Donna Noble nunca o tivesse conhecido. Felizmente tivemos o tão esperado regresso de Rose Tyler, que me deixou em completo êxtase quando proferiu as palavras "Bad Wolf". Este regresso era esperado, pois já veio a ser induzido ao longo da temporada.

Quanto ao final foi completamente épico e dedicado aos fãs. Todos os Companions da nova série regressaram, mais a Sara Jane Smith e o seu K9 (que por pouco achei que não ia aparecer). Também no lado dos vilões tivemos o regresso do Dalek Caan (dos Cult of Skaro) e Davros - o criador dos Dalek - que aparentemente foi salvo por Caan. O Doctor ficou muito impressionado com esta acção que nunca nos chega a ser explicada, contudo, também ele no passado tentou manter o pai de Rose vivo, o que é indicativo que existe essa possibilidade. Neste caso não temos respostas, mas sabemos que o que quer que Caan tenha feito o deixou louco e clarividente. Claro que mais para o fim percebemos que Caan é muito mais lúcido do que aparentava.

Sei que David Tennant está quase a abandonar o papel, mas assustei-me quando se regenerou, pois contava que tal só ocorresse nos episódios especiais. Afinal o susto foi curto, graças à mão que mantém na Tardis ele conseguiu manter o mesmo corpo. Claro que o momento mais bizarro, foi quando a partir da mão cresceu um outro Doctor. Um meio time lord e meio humano que acabou por ser usado para dar um final feliz a Rose. Foi um misto de tristeza e felicidade esse momento, depois de todas as aventuras Rose ficou finalmente com o Doctor (que lhe disse as palavras que ela mais queria ouvir). Mas o Time Lord, esse continua, como sempre, ao longo do espaço e do tempo. Algo que tem vindo a ser cada vez mais focado é a importância de um Companion na vida do Doctor. Como ele referiu a Rose, ela fê-lo uma pessoa melhor e com esta decisão ele conseguiu ajudá-la tanto a ela como à sua versão humano. Ahh "this man, this remarkable man".

Mas triste a sério foi o final de Donna Noble. De todas as Companions ela era a que acreditava menos em si. Estas aventuras mudaram-na e agora ela vê-se forçada a esquecer tudo de novo. Um humano não tem capacidade para ter a informação de um time lord no seu cérebro e por isso o Doctor obriga-a a esquecer tudo. Mas nós nunca te esqueceremos Noble, foste uma Companion brilhante e tão tão divertida. Como não adorar esta mulher que não largou o Captain Jack desde que o viu? E a interacção entre ela e o Doctor meio humano? Hilariante.
Dois Doctors; Donna Noble; Rose Tyler e familia; Martha Jones; Sara Jane Smith e parceiros; Captain Jack Harkness e Torchwood; e Harriet Jones, former Prime-Minister! Todos se juntaram para nesta conclusão enfrentarem juntos essa horde do mal que são os Daleks, naquele que prometia ser o ataque mais devastador de todos até agora.  A ideia de raptarem planetas foi tão épica e tão boa. E as pistas? Essas estiveram sempre lá. Que temporada maravilhosamente bem planeada. Muitos Parabéns Russel T. Davies. A saída de Tennant corresponderá também à saída de Davies e é preciso agradecer-lhes por tudo o que fizeram. Um muito obrigado.

Venham lá esses especiais agora. Já estou com saudades do Tennant e ele ainda nem saiu.

ALLONS-Y!!!!!!!!!!!!!!!!

quarta-feira, dezembro 18, 2013

Doctor Who - Temporada 3



There's no such thing as an ordinary human.
The Doctor


SPOILERS

A recta final desta temporada foi tão emocionante que nem me estou a lembrar de como tudo começou. É preciso acalmar, respirar e cá vamos nós.

Depois de nos termos despedido de Rose, uma estranha mulher vestida de noiva surgiu inesperadamente na Tardis, seu nome: Donna Noble. Pensava que Noble iria ser a próxima Companion do Doctor, mas foi-o apenas durante o especial de Natal, é pena. Tudo à volta desta personagem foi uma surpresa, não só o seu aparecimento, como a sua própria personalidade. Esta não era a Companion que imaginaria (apesar do meu conhecímento mínimo ainda) a aliar-se com o Doctor e por isso é que funcionou tão bem. Gostei particularmente da sua atitude que não mostrou qualquer problema em dar dois pares de estalos ao Doctor, que por vezes bem precisa.

Depois de nos despedirmos dela, entra em cena Martha Jones, cuja actriz já tinha surgido na segunda temporada, mas a interpretar uma personagem diferente (dizem que uma prima). Jones já entra num registo mais próximo ao de uma Rose e a personagem sofre mais por isso. Ela é jovem, bonita (até agora é a Companion mais linda) e fascinada pelo Doctor, mas todos nós - incluído a própria série - ainda estamos de luto pela loira. Por isso é que acho que a opção de uma Companion como a Donna, nesta altura, teria sido mais proveitoso. Eu gostei da Martha, mas, infelizmente, nunca conseguiu sair da sombra de Rose. O que até faz sentido, ninguém queria que o Doctor se esquecesse dela assim tão rápido.

Após a primeira aventura destes dois, na Lua, o Doctor não aceita imediatamente Jones como sua Companion, oferecendo-lhe, pela ajuda, uma viagem na Tardis. Ûma viagem até ao passado para conhecer William Shakespeare, não foi mesmo nada mau, mas quem vê o passado, quer ver o futuro e com o tempo Jones torna-se oficialmente - com direito a chave e tudo - na sua fiel Companion, que muito lhe valeu nesta temporada.

No regresso do Doctor a "New Earth", as coisas estão muito diferentes desde a última vez que lá esteve com Rose. Aparentemente, devido a um vírus, aqueles que moravam à superfície morreram, com excepção da "The Face of Boe" e sua ajudante, que têm vindo a ajudar o resto dos sobreviventes. É, finalmente, neste episódio que Boe revela o seu famoso segredo ao "Doctor" e que consiste em: "You Are Not Alone". Apesar do Doctor desvalorizar isto, é impossível não pensar que existe a possibilidade de além dele termos outro Time Lord a vaguear pelo espaço e tempo. Outra curiosidade que surge no final da temporada é que "The Face of Boe" poderá ser um futuro Captain Jack Harkness, que desde que voltou à vida na primeira temporada, é imortal (parece que Rose fez mais do que queria).

Lembram-se do "The Cult of Skaro"? esse grupo secreto de Daleks safou-se no final da temporada anterior, tendo viajado no tempo e ido parar a  Manhattan em 1930. A fim de lutar pela sobrevivência da espécie, o líder dos Daleks decidiu assimilar DNA humano, tornando-se no primeiro Dalek Humano. Mas já tinhamos visto na primeira temporada o que o contacto com a nossa humanidade poderia fazer a estas criaturas sem sentimentos. De facto o Dalek Humano acaba por concluir que a via dos Daleks é errada e chega a dar a sua vida para defender isso. A possibilidade dos Daleks continuarem a sua existência assim era boa demais para ser verdade e, claro, não se pode perder um dos vilões icónicos. De qualquer das formas fica a sensação que se perdeu uma grande oportunidade aqui, a ideia é muito boa, mas o episódio nunca chega ao ponto certo, apesar de ser interessante o retrato do ambiente de uma América nos anos 30. Neste duplo episódio há que salientar a aparição do Spider-Man Andrew Garfield.

Depois de mais algumas aventuras - na Terra e no espaço - quando a série chega a "Human Nature" arranca com um fôlego que nunca mais perde. Neste episódio duplo (com "The Family of Blood"), o Doctor esconde-se na Terra, escondendo as suas memórias num relógio e alterando a sua fisionomia para a de um humano. Tudo isto para não enfrentar uma família de aliens que o procura para se alimentarem dele. Neste episódio temos o vislumbre de como o Doctor poderia levar uma vida humana, sendo um professor chamado John Smith que até encontra o amor. Quando a presença do Doctor é necessária, John Smith não quer abdicar desta vida que construiu, pois ao recuperar a sua memória, a pessoa que é hoje, morrerá. Adorei este confronto emocional de Smith, que acaba por dar a sua vida para salvar o mundo. No final, percebemos que o Doctor não se estava a esconder por receio, mas para poupar a família que o caçava. A ira de um Time Lord não é algo que facilmente se esquece.

Segue-se "Blink", que não é só o melhor episódio desta temporada, como um dos melhores da série. A criação dos sinistros "Weeping Angels" e a exploração das viagens no tempo neste episódio, foi nada menos do que épico. O Doctor poderá aparecer pouco, mas a sua presença fez-se bem sentir, a série tem uma atmosfera que é inconfundível. Quanto à protagonista é Sally Sparrow, interpretada por Carey Mullingan, que lidera muito bem uma das aventuras de maior suspense que a série nos trouxe. Este foi mesmo daqueles que mais me fascinou, arrisco-me a dizer que quem não gosta de "Blink" muito provavelmente nunca vai gostar de "Doctor Who".

Nos últimos três episódios, temos a season finale, que introduz um novo vilão. Depois dos Daleks e dos Cybermen, chegou a vez do "The Master" fazer a sua aparição. É aqui que vemos como tudo foi tão bem planeado ao longo da temporada, é que ainda antes de termos assistido à libertação do Master, já partes do seu plano começavam a decorrer no presente - é uma das vantagens de trabalhar com viagens no tempo. O Master é um Time Lord, que durante a grande guerra do tempo com os Daleks, escapou para um futuro longíquo, próximo do final do Universo (nenhum Time Lord tinha ido tão longe). Para escapar à morte escondeu-se aí recorrendo ao mesmo truque do Doctor, ou seja, guardando as suas memórias e transformando-se em humano. O seu nome é professor Yana que são as primeiras letras da profecia de Boe: You Are Not Alone. Em "Utopia" esta revelação foi qualquer coisa de fantástico. Ao Yada abrir o relógio assistimos assim ao regresso do Master, claramente um dos vilões mais perigosos do Doctor. Acho até agora esta foi a season finale mais terrífica, o Master preparou-se muito bem e a dada altura tudo parecia mesmo perdido. Na primeira temporada também, mas aconteceu tudo muito rápido, desta vez o tempo que o Master dominou na Terra foi muito maior e o seu plano ainda mais aterrador, mas se há coisa que esta aventura nos ensinou é que nunca devemos deixar de acreditar no Doctor. Claro que Davies mete o Doctor a vencer através de momentos Deux Ex-Machina, mas lá que ele consegue canalizar emoção nesses momentos, isso consegue.

Gostei muito de ver o Derek Jacobi como professor Yada e posteriormente como Master. Tenho pena que não tenha tido mais tempo de antena, pois a personagem recorreu rapidamente à arte da regeneração mudando de corpo para o actor John Simm, que também esteve excelente na pele deste insano Time Lord.

Outra excelente notícia, é que nestes três episódios finais tivemos o regresso do grande Captain Jack Harkness que actualmente se encontra a trabalhar em "Torchwood" uma equipa muito diferente daquela que o Doctor conheceu.

No final, mais uma despedida, a de Martha Jones. Ela compreende que o seu amor pelo Doctor não será correspondido e prefere dedicar-se a ela e à família, do que continuar a segui-lo na esperança de que, um dia, ele olhe para ela de forma diferente. Terminamos assim a terceira temporada, há semelhança da segunda, com um Doctor sozinho e a partir para novas aventuras. Antes de viajar ainda assistimos a um acidente, parece que o Titanic esbarrou com a Tardis, mas para saber mais só no especial de Natal e isso já é a 4º temporada.

sexta-feira, novembro 29, 2013

Doctor Who - Temporada 2


Reinette: Monsieur, be careful!
The Doctor: Just a nightmare, Reinette. Don't worry about it. Everyone has nightmares. Even monsters from under the bed have nightmares. Don't you, monster?
Reinette: What do monsters have nightmares about?
The Doctor: Me!

SPOILERS

Russell T. Davies foi imperativo no regresso de "Doctor Who" em 2005. Juntamente com o duo de protagonistas, conseguiram cativar um novo grupo de fãs que foi crescendo (e continua a crescer) com o tempo. O passado também nunca foi esquecido e as referências a tempos e vilões passados fez-se sentir para aqueles que conheciam a série original. Davies, como referi, teve um papel crucial, mas dificilmente conseguiria cativar os espectadores se não tivesse um duo de protagonistas à altura. Christopher Eccleston como Doctor e Billie Piper como Rose criaram uma parceria assombrosa e apesar de Eccleston apenas ter estado uma temporada, acho que o seu trabalho, que contribuiu muito na revitalização deste franchise, nunca poderá ser esquecido. Continuo mesmo a achar que o Doctor de Eccleston só não é tão mencionado como os outros porque contou apenas com 13 episódios. Gosto muito do seu "Doctor Soldado" aquele que traz sempre no olhar o sentimento de ter perdido o seu povo na Time War contra os Daleks, uma prestação bastante séria, apesar do tom da série, que acentou muito bem. Na primeira temporada, juntamente com Rose, despedimo-nos dele para abraçar David Tennant como o 10º Doctor.

As alterações na personalidade dos vários Doctors são a "prova" de que o DNA é realmente crucial no nosso desenvolvimento e não só o ambiente. É que sempre que o Doctor recorre ao seu processo de regeneração o seu corpo muda, logo o seu DNA, e a pessoa que surge perante nós não só é diferente fisicamente como também em determinados traços da sua personalidade, apesar de estarmos perante a mesma personagem com as mesmas memórias. Claro que isto foi um artíficio criado para a série durar mais tempo, mas um artíficio que se tornou icónico e funcional. Muitos poderiam achar que faria sentido o Doctor manter a mesma personalidade, mas em vez de termos uma série de actores a copiarem-se uns aos outros, eu gosto mais desta hipótese. É o mesmo Doctor e não é o mesmo Doctor. Porque consoante o corpo, a sua tendência para determinados traços emotivos pode ser maior ou menor. Ora Tennant sobressai logo por ser mais divertido que o seu antecessor, por vezes um Doctor mais cartunesco até (óculos 3D, brillant).

Esta segunda temporada começou muito bem com aventuras tanto no futuro como no passado. No episódio de Natal, aquele em que o Doctor ainda está a finalizar o seu processo de regeneração, acabámos por reencontrar Harriet Jones, agora primeiro-ministro do Reino Unido, para mais uma aventura. Se bem que o final desta vez não foi tão promissor para o futuro desta mulher, da qual se esperava um caminho mais produtivo politicamente. Foi aqui também que tivemos a primeira menção a Torchwood, uma organização secreta que lida com tudo o que é de origem aliénigena e que teve especial destaque ao longo da temporada. Também porque 2006 foi o ano em que o spin-off com esse nome foi lançado (e onde podemos rever o Captain Jack Harkness).

Segue-se "New Earth" um episódio onde o Doctor tem de enfrentar um grupo de freiras felinas que criam clones humanos para testar neles todas as doenças, numa aventura onde "Doctor Who" volta a esticar a corda até ao ponto de ruptura dos nossos sentidos de lógica - esta é uma série que consegue ser tanto infantil como adulta, é mágica."Tooth and Claw" junta  a Rainha Vitctória no século XIX ao mito dos lobisomens e mostra-nos a origem de Torchwood e "School Reunion" além de um enredo escolar carregado de suspense trouxe de volta Sarah Jane Smith e K9, dois grandes companheiros do passado do Doctor. Um momento importante também pelo facto de Rose, pela primeira vez, se aperceber que não é única. Uma bela reunião, uma belo início de temporada.

Tudo corria muito bem com este Doctor e com Rose a criarem cada vez uma ligação mais forte. Contudo, como em tudo que ocorre uma mudança deste género, primeiro estranha-se e depois entranha-se, ou seja, a presença de Eccleston ainda se fazia sentir e apesar de Tennant ter muita pinta e humor, ainda não me tinha conquistado plenamente. Até surgir "The Girl in the Fireplace" aquele que para mim, até à data, é um dos melhores episódios da série. A história é muito imaginativa, os vilões criaram uma aura de terror fantástica e acima de tudo a relação entre o Doctor e Reinette é uma que não será esquecida. Pela primeira vez vi este Doctor com o seu lado mais sensível e atormentado expostos. Agora sim, Tennant é o Doctor.

Quanto ao pobre do Mickey Smith, ainda criou coragem para partir à aventura ao lado de Doctor e Rose, mas rapidamente percebeu que estava a mais. Esta não já não é a Rose que ele conheceu e namorou. No entanto, uma personagem que normalmente era usada apenas para comic relief, foi crescendo e conquistando o seu espaço, acabando por ficar a travar uma batalha contra os Cybermen num universo paralelo. Um que voltaria a regressar na season finale.

Aventuras a evocar o ambiente de "Twilight Zone" como em "The Idiot's Lantern" e explorações do conceito e da entidade do Diabo em "The Impossible Planet" e "The Satan Pit" foram explorados em seguida - uns melhor que outros.Tivemos também o primeiro episódio que não foi centrado no duo de protagonistas. Em "Love & Monsters" conhecemos a história de Elton e do seu precurso em busca do Doctor, uma abordagem diferente e interessante.

Mas no que toca à recta final, a da 1º temporada foi melhor pois começou no soberbo "Empty Child" e continuou em alta até à despedida do 9º Doctor em "The Parting of the Ways". Mesmo assim o episódio duplo da season finale desta segunda temporada também foi muito dinâmico e emocionante. Davies não resistiu em trazer-nos mais uma vez uma horde de Daleks, mas desta vez com os Cybermen à mistura. A guerra na Terra parece perdida, mas mais uma vez o espirituoso Doctor prova-se à altura do seu nome. O problema é que a solução para este problema implica o afastamento de Rose. Caramba depois de uma grande despedida na primeira temporada, temos outra na segunda. O seu adeus foi tão sentido com aquele momento em que confirmou aquilo que todos sabíamos. Rose vai deixar mesmo muitas saudades, ela foi uma Companion magnífica e agora ficará para sempre (ou não) num outro universo, longe do seu Doctor, que ao contrário do que lhe disse, não vai continuar a viajar sozinho.

Quando foi preciso Rose deu o salto para dentro da Tardis e partiu à aventura. A início tremendo, mas rapidamente tomando-lhe o gosto por estas aventuras deslumbrantes. Aventuras essas que ficarão a ecoar na eternidade. O seu espírito aventureiro e carinho pelos outros sempre deram um toque especial a estes episódios e mesmo não conhecendo outra Companion apetece-me dizer que a sua ligação com o Doctor é das mais especiais. Temo que despedidas é algo que podemos esperar em todas as temporadas.

Agora venha a terceira e vamos lá conhecer quem é esta noiva em fuga que dá pelo nome de Donna Noble.